Contexto e Leitura

Em 2021, para cada cem mil brasileiros havia 14,5 pessoas brancas com doutorado e cerca de cinco pretas, e é dessa distância que se lê o que a ciência negra do país produziu no primeiro semestre. O número saiu do estudo do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos apresentado em 15 de julho de 2025 na reunião anual da SBPC, em Recife, e não descreve um ponto de largada. Descreve um acúmulo de vinte e cinco anos: entre 1996 e 2021, pessoas brancas receberam 57,8% dos títulos de doutorado concedidos no Brasil, e pretos ficaram com 3,4%. A demografia diz o contrário do que a titulação mostra, porque a população preta e parda é maioria no país desde antes de o Censo de 2022 fixá-la em 55,5%. O desencontro entre os dois números não é ruído estatístico. É um endereço.

O homem negro que assina uma tese chega à banca depois de uma corrida que começou longe dela. A pesquisa sobre evasão no ensino superior brasileiro registra que o abandono se concentra entre os mais pobres e, dentro deles, entre homens pretos, empurrados cedo para o trabalho sem qualificação e para a socialização que confunde estudo com falta de virilidade. Quando o funil chega ao doutorado, o que sobrou é resíduo de resíduo. No Ciência sem Fronteiras, o programa que mandou mais de onze mil bolsistas ao exterior na década passada, homens negros foram 1,3% da graduação-sanduíche, num país onde a população negra passava de metade. A bolsa é pública; o filtro que a antecede, não.

Há um dado que se move na direção certa, e vale dizê-lo sem eufemismo nem festa. O censo do Diretório de Grupos de Pesquisa do CNPq mostra que a fatia de líderes pretos e pardos quase triplicou entre 2000 e 2023, de 8,1% para 22,6%, cerca de quinze mil dos sessenta e seis mil que comandam grupos no Brasil. Entre os homens negros, a subida foi de 4,9% para 12,2%. Na medicina, área que sempre trancou a porta com mais força, os homens pretos passaram de 2,4% a 7% dos coordenadores. É progresso real, e é lento: ao ritmo de doze pontos em vinte e três anos, a paridade com o peso demográfico não é um plano, é uma promessa para o próximo século.

A ciência negra brasileira não produziu, neste semestre, um salto de presença; produziu a prova documentada de que a distância entre entrar na universidade e mandar num laboratório ainda se mede em gerações.

O teto aparece com nitidez quando se olha para quem ensina. Levantamento sobre o corpo docente da pós-graduação mostrou que negros e indígenas somam 7,4% dos professores dos programas de mestrado e doutorado. Nas ciências exatas e naturais, o desequilíbrio é grosseiro: docentes brancos são 90,1% do quadro, doze vezes a fatia de negros e indígenas juntos. Quem forma a próxima geração de pesquisadores é, quase inteiramente, branco. O aluno preto que entra por cota encontra, no fim do corredor, uma sala de professores que não se parece com ele, e essa ausência tem efeito material: define quem orienta, quem indica para banca, quem abre a porta do primeiro artigo assinado.

A política reagiu, mas com atraso e sem trava. A Lei 14.723, sancionada em 13 de novembro de 2023, estendeu as cotas para pretos, pardos, indígenas, quilombolas e pessoas com deficiência aos programas de pós-graduação stricto sensu, terreno que a lei de 2012 tinha deixado de fora. O governo recriou o Programa Abdias Nascimento na CAPES e escreveu a equidade étnico-racial como tema do plano nacional de pós-graduação para 2024 a 2028. É o desenho certo. Falta o que nenhuma lei entrega sozinha: dinheiro de bolsa que segure o aluno preto que não tem renda para bancar quatro anos de doutorado, e uma conta de saída que hoje ainda pune. No mesmo levantamento do CGEE, o mestre preto ganhava, em 2021, 13,6% menos que o mestre branco de mesmo título; entre doutores, 6,4% menos. O diploma reduz a distância salarial. Não a apaga.

O balanço do semestre, então, não é uma lista de vitórias. É uma conta aberta. O homem negro que defende a tese neste ano faz parte dos 3,4% e sabe disso quando entra na sala e conta quantos rostos como o seu existem no prédio inteiro. O que a ciência negra produziu no primeiro semestre foi, antes de qualquer artigo, esse cálculo cotidiano: quanto custa chegar, quanto custa ficar, e quanto ainda se desconta no fim do mês de quem chegou. A pergunta que fica para o segundo semestre não é se os números vão subir. É quem vai pagar para que subam mais rápido que uma geração.