Contexto e Leitura

Neymar bateu o pênalti que só adiava o fim, e o Brasil saiu da Copa antes de qualquer torcedor comprar passagem para Nova Jersey. No domingo 5 de julho, no MetLife Stadium, a seleção perdeu de 2 a 1 para a Noruega nas oitavas de final, com dois gols de Erling Haaland e o desconto de Neymar de pênalti já nos acréscimos. Foi a eliminação mais precoce do Brasil numa Copa desde 1990, quando a Argentina bateu a mesma seleção também nas oitavas. Carlo Ancelotti, primeiro técnico estrangeiro a comandar o time num Mundial, viu o experimento acabar com um mês de torneio pela frente.

A convocação de Ancelotti tinha maioria de jogadores pretos e pardos, entre eles Vini Jr, Danilo, Gabriel Magalhães, Bremer, Alex Sandro e Douglas Santos. Um deles nem chegou a jogar. Wesley, lateral da Roma, sofreu uma lesão grau 3 no adutor da coxa esquerda num amistoso contra o Egito, saiu de campo chorando no banco de reservas e foi cortado da lista final cinco dias antes da estreia. Ancelotti chamou o volante Éderson, do Atalanta, ex-Corinthians, Cruzeiro e Fortaleza, que se apresentou direto ao treino em Nova Jersey. Wesley acompanhou o Mundial de casa, com o corpo em recuperação estimada de oito a doze semanas, o tempo exato da competição que não vai disputar.

A Copa de 2026 mostrou, antes da bola rolar na final, que o corpo negro carrega o peso da expectativa e some primeiro quando ela não se cumpre.

A queda precoce escancarou algo que a euforia da convocação tinha encoberto: quando o time perde cedo, o corpo que se machuca, o que erra o pênalti decisivo e o que fica de fora da lista é, na maioria das vezes, o mesmo corpo que ilustrou a matéria de otimismo semanas antes. Wesley virou nota de rodapé de um torneio em que nem entrou. A imagem que ficou da eliminação não foi de festa, foi de Neymar aos 34 anos convertendo um pênalti de consolo diante de um estádio que já esvaziava.

Enquanto o Brasil embarcava de volta, outros corpos negros enfrentavam a fronteira americana para simplesmente chegar ao estádio. A Proclamação 10998, assinada por Donald Trump, restringe vistos de cidadãos de mais de trinta países, entre eles Haiti, Irã, Senegal e Costa do Marfim. Torcedores senegaleses relatam análise de visto que pode levar de doze a vinte e quatro meses, prazo que inviabiliza qualquer viagem para o torneio. O árbitro somali Omar Abdulkadir Artan foi barrado pela imigração ao tentar entrar no país e ficou fora da Copa que deveria apitar. A mesma competição que celebra a maioria negra da Seleção Brasileira em cartaz de patrocinador trata torcedores e árbitros africanos como risco a ser filtrado na fronteira.

A final ainda não tem data de resultado porque ainda não tem finalistas. Até esta manhã de 11 de julho, os confrontos das quartas seguiam em disputa, com França já classificada após vencer Marrocos por 2 a 0 em 9 de julho, e Argentina e Suíça se enfrentando ainda hoje à noite. As semifinais estão marcadas para os dias 14 e 15 de julho, a disputa de terceiro lugar para 18, e a decisão para 19 de julho, de volta ao MetLife Stadium, o mesmo palco onde o Brasil caiu. Quem chega lá, e quem levanta a taça, é dado que este texto não antecipa.

O que já está posto, sem depender de resultado nenhum, é o desenho de quem carrega o torneio e quem é descartado dele. Wesley treinou a temporada inteira para ficar de fora em cinco dias. Torcedores africanos calcularam meses de espera de visto para talvez nunca pisar num estádio. O Brasil, com a escalação mais negra do ciclo, durou uma fase a menos do que prometia. Nenhuma dessas histórias aparece no troféu erguido em 19 de julho. Todas elas já aconteceram.