MPLA e UNITA, sem os antigos donos

Em Luanda, já se começa o ano contando quem vai sobrar. Faltam dezesseis meses para as eleições gerais angolanas de agosto de 2027, e o tabuleiro mudou. João Lourenço, 71 anos, presidente desde 2017, encerra o segundo mandato sem direito a reeleição — a Constituição revista em 2021 fechou essa porta. O MPLA, no poder desde a independência de 1975, escolhe novo cabeça de chapa em congresso extraordinário marcado para dezembro. Do outro lado, a UNITA viveu o seu próprio terremoto: em fevereiro, Adalberto Costa Júnior, o rosto da renovação oposicionista que quase venceu Luanda em 2022, perdeu a presidência do partido. No lugar entrou Lindo Tito, da ala mais nacionalista, com base eleitoral em Huambo e no planalto central. A geometria que o Brasil conhecia de Angola já não vale.

O pano de fundo é o bolso. Angola fechou 2025 com inflação acumulada de 24,7%, segundo o INE local, dívida pública perto de 81% do PIB, e o kwanza desvalorizou 38% frente ao dólar desde janeiro de 2024. O barril de Brent ficou em torno de 78 dólares — abaixo do que o orçamento angolano precisa para fechar a conta. Os subsídios à gasolina foram cortados em dois terços entre 2023 e 2025 sob pressão do FMI; o combustível subiu 122% em dois anos. O motoqueiro de Viana que faz entrega para a Glovo paga agora quase um dia inteiro de trabalho para encher o tanque pela manhã. Desemprego oficial é de 31,6%. Nenhum discurso de estabilidade segura esse número.

Antes do debate eleitoral interno, há uma peça externa em cima da mesa: o Corredor de Lobito. A ferrovia que liga o porto angolano a Lubumbashi e a Kolwezi, no coração mineral do Congo, entrou em operação parcial em outubro de 2025 — com participação direta da administração Biden e com o financiamento americano que Trump não cancelou. É a peça que Washington usa para conter a presença chinesa na região. Angola, devendo 23 bilhões de dólares a Pequim em dívida bilateral, joga essa partida com a paciência de quem aprendeu que escolher lado é o jeito mais rápido de perder os dois. A aposta de Lourenço na "diversificação" — megaprojetos com capital saudita, americano e indiano — rendeu acordos pontuais, mas o petróleo ainda é 95% das receitas de exportação. A independência econômica do petróleo continua sendo o livro que Angola escreve, capítulo por capítulo, há quinze anos.

A UNITA pós-Costa Júnior é a maior incógnita de 2027. Costa Júnior tinha uma linguagem que funcionava na Marginal — urbana, classe média, falando para a geração nascida depois de 2002, que não viveu a guerra civil. Lindo Tito fala outra língua: do interior, do planalto, de uma Angola que não vive nos apartamentos da Talatona. O resultado mais provável é a UNITA recuar na capital, onde venceu com 59% em 2022, e manter força entre eleitores abaixo dos 35 anos, faixa em que o Afrobarometer de março registrou 64% de intenção de voto. Nenhum governo africano consolidado ignora um número desses por muito tempo. Em Bengo, um quadro do partido que pediu para não ser identificado pelo nome resume o cálculo: "Vamos perder Luanda. Mas vamos ganhar Cabinda e o Bié. E quem ganha o sul ganha a próxima década."

Para o Itamaraty, a transição define se Angola continua sendo a ponte africana de Brasília ou se acelera o pivô para o eixo Washington-Riad-Nova Délhi. O comércio bilateral em 2025 fechou em 1,9 bilhão de dólares, com superávit brasileiro, e cerca de 28 mil brasileiros vivem em Luanda e em outras cidades angolanas. Mas para o homem negro brasileiro de leitura panafricana, a pergunta muda de tamanho. Benguela, Luanda e Cabinda foram os três principais portos de embarque dos sequestrados que viraram o Brasil — milhões de pessoas, séculos a fio. Os 32 mil angolanos com residência regular no Brasil em 2025 não chegaram aqui como estrangeiros. Chegaram como parentes que fizeram a viagem ao contrário, com séculos de atraso, e com passaporte.

Yacine, 38 anos, diplomata angolana em missão em Brasília desde 2023, traduz a percepção que circula nos corredores da embaixada da Avenida das Nações: "Angola não quer escolher entre China, Estados Unidos e Brasil. Quer que os três precisem de Angola." É uma formulação sofisticada para um país que saiu de uma guerra civil de vinte e sete anos e que, em 2022, fez a eleição mais disputada da sua história. Se a UNITA tiver fôlego para 2027 sem Costa Júnior, e se o MPLA conseguir apresentar candidato capaz de falar para uma geração que nunca votou sem ele no topo da chapa, Luanda em 2027 vira uma das histórias mais importantes do Atlântico negro desta década. O que se decide em agosto do ano que vem não é assunto distante. É bússola.

REPORTAGEM — Apuração factual com pessoas, dados e contexto verificado em campo.