Contexto e Leitura
Na atenção primária do SUS, entre os adultos de 20 a 59 anos, apenas um em cada quatro atendimentos é de homem. Do outro lado dessa conta está a expectativa de vida: o brasileiro vive em média 73,1 anos, contra 79,7 da brasileira, uma diferença de 6,6 anos, segundo o IBGE de 2023. A distância não é destino biológico. É hábito aprendido somado a uma rede que abre pouco no horário em que o trabalhador está livre. E quando esse homem é recortado por cor, cada linha do exame piora de novo.
O câncer de próstata é o segundo tumor que mais mata homens no país, cerca de 16 mil óbitos por ano no Sistema de Informação sobre Mortalidade. O INCA projeta 71.730 casos novos a cada ano do triênio 2023 a 2025. Sobre o homem negro cai o pior da estatística: chega mais tarde ao diagnóstico, com tumor mais agressivo, e tem risco de progressão para doença avançada de 44% a 75% maior que a média, segundo a Revista Brasileira de Cancerologia, publicação do próprio INCA. Novembro Azul enche a praça de faixa e bigode pintado. A faixa não paga a passagem até a UBS nem devolve a diária descontada de quem faltou ao serviço para fazer o toque. E o toque adiado por vergonha ou por falta de vaga vira, anos depois, uma metástase que nenhuma campanha de outubro conserta.
No HIV a aritmética fica mais crua. Em 2023, 63,2% dos casos notificados no Brasil foram em pessoas pretas e pardas. Os óbitos por aids caíram 17,2% entre 2022 e 2024, avanço real, e ainda assim 62,2% das mortes registradas em 2024 foram de pessoas negras, contra 35,8% de brancas. A prevenção existe e é de graça no SUS: a PrEP, o comprimido que barra a infecção antes que ela aconteça. Só que, de cada dez pessoas que a acessam, mais de cinco são brancas (55,6%) e pouco mais de uma é preta (12,6%). A profilaxia não falta na farmácia do posto. Falta o posto que abre quando o entregador termina o turno, falta o cartaz que fala com quem não se reconhece na foto do folheto. O remédio que evita a doença chega primeiro a quem menos morre dela.
A hipertensão fecha o ciclo em silêncio. A população negra tem cerca de uma vez e meia mais prevalência que a branca, e o Vigitel registrou pressão alta diagnosticada em 22,2% dos homens negros, número que fica abaixo do real porque só entra na conta quem já foi ao médico ouvir o diagnóstico. Quem não vai não aparece na planilha. Aparece no infarto. A pressão não dói. Ela cobra dez, quinze anos depois, no rim que para, no coração que dilata, no AVC que aposenta um pedreiro de 55 anos.
A doença é democrática na origem e seletiva no desfecho: no Brasil, adoecer se distribui por todos, mas morrer cedo tem cor e tem sexo.
Nada disso é falta de informação. O homem negro sabe que precisa se cuidar, do mesmo modo que sabe que a sala de espera às vezes o trata como suspeito antes de tratá-lo como paciente. O racismo institucional não é figura de retórica: é o tempo de escuta mais curto, a queixa de dor levada menos a sério, a orientação dada pela metade. O paciente que ouve "isso é coisa de quem bebe" antes de qualquer pergunta aprende rápido a não voltar. Some a isso a jornada de quem não pode faltar sem perder o dia, a UBS que fecha às 17h e o encaminhamento que exige três idas ao posto. A origem é comum. O desfecho é escolhido por quem desenha o serviço.
Onde a política se organiza em torno do homem real, e não do protocolo genérico, o número se move. Horário estendido à noite e no sábado, agente de saúde que conhece o bairro pelo nome, parceria com o time de várzea e com o terreiro, equipe que não estranha o corpo negro na maca. A PNAISH, política nacional de saúde do homem, existe no papel desde 2009. O que falta não é diretriz. É gestão que cruze cor, sexo, CEP e renda, e que trate a baixa procura masculina como defeito do serviço, não como culpa do usuário.
A conta é simples e o país insiste em não fechá-la. Rastrear custa menos que tratar, e tratar cedo custa menos que tratar tarde. O homem negro que não chega à UBS aos 45 chega ao pronto-socorro aos 58, quando o barato já saiu caríssimo. Junho acaba no dia 30. A próstata, o vírus e a pressão não marcam hora.