De Ferguson em 2014 até hoje
Dez anos depois de Ferguson, o BLM vive sob três regimes ao mesmo tempo. Estado-amigo nos governos democratas estaduais. Estado-hostil no federal. Estado-cético no debate da esquerda branca americana, aquela que postou quadrado preto em junho de 2020 e hoje prefere falar de Gaza, ou de clima, ou de qualquer outra coisa. O movimento não nasceu em Minneapolis: nasceu numa noite de julho de 2013, quando três mulheres, Alicia Garza, Patrisse Cullors e Opal Tometi, botaram três palavras juntas no Facebook depois que um júri da Flórida absolveu George Zimmerman. Trayvon Martin tinha dezessete anos, voltava da loja com um chá gelado e um pacote de Skittles. A hashtag virou movimento sete anos depois, em 25 de maio de 2020, quando Derek Chauvin ficou nove minutos e vinte e nove segundos com o joelho no pescoço de George Floyd numa esquina de Minneapolis. Entre 15 e 26 milhões de pessoas saíram às ruas naquele verão, segundo o Civis Analytics. Foi o maior protesto da história americana. Seis anos depois, sob o segundo mandato Trump, BLM precisa de inventário, não de luto.
O saldo material é mais magro que a imagem. Em 2025, a polícia americana matou 1.247 pessoas, segundo o Mapping Police Violence, número quase idêntico ao de 2014, ano em que Darren Wilson atirou doze vezes em Michael Brown. Pessoas negras são 12,4% da população e 27% das vítimas. Trinta e seis cidades prometeram reforma em 2020; vinte e oito reverteram, suspenderam ou desfinanciaram a promessa até 2026. Minneapolis manteve o mesmo departamento que matou Floyd, com nome novo e organograma novo. Em Louisville, onde a polícia entrou de madrugada na casa de Breonna Taylor e atirou seis vezes nela enquanto dormia, o acordo federal de monitoramento foi suspenso em fevereiro pela nova procuradoria-geral. Pam Bondi encerrou sete consent decrees federais no primeiro trimestre. As polícias americanas voltaram a operar como sempre operaram, porque a única coisa que mudou entre 2014 e 2026 foi o tom da nota de imprensa.
O retrocesso cultural conta mais que o institucional. A presença negra no comando de redações, estúdios, museus, universidades cresceu de modo verificável entre 2020 e 2024. Bilionários e fundações prometeram 67 bilhões de dólares para causas raciais; a auditoria do Bridgespan Group em 2025 confirmou desembolso real de 19. Setenta e um por cento do que foi prometido voltou para o caixa ou virou outro projeto. Walmart, Meta, Boeing, Ford, todos desmontaram metas raciais nos primeiros seis meses do segundo mandato Trump, depois das executive orders que apagaram DEI das agências federais. O capital moral de 2020 durou o tempo de uma temporada de Emmy. Não era ativo. Era acessório.
O erro analítico mais comum é atribuir o recuo à debilidade do movimento. BLM não fracassou onde as reformas institucionais fracassaram, fracassou onde tentou ser só reforma. O que sobreviveu em 2026 é o que nunca apostou na generosidade do filantropo branco como estratégia: a Movement for Black Lives, com sua plataforma de redistribuição; a tradição abolicionista que Mariame Kaba sustenta de Chicago; as community land trusts negras de Oakland e Atlanta, que compraram terra coletivamente e tiraram famílias da vulnerabilidade de aluguel. Onde havia substância, havia imaginação política para além da denúncia. Onde havia só hashtag e teatro corporativo, havia prazo de validade. Cedric Robinson escreveu isso em 1983. Robin Kelley repete há vinte anos. Hortense Spillers já avisava, o trabalho de longa duração não cabe em ciclo de notícia.
O prazo venceu de um jeito específico. Em 2020, performar aliança com o movimento negro custava o mínimo de entrada nos espaços progressistas americanos: um post, um livro de Ibram Kendi na estante, talvez uma reunião de equipe sobre vieses inconscientes. Em 2026, os brancos que postaram o quadrado preto preferem outras causas. Imigração latina. Palestina. Clima. O homem negro americano, que em 2020 ocupava o centro do trauma midiático nacional, ocupa hoje uma faixa estreita do ciclo de atenção, mais ou menos o mesmo espaço que ocupava em 2012. Isso não é acidente. É o desenho do antirracismo liberal: ele depende do choque emocional de uma imagem e precisa de imagem nova para se renovar. Quando a imagem envelhece, a causa some. Malcolm X já tinha desenhado essa equação em 1964, no discurso de Cleveland. BLM redescobriu o que Malcolm já sabia, só que pagou pra aprender de novo.
O homem negro brasileiro que lê essa década americana não está diante de uma derrota, está diante de um mapa de armadilhas. O modelo de reforma policial via pressão midiática foi testado nas condições mais favoráveis que poderiam existir: vídeo incontestável, comoção global, maioria democrata no Congresso, presidente democrata na Casa Branca. Não se sustentou. O modelo de capital filantrópico racial foi testado com 67 bilhões prometidos. Entregou 19. As mesmas armadilhas esperam quem aqui confunde a generosidade sazonal do aliado branco com a solidez de uma instituição. A década que termina ensinou isso ao alto custo de mil e duzentas e quarenta e sete mortes em 2025, só nos EUA, só num ano. O aprendizado tem endereço aqui também: na esquina do Capão Redondo, na Cidade de Deus, na Plataforma. Não dá pra terceirizar.