No MetLife Stadium, na região de Nova York, Erling Haaland marcou duas vezes contra o Brasil, aos 79 e aos 90 minutos, e a seleção saiu da Copa do Mundo de 2026 nas oitavas de final, derrotada por 2 a 1 pela Noruega. Bruno Guimarães havia perdido um pênalti na primeira etapa, defendido pelo goleiro Orjan Nyland; Neymar descontou nos acréscimos, também da marca da cal. Foi a eliminação mais precoce do Brasil desde 1990, e a CNN Brasil registrou o resultado como o maior jejum de títulos da seleção desde o pentacampeonato de 2002. O placar entrou pela janela de milhões de casas e produziu, em horas, um fenômeno que a psicologia do esporte estuda há meio século sob dois nomes técnicos: BIRGing e CORFing.
O luto da Copa não é metáfora frouxa. É processo psicológico descrito, com mecanismo e nome, desde que Robert Cialdini o rastreou em universitários que vestiam a camisa do time quando ele vencia e a guardavam no armário quando ele perdia.
Cialdini publicou o achado em 1976, em três estudos de campo com torcidas universitárias de futebol americano. O basking in reflected glory, o BIRGing, é o gesto de reivindicar a vitória do grupo como extensão da própria identidade, o "nós ganhamos" de quem nunca tocou na bola. O movimento inverso, o cutting off reflected failure, o CORFing, aparece na derrota: o torcedor troca o "nós" pelo "eles", afasta-se do fracasso para proteger o próprio ego. Daniel Wann e Nyla Branscombe mostraram, em estudo de 1990, que quanto maior a identificação do torcedor com o time, maior a tendência a seguir fazendo BIRGing mesmo perdendo, e menor a tendência ao CORFing. É essa variável que separa o torcedor que continua defendendo a seleção do que já trocou de assunto na segunda-feira. Um levantamento da Orbit Data Science sobre 7.855 publicações no X, no Instagram e no TikTok, feito entre 20 de abril e 6 de julho e divulgado pela CNN Brasil, encontrou 63% das mensagens negativas lamentando diretamente a queda precoce, e 41% dos torcedores afirmando que o Brasil nunca mais vencerá uma Copa. É o CORFing em escala nacional.
O psicólogo esportivo João Ricardo Cozac, doutor em Psicologia do Esporte pela USP e presidente da Associação Paulista da Psicologia do Esporte e do Exercício Físico, explicou à CNN Brasil o que se passa na cabeça de quem é apontado como culpado: um mecanismo que a literatura chama de pensamento contrafactual, a mente revisitando o lance decisivo em loop, imaginando desfechos diferentes, cada repetição reforçando a memória emocional do erro. Cozac falava do jogador em campo, mas descreve o mesmo processo que a torcida repete em casa até o cérebro aceitar o placar. O que ele chama de luto esportivo é isso: a reação emocional é real, ainda que o motivo seja um jogo.
No Brasil, esse mecanismo não opera em terreno neutro. A seleção funcionou por décadas como o principal símbolo de identidade compartilhada do país, e a distribuição da culpa depois da derrota tem, historicamente, endereço racial. O caso mais estudado é o de Barbosa, goleiro negro do Vasco transformado em bode expiatório do Maracanaço de 1950 depois da falha no gol de Ghiggia. Ele carregou a acusação até a morte e contava ter sido apontado dentro de uma padaria por uma mulher que disse ao filho pequeno: "esse é o homem que fez o Brasil chorar". O episódio abriu no futebol brasileiro o que a pesquisa acadêmica já nomeou como a "maldição do goleiro preto", o gesto silencioso de escolher quem carrega o fracasso do time e a quem se nega a confiança de defender o gol. Barbosa e Bigode, os jogadores negros do time de 1950, foram os primeiros nomes cotados quando a derrota precisou de um rosto.
A masculinidade entra por uma porta estreita. O choro, vetado ao homem brasileiro em quase todo outro contexto, torna-se permitido, quase esperado, dentro do estádio ou diante da tela durante uma Copa; é a exceção que confirma a regra, o único expediente aberto ao luto masculino em público. Para o homem negro, essa licença condicional de sentir na frente dos outros convive com o risco antigo de ser, de novo, o primeiro nome cotado quando a explicação coletiva da derrota precisa de um rosto. O que a psicologia da torcida ensina, nesse recorte, é que o luto esportivo é real, mensurável e desigualmente distribuído. A mesma multidão que chora junto no domingo já está, na segunda, decidindo quem vai pagar pela dor. Vale perguntar, com Cialdini na mão e Barbosa na memória, quem ela vai escolher desta vez.