Um menino de treze anos leva quatro minutos numa sala de vacinação da UBS, e é nesses quatro minutos que se decide parte do câncer que ele não vai ter aos cinquenta. A vacina contra o HPV é de dose única desde 2024, gratuita, oferecida dos 9 aos 19 anos pelo SUS. Entre meninas de 9 a 14 anos, a cobertura chegou a 82,83% em 2024. Entre meninos da mesma idade, 67,26%, depois de sair de 45,46% em 2022, avanço de 22 pontos em dois anos, segundo o Ministério da Saúde. A distância entre os dois números é o trecho do caminho onde a política pública brasileira ainda tropeça.

O menino não vai sozinho à UBS, alguém precisa levá-lo, e esse alguém decide por dois.

Em outubro de 2025, o governo de São Paulo confirmou o padrão nacional em campanha estadual: 67,7% de cobertura entre meninos contra 79,8% entre meninas, com garotas de 14 anos batendo 98,3%. A leitura oficial atribui a diferença a hábito de cuidado, mães e responsáveis levam a filha ao posto de saúde com mais regularidade do que levam o filho a qualquer consulta preventiva. É verdade, mas incompleta. Não explica por que, dentro do universo masculino, a cobertura ainda varia por bairro, por renda, por cor. Hoje não existe recorte racial publicado de cobertura vacinal de HPV por sexo (dado não apurado); o boletim do Ministério da Saúde discrimina sexo e idade, não raça. É lacuna de gestão, não detalhe.

A ausência desse recorte não é neutra. O SUS realiza cerca de 3,4 mil cirurgias por ano para cânceres causados por HPV em homens. Um estudo brasileiro sobre o perfil desses pacientes encontrou que 56% dos homens com câncer relacionado ao HPV são pretos ou pardos, 64% têm baixa escolaridade e 78% têm mais de cinquenta anos; entre os casos de câncer de orofaringe, 88% chegam ao tratamento em estágio avançado. O quadro que a vacina previne, a estatística de tratamento tardio já descreve, e descreve com cor.

Soma-se a isso o desconhecimento: pesquisa da Sociedade Brasileira de Urologia encontrou que 64% dos homens brasileiros não sabem que o HPV pode causar câncer. Ninguém protege o filho de um risco que não sabe nomear. A campanha de vacinação fala primeiro com a mãe, historicamente responsável pela agenda de saúde da família; fala pouco, ou tarde, com o pai, e quase nunca com o adolescente negro que já aprendeu cedo a evitar fila de posto de saúde.

A Política Nacional de Saúde Integral da População Negra existe desde 2009, pela Portaria 992, e nomeia o racismo institucional como determinante de saúde, não como pano de fundo. Estudos publicados em periódicos como Saúde e Sociedade documentam o mecanismo: vacância de médico em equipes de território de maioria negra, negligência de gestão, desconfiança acumulada em relação ao sistema. Nenhum desses estudos mede o HPV especificamente, mas o padrão que descrevem, agenda perdida, vínculo fraco com a UBS, se aplica a qualquer imunização que dependa de comparecimento presencial e de um adulto disposto a levar o menino.

O que muda o número é o desenho da campanha, não a insistência genérica. Sala de vacinação móvel na escola pública, horário de UBS estendido para coincidir com o fim do turno escolar, agente comunitário de saúde que mora no bairro e fala a língua do bairro, tudo isso já elevou cobertura em ações localizadas descritas pelo próprio Ministério da Saúde. O prazo de resgate para jovens de 15 a 19 anos que perderam a janela original foi prorrogado até o primeiro semestre de 2026, segunda chance concreta, com data para acabar.

Para o leitor, o gesto é pequeno e tem prazo marcado. Levar o filho, o sobrinho, o afilhado, até dezenove anos, à UBS mais próxima, perguntar pela dose única do HPV, não esperar o posto perguntar primeiro. A vacina que falta não é cara nem escassa, está parada numa geladeira de posto de saúde esperando alguém decidir que aquele menino também merece os quatro minutos.