Cem anos de Malcolm, e o que fica

Malcolm X faria 101 anos em maio de 2026. Foi assassinado aos 39, em fevereiro de 1965, no Audubon Ballroom, Harlem. Entre o nascimento em Omaha e o tiro no peito, há um percurso que a celebração do centenário, em 2025, tentou domesticar de novo — e fracassou. A direita americana fingiu não ouvir; a esquerda branca fingiu que ouviu desde sempre; o establishment afroamericano colocou flores no Shabazz Center e voltou para casa. Mas a leitura honesta exige outra coisa. Malcolm permanece porque continua incômodo, não porque foi reconciliado.

O que permanece, primeiro, é a posição. Malcolm não pediu inclusão. Recusou a ideia de que o problema racial dos Estados Unidos era um erro a ser corrigido pelo mesmo aparato que o produziu. Quando, em 1964, levou a denúncia das relações raciais americanas ao Cairo e à Organização da Unidade Africana, fez o que poucos antes — internacionalizou a questão como direitos humanos, não como direitos civis. Essa diferença ainda é decisiva. Direitos civis se negociam dentro do Estado-nação; direitos humanos se exigem perante ele. A esquerda negra global hoje, do Reino Unido a São Paulo, opera nessa segunda chave, e não na primeira.

O que permanece, segundo, é a crítica ao que ele chamava de "liberal branco do Norte". A passagem da autobiografia em que descreve o democrata nortista como mais perigoso do que o klansman do Mississippi — porque sorri enquanto vota contra você — segue lendo a conjuntura americana de 2026 melhor do que qualquer editorial do New York Times. A administração Trump-Vance reabilitou abertamente o supremacismo; a oposição democrata, em sua maioria, voltou a operar pela mesma lógica que Malcolm denunciou: a do gestor branco que defende o negro útil ao seu projeto eleitoral.

Há, no entanto, o que mudou. Malcolm pensou a libertação dentro de um marco religioso — a Nação do Islã, depois o sunismo ortodoxo após Meca. Em 2026, a juventude negra americana é majoritariamente secular ou neopentecostal. A teologia política que sustentava a Nação do Islã não tem hoje quem a herde. O que sobrou foi a estética, a iconografia, o blazer e os óculos. A despolitização do símbolo é o trabalho silencioso do mercado — Spike Lee, em 1992, já alertara contra isso. Em 2026 a Netflix lança série biográfica que cumpre exatamente a profecia.

Para o Brasil, a leitura útil de Malcolm hoje passa menos pela imitação e mais pelo método. Ele estudou a própria condição com rigor de pesquisador. Leu na cadeia, anotou margem de livro, debateu em Oxford. A masculinidade negra que ele encarnou — disciplinada, leitora, terna em casa, dura em público — é o oposto do estereótipo que o cinema de Hollywood ainda hoje cobra dos atores afroamericanos. É também o oposto do que o mercado brasileiro projeta sobre o homem negro: o atleta, o cantor, o assaltante, o piadista. Cem anos depois, Malcolm continua sendo o argumento mais forte contra essas três imagens.

Datas. Nasceu em 19 de maio de 1925, em Omaha, Nebraska. Assassinado em 21 de fevereiro de 1965, em Nova York. Em 2026, completam-se 101 anos do nascimento e 61 do assassinato.

Centenário. O Malcolm X & Dr. Betty Shabazz Memorial and Educational Center, no Audubon Ballroom, organizou em 2025 a programação oficial do centenário, com 47 eventos em 12 cidades dos EUA. A Universidade de Columbia inaugurou em outubro de 2025 a cátedra permanente Malcolm X de Direitos Humanos.

Documentos. O FBI mantém 3.600 páginas de vigilância sobre Malcolm, parcialmente desclassificadas em 2023. A reabertura do caso do assassinato, anunciada em 2020 pela promotoria de Manhattan, levou em 2021 à exoneração póstuma de dois condenados originais — Muhammad Aziz e Khalil Islam.

Brasil. A primeira tradução completa da Autobiografia, pela Companhia das Letras, é de 1992. A reedição comemorativa de 2025, pela mesma editora, vendeu 22 mil exemplares em seis meses, dado raro para ensaio político traduzido.

ENSAIO — Reflexão teórica com conceitos históricos e perspectiva filosófica ou crítica.