Contexto e Leitura
O primeiro semestre de 2026 fechou em 30 de junho com um sistema internacional menos legível do que o de janeiro. A tese é simples: o eixo da política mundial deslocou-se da disputa multilateral para a coordenação de blocos racialmente codificados. Trump opera nos EUA o desmonte sistemático do aparato federal de igualdade. A Europa elegeu, entre janeiro e maio, três governos com participação da extrema-direita, Áustria, Holanda e Portugal. A África renegocia, em paralelo, sua arquitetura econômica via AfCFTA, com alargamento de pauta para mineração crítica. A Ásia mantém prudência tática enquanto observa. O semestre não produziu uma guerra nova, mas reorganizou a gramática das antigas.
Cinco fios merecem atenção no segundo semestre. O primeiro é a Copa do Mundo: Trump usará o torneio entre 11 de junho e 19 de julho como vitrine de soberania, e o que se passar entre as quartas de final e o último jogo no MetLife será leitura obrigatória sobre a tolerância internacional ao espetáculo trumpista. O segundo é a Ucrânia. O cessar-fogo costurado por Steve Witkoff em fevereiro está em estágio de implementação parcial, com tropas russas mantidas em três dos quatro óblastes anexados. A negociação do estatuto de Donetsk vai a plenário da ONU em setembro.
O terceiro fio é a sucessão na Etiópia. Abiy Ahmed enfrenta crise política agravada pela guerra de Amhara e pela ruptura com o Egito sobre a Barragem do Renascimento. A reunião extraordinária da União Africana, marcada para Adis Abeba em agosto, pode reformatar a liderança continental num momento em que o BRICS ampliado discute a posição africana coletiva. O quarto é a campanha das midterms americanas em 3 de novembro. A possibilidade de o Congressional Black Caucus encolher a 52 deputados, projetada pelo Cook Political Report, alteraria o equilíbrio interno do Partido Democrata por uma década.
O quinto fio é o Brasil. A presidência do BRICS encerra em julho, transferida para a Indonésia, e Lula chega ao segundo semestre com o capital diplomático mais alto da década, sem, contudo, agenda concreta de continuidade. A política externa brasileira para a África, anunciada em fevereiro com retorno de embaixadas em cinco países, ainda não traduziu em projetos. O Itamaraty negocia, em silêncio, posicionamento sobre a candidatura de Mariângela Lacerda para diretora-geral da OMC. A janela é estreita.
O que une os cinco fios é a leitura racial do reordenamento. Trump não governa para uma maioria branca por inércia, governa por projeto codificado. Áustria, Holanda e Portugal não elegeram extrema-direita por contingência, elegeram por reação demográfica. A AfCFTA não amplia mineração crítica por oportunidade, amplia por barganha geopolítica explícita. O sistema internacional sempre foi racializado, mas operava com o disfarce do universalismo liberal. Em junho de 2026, o disfarce caiu. O que vem no segundo semestre depende menos do que cada potência fará e mais de como o sul global articulará resposta antes de novembro.
EUA: Administração Trump assinou 287 ordens executivas até 30 de junho. Programas de DEI federal extintos no primeiro trimestre. Suprema Corte reverteu Allen v. Milligan em fevereiro. Midterms em 3 de novembro.
Europa: Áustria (FPÖ-ÖVP em janeiro), Holanda (PVV em coalizão desde março) e Portugal (Chega como apoio externo desde maio) formaram governos com participação ou tutela da extrema-direita. Le Pen lidera pesquisas francesas para 2027.
África: AfCFTA ampliou em abril o protocolo sobre mineração crítica. Crise política na Etiópia com guerra de Amhara em terceiro ano. UA marca encontro extraordinário em Adis Abeba em agosto.
Brasil/BRICS: Presidência brasileira do BRICS encerra em julho. Cinco embaixadas reabertas na África entre fevereiro e maio. Mariângela Lacerda em articulação para diretoria-geral da OMC.