Cuba depois de Canel, antes do quê

Há um número que resume Cuba em 2026 melhor que qualquer leitura política: 9,748 milhões. Eram 11,2 milhões em 2014. Treze por cento de uma população foi embora em onze anos — não por guerra, não por epidemia, mas por decisão. Entre 2022 e 2025, mais de um milhão de cubanos saíram da ilha, a maior onda migratória da sua história, superior aos Marielitos de 1980. Cuba completa dois anos da saída de Miguel Díaz-Canel da presidência, e Roberto Morales Ojeda herda esse número como fato político central. Quando se olha quem está indo, a análise muda de natureza. É essa mudança que me trouxe para escrever.

A emigração cubana clássica, dos anos 1960 e 1980, foi predominantemente branca — e construiu Miami. A onda atual é majoritariamente afrodescendente: o Centro de Estudios Demográficos da Universidad de La Habana estima que 62% dos novos emigrantes são negros ou mulatos, contra 36% da composição populacional declarada nos censos. A leitura é simples e doída: a Cuba que fica está ficando mais branca. São Paulo recebeu, entre 2022 e 2025, cerca de 14 mil cubanos em residência regular, segundo a Polícia Federal — concentrados no centro expandido e nas redes hospitalares onde médicos do Mais Médicos, retomado em 2023, voltaram a atuar. Salvador, Recife e Fortaleza absorveram outros seis mil. Essa migração é negra, é caribenha, é o capítulo novo do Atlântico negro chegando ao Brasil — e quem chega traz uma vida inteira de leitura sobre o que é viver num país que jurou ter resolvido a desigualdade racial e não resolveu.

Lázaro tem 38 anos, é médico cubano e mora em Salvador desde 2017. Casou com baiana, tem dois filhos, e nas tardes de domingo escuta Pablo Milanés alto no aparelho de som da sala. Não pensa em voltar. O que ele descreve quando fala de Cuba não é a crise econômica em primeiro plano. É o constrangimento de falar de racismo num país cujo discurso oficial sempre tratou a igualdade racial como problema resolvido pela Revolução. "Aqui o racismo é diferente", me disse na cozinha da casa dele, em Pituaçu, mexendo o feijão. "Mas pelo menos aqui dá para nomear. Em Cuba, até 2019, era assunto que oficialmente não existia." O que Lázaro nomeia tem substância. As mipymes — micro e pequenas empresas privadas que saltaram de 35 em 2021 para 11 mil em janeiro de 2026 — estão concentradas em Havana, Matanzas e Cienfuegos. E são, em proporção desproporcional, lideradas por brancos com acesso a remessas externas. O capitalismo de mipyme cubano nasceu já com o viés racial da estrutura que o precedeu. A liberalização não foi neutra. Liberalização nunca é.

Na mesma semana em que conversei com Lázaro, fui a um seminário na UFBA onde Carlos Manuel, 52 anos, economista cubano radicado em Salvador desde 2020, discutia com pesquisadoras brasileiras os limites do igualitarismo formal. Miami absorveu, até 2018, dois terços dos cubanos que saíram da ilha. Em 2025, segundo o cruzamento do Pew Research com dados consulares cubanos, 41% dos novos emigrados foram para a América do Sul: Brasil, Uruguai, rotas via Guiana e Suriname para os EUA. Essa diáspora não é a anticomunista de Miami. É negra, é jovem, e traz uma experiência pós-colonial que soa diferente quando encontra o Brasil. Stuart Hall diria que duas geografias coloniais estão se reconhecendo de fora do roteiro. São dois países tentando entender por que a igualdade proclamada por décadas nunca virou igualdade vivida.

A pergunta útil sobre Cuba não é defender ou condenar o regime. Esse debate está exausto, e raramente inclui quem mais importa para essa análise: os cubanos negros. O que significa, em escala caribenha, o esgotamento de um modelo que prometeu igualdade racial por decreto e entrega, sessenta anos depois, êxodo seletivo, mipyme branca, remessa como bússola, e hemorragia demográfica? A diplomacia brasileira assinou em fevereiro acordo de cooperação técnica em saúde, com foco no pós-bloqueio. Mas o que importa para nós, do lado de cá do Atlântico negro, é a pergunta que Lázaro e Carlos Manuel deixam em aberto, cada um do seu jeito: quando o modelo fracassa, quem fica é quem não pôde sair. No Caribe, isso tem cor. Sempre teve. Maryse Condé escreveu isso em Guadalupe; Édouard Glissant escreveu em Martinica; Conceição Evaristo escreve há quarenta anos na Mata Mineira. Quem fica é quem o capital deixou para trás.

A reforma econômica avançou onde era mais fácil avançar — e ao avançar, mostra onde o problema estava desde o início. O setor privado de mipymes responde hoje por 21% do emprego formal e 14% do PIB cubano. Mas o acesso a esse setor reproduz a desigualdade que a Revolução disse ter eliminado: quem tem família em Miami tem capital de arranque; quem tem só o salário estatal espera na fila do peso cubano. O socialismo real, em Cuba, nunca resolveu o que o colonialismo construiu. E a abertura de mercado que chega agora não vai resolver também — a não ser que a pergunta racial seja feita explicitamente, em política pública, com dados e responsabilidade. De Salvador a São Paulo, há cubanos negros dispostos a fazer essa pergunta em voz alta. Eu ouvi. Ainda estou ouvindo.

ANÁLISE — Investigação em profundidade buscando causas estruturais e consequências de longo prazo.