Do mestrado ao doutorado, o funil aperta
Doze anos depois da Lei 12.711/2012 — a Lei de Cotas — entrar em vigor nas universidades federais, os dados do CNPq, da Capes e do Inep desenham um avanço real na graduação e um funil que aperta na pós-graduação. Em 2026, ano em que a cláusula de revisão decenal da lei coloca o tema de volta no centro do embate jurídico e político, o diagnóstico importa. As cotas funcionaram onde foram aplicadas com seriedade. Não foram aplicadas com seriedade onde mais importa para a produção científica — no doutorado. É aí que o problema se vê inteiro.
Os números disponíveis indicam que a proporção de estudantes pretos e pardos em graduação de universidades federais passa de 50% em diversas instituições, especialmente no Norte e Nordeste. Na pós-graduação stricto sensu, a proporção cai. No doutorado, cai mais. E a queda é mais acentuada em cursos de alta pontuação na avaliação da Capes — os programas considerados de excelência são os que mais filtram. O Laboratório de Análises Econômicas, Históricas, Sociais e Estatísticas das Relações Raciais (LAESER/UFRJ, coordenado por Marcelo Paixão até 2016 e por equipe sucessora) e o Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (GEMAA/UERJ, sob coordenação de João Feres Júnior) documentaram esse diferencial em sucessivos ciclos quadrienais da Capes. A diferença não é produto de desempenho acadêmico inferior. Estudos longitudinais de cotistas mostram indicadores acadêmicos comparáveis aos de não-cotistas — e em alguns casos superiores. O gargalo é outro: bolsa, orientador, rede internacional, estabilidade financeira familiar. Quatro variáveis. Nenhuma delas mede inteligência.
O pesquisador negro que chega ao doutorado encontra outra escassez. Há poucos orientadores negros. E essa escassez não é representação simbólica — é distribuição de trabalho. Orientadores de grupos sub-representados costumam ter redes de colaboração ainda em consolidação, menor acesso a financiamento de projetos grandes, e carregam demanda desproporcional de mentoria racial informal para todo estudante negro do programa. Os pesquisadores de equidade acadêmica nos EUA chamam isso de tax on minority faculty: o imposto invisível que docentes minorizados pagam em horas não-contabilizadas de mentoria para alunos que precisam de espelho. No Brasil, o nome circula menos. O fenômeno circula igual. O doutorado é o ponto onde tudo isso se acumula — e a ausência de política sistemática de permanência e de cotas na pós-graduação produz seu efeito mais persistente: a reprodução de corpos docentes majoritariamente brancos nas federais brasileiras. Trinta anos depois da graduação cotista, o salão dos professores ainda é a foto antiga.
O orçamento é o nó político que determina a velocidade. Entre 2016 e 2022, houve corte real no financiamento do CNPq e da Capes, com consequência direta no número de bolsas de doutorado disponíveis. A recomposição parcial iniciada em 2023 ainda não restaurou o volume de bolsas ao nível de 2014 — em valor real, descontada a inflação, a bolsa de doutorado de 2026 vale menos que a de uma década atrás. Em 2026, o CNPq opera com editais mais amplos, mas com cobertura insuficiente para o número de doutorandos matriculados. A competição por bolsa dentro dos programas reproduz critérios de desempenho que, como a pesquisa de Adilson Filho (UFBA, tese de doutorado em educação publicada em 2019 e artigos subsequentes em Cadernos de Pesquisa) demonstrou, nem sempre são racialmente neutros na prática — mesmo quando formalmente o são nas normas.
A dimensão política de 2026 é inescapável. A cláusula de revisão decenal obriga o Congresso a deliberar sobre continuidade, extinção ou modificação da Lei de Cotas. O STF é árbitro provável de qualquer controvérsia constitucional que surgir. O debate público, quando conduzido com dado, é favorável à continuidade: a maioria dos estudos de impacto publicados por grupos de pesquisa independentes concluiu que as cotas aumentaram a diversidade sem reduzir a qualidade acadêmica — incluindo análises do LAESER, GEMAA, e do próprio Inep em relatórios sucessivos. O debate quando conduzido por narrativa de "mérito" sem dado serve a outro propósito. E o propósito tem dono, tem orçamento, tem coluna em jornal.
Para o homem negro que está hoje no mestrado e considera o doutorado, a leitura prática desta reportagem é esta: o funil existe, é documentado, e não tem a ver com a sua capacidade. O que define se você passa pelo funil é, sobretudo, a qualidade da bolsa, do orientador, da rede de suporte institucional que você consegue acessar. Essas variáveis não são neutras. São resultado de política. E política se muda. A ciência brasileira que se produz sem você é ciência que não vai entender o Brasil que precisa ser pesquisado.
REPORTAGEM — Apuração factual com pessoas, dados e contexto verificado em campo.