Havana, e a conversa que demora

Havana, 2026. Sessenta e sete anos depois da Revolução, a república cubana segue oficialmente sem racismo. A frase pertence ao Partido Comunista — Fidel Castro a repetiu em 1962, Raúl em 2008, Miguel Díaz-Canel em 2021. Sob esse manto retórico, vive uma população negra que, segundo o último censo de 2012, representa 35% do país; segundo estudos demográficos independentes da Universidade de Pittsburgh em 2022, supera 60%. A discrepância não é detalhe. É o termômetro do que Havana custa a ter como conversa.

A tese deste ensaio parte de uma constatação literária. A geração negra cubana contemporânea — Roberto Zurbano, Alberto Abreu Arcia, Yusimí Rodríguez López, Sandra Álvarez Ramírez — escreve, desde os protestos de 11 de julho de 2021, um corpus que rompe o consenso oficial. Zurbano, ex-editor da Casa de las Américas, foi demitido em 2013 após publicar no New York Times artigo afirmando que a Revolução não acabou com o racismo. O texto custou a carreira. Em 2026, ele dirige fora de Havana o blog Negra Cubana Tenía Que Ser, lido em Miami, Madri e São Paulo.

O ponto cego cubano é estrutural. A Revolução de 1959 fechou os clubes sociais negros — Atenas, Aldama, Aponte — sob argumento de que classe substituiria raça como categoria de luta. Setenta anos depois, a economia bipartida em peso (turismo em dólar, salário estatal em peso cubano) realocou o privilégio sob nova gramática. Quem trabalha em Varadero, Habana Vieja, hotéis de Cayo Coco, recebe gorjeta em moeda forte. Quem trabalha em hotel é maioria branca. A seleção não é por concurso — é por buena presencia, fórmula do RH cubano que codifica fenótipo.

Os dados disponíveis confirmam o que a literatura denuncia. Estudo da Universidade de Havana, vazado para o portal CubaPosible em 2019 antes de o portal ser fechado, mostrava que cubanos negros tinham 2,5 vezes menos chance de receber remessa de parentes no exterior — porque a diáspora cubana de Miami é majoritariamente branca, herdeira do êxodo de 1959-65. Em 2026, com remessa anual estimada em US$ 4 bilhões e correspondendo a quase 10% do PIB, a transferência cor-cega torna a brecha racial cubana mais profunda do que era em 1959.

Os protestos de 11J — onze de julho de 2021 — foram, antes de tudo, levante de bairros negros. San Isidro, em Havana Vieja, é o epicentro. Maykel Osorbo, rapper preto, vencedor do Grammy Latino com a canção Patria y Vida, segue preso desde 2021 sob pena de nove anos. Luis Manuel Otero Alcántara, artista plástico afrocubano do Movimento San Isidro, cumpre cinco anos. O regime trata dissidência negra como traição racial, e isso é em si confissão. A conversa que Havana custa a ter é a que Zurbano, Osorbo e Alcántara já abriram — em ensaio, em rap, em manifesto. Falta o Estado escutar — e até 2026, a escuta continua bloqueada por uma palavra que o PCC ainda recusa pronunciar com método: racismo estrutural. Sem ela, qualquer reforma é cosmética.

Censo de 2012. Última coleta oficial de dados raciais em Cuba. 64,1% se declararam brancos, 26,6% mestiços, 9,3% pretos. Demógrafos independentes apontam subnotificação sistemática.

Fundação Aponte. Comissão criada pelo PCC em 2009, sob articulação de Heriberto Feraudy, para discutir racismo. Recursos orçamentários quase nulos. Em 2024, o programa nacional foi reformulado e enxugado.

11J. Os protestos de 11 de julho de 2021 mobilizaram milhares em mais de 50 cidades. Foi a maior manifestação anti-governo desde 1994. O Estado prendeu mais de 1.300 pessoas; 700 ainda cumprem pena em 2026.

Patria y Vida. A canção de Yotuel, Descemer Bueno, Gente de Zona, Maykel Osorbo e El Funky venceu Grammy Latino em 2021 nas categorias Canção do Ano e Canção Urbana. Tornou-se hino popular dos protestos contra o regime.

Diáspora. Estima-se 2,4 milhões de cubanos no exterior em 2025. Cerca de 70% vivem nos EUA, predominantemente na Flórida. A comunidade é majoritariamente branca, herdeira do êxodo dos primeiros anos da Revolução.

ENSAIO — Reflexão teórica com conceitos históricos e perspectiva filosófica ou crítica.