Quinze meses depois do segundo Trump
Washington, abril de 2026. Donald Trump completa quinze meses de segundo mandato. O balanço das políticas anti-DEI é mensurável e está nos números do Office of Management and Budget. Cento e setenta e três decretos executivos assinados desde 20 de janeiro de 2025. Vinte e dois deles atacam diretamente programas de equidade racial. O Affirmative Action federal, mantido por Lyndon Johnson em 1965 via Executive Order 11246, foi revogado por decreto em 22 de janeiro de 2025. O Justice Department demitiu 47 advogados da Civil Rights Division em quatro ondas. A divisão hoje opera com pessoal reduzido a um terço.
A tese é direta. A administração Trump executa, em ritmo industrial, o desmonte da arquitetura federal de combate ao racismo construída entre 1964 e 2024. Não é simbólico. É orçamentário, processual e operacional. O Department of Education suspendeu, em fevereiro de 2025, o monitoramento de disparidade racial em distritos escolares. O Department of Housing and Urban Development encerrou, em maio, o Affirmatively Furthering Fair Housing Rule, herança do governo Obama de 2015. O Equal Employment Opportunity Commission perdeu três comissários democratas e opera sob quórum republicano puro desde julho.
O efeito sobre afro-americanos é desigual mas concreto. Universidades que praticavam consideração racial em admissão sob a brecha aberta pela Suprema Corte em 2023 (Students for Fair Admissions vs. Harvard) recuaram. A Universidade de Michigan registrou queda de 24% em matrículas de pretos no calouro de 2025. A Universidade de North Carolina caiu 19%. Nas universidades historicamente negras (HBCUs), a procura disparou — Howard recebeu 39 mil inscrições para 1.600 vagas em 2025. Uma resposta da comunidade que o Estado federal não previu.
O setor privado se dividiu cedo. Walmart, John Deere, Harley-Davidson e Toyota North America anunciaram, ainda em 2024, recuo em programas DEI. Em 2025, Boeing, Lowe’s e McDonald’s seguiram. Costco resistiu — em janeiro de 2025, a assembleia de acionistas rejeitou em 98% a proposta de eliminar metas de diversidade. Apple e Microsoft mantêm DEI sob o nome técnico Belonging. A clivagem corporativa expõe, em mercado, o que a política expõe em decreto: empresa que vende para consumidor preto pensa duas vezes; empresa que depende de consumidor branco rural recua sem hesitar.
O dado mais áspero está na violência policial. Em 2025, segundo o Mapping Police Violence, 1.247 pessoas foram mortas pela polícia nos Estados Unidos. Negros representam 26% das vítimas, sendo 13,6% da população. A diferença, em proporção, manteve-se igual a 2019. O que mudou foi o consentimento federal: o Justice Department arquivou em 2025 todos os 18 consent decrees ativos com departamentos de polícia — Minneapolis, Louisville, Baltimore, Ferguson — que monitoravam reformas pós-Floyd. Mortes seguem; supervisão acabou. Esse é o ano 2 de Trump traduzido em corpo.
Civil Rights Act, 1964. Lei federal que proíbe discriminação racial em emprego, educação e estabelecimento público. O Title VI veda uso de recurso federal em programa discriminatório. O Title VII cria a EEOC. Base legal de 60 anos do combate institucional ao racismo nos EUA.
Affirmative Action. O EO 11246 de Lyndon Johnson exigia que contratantes federais adotassem ação afirmativa em emprego. Foi revogado por Trump em 22 de janeiro de 2025, junto com o desmonte do Office of Federal Contract Compliance Programs.
Floyd, 25 de maio de 2020. O assassinato de George Floyd em Minneapolis, sob o joelho de Derek Chauvin, levou a movimento global Black Lives Matter e a 18 consent decrees federais. Todos arquivados em 2025.
HBCUs. Há 107 Historically Black Colleges and Universities ativas. Howard, Spelman e Morehouse são as mais conhecidas. Em 2025, a procura por HBCUs cresceu 31% segundo o Common App.
ANÁLISE — Investigação em profundidade buscando causas estruturais e consequências de longo prazo.