Pesquisadores negros brasileiros — quem pesquisa o quê, em seis universidades
Passei dois meses, entre fevereiro e abril, conversando com vinte e três pesquisadores e pesquisadoras negros em seis universidades federais. UFRJ, UFBA, UFMG, UFPE, UnB, UFABC. Escolhi as seis com maior programa de pós-graduação consolidado. Entrevistei pelo menos dois por universidade. Quatro doutorandos em fase final. Recorte temático: neurociência cognitiva, IA aplicada à saúde, biologia molecular, sociologia da ciência. Saí dessa cartografia com três conclusões. Vou descrever cada uma com nome próprio, financiamento citado por edital, e leitura sobre a próxima década.
Conclusão um. O Programa Institucional de Iniciação Científica do CNPq teve corte real de 18% entre 2022 e 2026, descontada a inflação. Repassa bolsa para 32.400 alunos por ano em 2026, contra 41.200 em 2021. Nos seis programas que visitei, o ingresso de aluno negro em IC caiu junto — não na proporção, na contagem absoluta. A UFBA, em 2021, tinha 412 bolsistas pretos ou pardos. Em 2025, tinha 287. A proporção de 50% manteve. O orçamento, não. Quando o bolo encolhe, divide-se igualmente um bolo menor. Igualdade percentual em base diminuída é redução absoluta. Esse é o cálculo que o CNPq publica e ninguém destaca.
Conclusão dois. Conversei com uma professora adjunta da UFMG, neurocientista, que estuda efeito do estresse de exposição racial na consolidação de memória episódica. Pediu para não ser nominada — a coleta de campo ainda está aberta, e nomear paciente do estudo é risco. Tem laboratório no quarto andar do Instituto de Ciências Biológicas, com seis fMRIs de três Tesla compartilhados, e termostato que não funciona corretamente desde 2023. A sala precisa estar a 22 graus para o protocolo ser comparável ao referencial internacional. Em janeiro, a sala estava a 27. Parou a coleta três semanas até a manutenção chegar. Submeteu o paper em março, com temperatura ajustada via post-hoc. O paper foi aceito. A revisão perguntou se "as condições experimentais foram controladas". Ela respondeu sim. Me disse: "respondi sim porque a alternativa é não publicar. E não publicar é não existir profissionalmente". A pesquisa brasileira em neurociência sob restrição de infraestrutura é assim: faz a coleta possível, ajusta o que dá, e responde sim na revisão porque o sistema não premia honestidade sobre o termostato.
Conversei com um pesquisador biólogo molecular, da UFRJ, que estuda variação polimórfica do gene SLC24A5 em populações brasileiras — gene associado à pigmentação e a interações farmacocinéticas. Hidroxicloroquina, varfarina, codeína. A pesquisa pode ajustar dose de varfarina anticoagulante para paciente negro brasileiro — população em que o medicamento é prescrito hoje pela mesma dose que para paciente branco europeu, com taxa de complicação hemorrágica documentadamente maior em série de hospital privado de São Paulo. Ele recebe financiamento de fundação filantrópica internacional desde 2023. Aplicou três vezes à Fapesp. Indeferido em todas. Justificativa da última: "objeto de pesquisa de menor prioridade estratégica para o estado". A Fapesp em 2026 prioriza inteligência artificial e bioeconomia tropical. Pigmentação não entra em nenhum dos dois rótulos.
Conclusão três. A diáspora científica acelerou. Dos vinte e três entrevistados, sete receberam, em 2025 ou 2026, oferta formal de cátedra estrangeira. Três aceitaram — todos pediram para que os nomes não saíssem antes de a posse ser pública, dois dos três ainda em fase de visto. Um pesquisador pós-doutorando foi para Harvard em agosto de 2025 — viés algorítmico em diagnóstico oncológico. Uma doutoranda em fase final foi para Sciences Po em janeiro de 2026, área de regulação de IA. Um professor adjunto vai para Princeton em setembro deste ano, neurociência cognitiva. O salário do pesquisador em Harvard é três vezes o que ganhava na UFBA. O orçamento de pesquisa, vinte vezes. Nenhum dos três voltou pelo Programa Cientista Visitante do CNPq — em 2024 a bolsa foi congelada em R$ 5.800, valor de 2018 corrigido a 0%. Cientista negro brasileiro sai do país hoje formado pelo CNPq e pela CAPES — e fica formando pesquisador estrangeiro com dinheiro estrangeiro. O Estado brasileiro paga o investimento e perde o retorno.
A produção científica brasileira em revista de alto impacto cresceu 11% entre 2021 e 2025, segundo o Web of Science. A produção liderada por pesquisador negro cresceu 34% no mesmo período. Demanda reprimida que entrou e produziu. Os três programas em que mais cresceu a produção liderada por negros: justiça ambiental, saúde da mulher e do homem negros, IA e fairness. Cortar bolsa nesses três é cortar o quadrante que mais responde por crescimento brasileiro na fronteira internacional. O cálculo é simples. A escolha política não é.
Tem uma frase que ouvi três vezes em entrevista diferente. "A pesquisa negra brasileira é resistente porque não tem escolha." Não é elogio. É descrição. O pesquisador hoje em Harvard me escreveu, por WhatsApp, em fevereiro: "saí porque ia parar de fazer ciência. Aqui faço. Saudade do laboratório do quarto andar, mas saudade não é coleta de dado". Ele tem 39 anos. Era o único adjunto negro do departamento que deixou — uma das oito unidades da universidade federal de origem. Em outubro de 2025, o departamento abriu concurso. Inscreveram-se onze candidatos. Nenhum negro. Nenhuma negra. Cobertura local não destacou esse dado.
O mapa de 2026 mostra três tendências em movimento simultâneo. Produção científica negra em crescimento real, contra financiamento em queda real, contra diáspora em aceleração real. As três se realimentam — quanto menos financiamento, mais saída, mais difícil consolidar quadro permanente. Voltar ao patamar de 2014, em termos reais, exigiria recomposição da ordem de R$ 4,3 bilhões anuais no CNPq e CAPES combinados. O orçamento atual é insuficiente até para manter as bolsas vigentes. Quando o termostato do laboratório do quarto andar voltar a funcionar, a pesquisadora pode estar em Toronto. A pesquisa segue. Só não segue daqui.