O 93, o 19º, Gennevilliers, três casas
Três bairros, três famílias, uma pergunta. Em Saint-Denis, no departamento 93, ao norte de Paris, a família Diallo veio do Senegal em 1978. Em Belleville, no 19º arrondissement, os Mendy chegaram da Guiné em 1996. Em Gennevilliers, na zona industrial do norte do Hauts-de-Seine, os Sambou são de Mali, há duas gerações. A pergunta é a mesma: em quem votar, em maio de 2027, na primeira eleição presidencial sem Macron na cédula desde 2017? E em 2026, ainda há ano até a votação, a resposta nas três cozinhas é variação de uma palavra: ninguém.
A tese do retrato é geográfica. A França negra — termo que oficialmente não existe, porque o Estado francês recusa estatística étnica desde a Constituição de 1958 — vive concentrada em três geografias precisas. A banlieue norte parisiense (93), os bairros populares do leste de Paris intramuros (19º e 20º), e os polos industriais decadentes do oeste e norte (Gennevilliers, Saint-Ouen, Aubervilliers). Os três pontos compartilham desemprego acima de 14%, escolas com 70% de alunos com pais nascidos fora da França e zero deputados pretos eleitos pelos seus distritos diretos em 2024.
Mariama Diallo, 51, auxiliar de enfermagem em Bobigny, votou em Mélenchon em 2022 no primeiro turno e em Macron no segundo. Em 2027, com Le Pen ou Bardella prováveis no segundo turno, ela diz a mesma frase que repete há vinte anos: vou votar contra o pior. O filho mais velho, Ibrahima, 24, formado em direito e desempregado há dezesseis meses, não pretende votar. Diz que Marine Le Pen e Jean-Luc Mélenchon nunca pisaram em Saint-Denis sem câmera. Em Belleville, Aminata Mendy, 38, atendente em loja chinesa, é mais firme: voto Mélenchon de novo, mesmo sabendo que ele perde.
A geração mais jovem fala outra coisa. Em Gennevilliers, Souleymane Sambou, 19, estudante de logística, integra coletivo de bairro chamado Brigades de Solidarité Populaire. Não vota. Organiza distribuição de cesta de comida. Diz que partido nenhum representa a banlieue. A morte de Nahel Merzouk em junho de 2023 em Nanterre, sob tiros do policial Florian M., e o veredicto do tribunal de Nanterre em outubro de 2025 — três anos com sursis — selaram, para Souleymane e seus pares, o que ele chama de contrato cancelado. A República não os enxerga como cidadãos. Eles deixaram de pedir.
O 2027 que se aproxima é, para a comunidade afro-francesa, eleição perdida antes de começar. O Rassemblement National lidera as pesquisas de janeiro de 2026 com 33%. Bardella é o candidato natural. Macronistas se fragmentam entre Édouard Philippe, Gabriel Attal e a aposta perdida de Gérald Darmanin. A esquerda tenta unir Mélenchon, ecologistas e socialistas no NFP, mas a aliança é precária. As três famílias visitadas dizem o mesmo: não há candidato que reconheça que a França colonial não acabou. E sem isso, o voto vira gestão de risco.
Departamento 93. Seine-Saint-Denis, ao norte de Paris, tem 1,65 milhão de habitantes. Renda média 40% inferior à média francesa. Cerca de 33% da população é de origem africana subsaariana ou magrebina, segundo estimativas do Insee 2023.
Recusa estatística. A França proíbe coleta oficial de dados raciais desde 1978. As estimativas existem por proxy: lugar de nascimento dos pais. Pesquisa Trajectoires et Origines (Ined) é a referência acadêmica.
Caso Nahel. Adolescente franco-argelino de 17 anos morto em 27 de junho de 2023 em Nanterre. Os protestos que se seguiram duraram seis noites e atingiram 553 cidades. Mais de 3.500 detenções.
Eleição 2027. Primeiro turno previsto para 25 de abril, segundo turno em 9 de maio. Macron termina o mandato pela primeira vez sem direito a reeleição imediata, conforme limite constitucional de dois mandatos consecutivos.
RETRATO — Fotografia textual de cena, lugar ou comunidade, capturando essência do momento.