Trinta e dois anos, o ANC envelhece
Joanesburgo, 27 de março de 2026. O Congresso Nacional Africano completa 32 anos no governo da África do Sul com 39,7% dos votos no Parlamento — o pior resultado desde 1994. Cyril Ramaphosa segue presidente, mas governa em coalizão com a Aliança Democrática de John Steenhuisen, partido majoritariamente branco e fiscalmente liberal. A coalizão tem nome técnico — Government of National Unity — e nome popular: o casamento que ninguém quis. Em fevereiro, a aprovação de Ramaphosa caiu para 31% no Ipsos sul-africano. Em Soweto, onde nasceu o levante de 1976, jovens negros que jamais votaram no ANC se referem ao partido como amaqabane akudala — os velhos camaradas.
A tese é simples e amarga. A democracia sul-africana funciona. As eleições de maio de 2024 foram limpas, monitoradas, contestadas em corte e respeitadas. O problema não é processual. É material. O coeficiente de Gini do país segue em 0,63 — o mais alto do mundo entre economias acima de US$ 300 bilhões. O desemprego entre jovens negros de 15 a 24 anos chegou a 60,8% no quarto trimestre de 2025 (Stats SA). Em Khayelitsha, township ao sul da Cidade do Cabo, há fila de água potável às 5 da manhã. A 30 quilômetros, em Stellenbosch, vinhedos de propriedade ainda majoritariamente branca exportam para a Europa.
A fragmentação política expressa essa frustração de maneira oblíqua. O MK, partido fundado por Jacob Zuma após sua expulsão do ANC, levou 14,6% dos votos em 2024 com discurso de soberania zulu, hostilidade aberta a brancos e à minoria indiana de KwaZulu-Natal, e promessa de revisão constitucional. Os Economic Freedom Fighters de Julius Malema mantiveram 9,5%. Somados, MK e EFF representam quase um quarto do eleitorado — quase tudo descontado do ANC. A direita branca vai à AD; a esquerda negra radical vai aos dois.
O recado nas ruas é mais áspero do que o número de cadeira no Parlamento revela. Em Alexandra, township histórico vizinho a Sandton, Sipho, 29, mecânico, descreve o ANC como “partido que falava de Mandela e parou de cuidar dos pretos pobres”. Em Durban, a violência xenofóbica contra imigrantes moçambicanos e zimbabuanos reaparece a cada onda de desemprego. O Estado responde com Operação Dudula — programa controverso, oficialmente de fiscalização migratória, na prática limpeza étnica de pequeno comércio. Ramaphosa critica em Joanesburgo, tolera em Pretória.
O risco de 2026 não é golpe. É erosão. A energia elétrica falha menos do que falhava em 2023 — a Eskom estabilizou após investimento de US$ 14 bilhões. Mas o Tesouro corta saúde pública pelo terceiro ano seguido. A política externa do GNU é dividida: Pandor saiu, Ronald Lamola assumiu o Dirco, e a ação contra Israel na Corte Internacional de Justiça segue em pé — única vitória simbólica que o ANC ainda pode mostrar. Lá dentro, os pretos pobres esperam emprego que ninguém promete entregar.
Eleições de 2024. O ANC obteve 159 cadeiras (40%), a Aliança Democrática 87 (21,8%), o MK 58 (14,6%), os EFF 39 (9,5%). Coalizão GNU formada em 14 de junho de 2024 com sete partidos.
Desigualdade. Coeficiente de Gini de 0,63 segundo o Banco Mundial 2024 — o mais alto registrado entre 188 países. Os 10% mais ricos detêm 65% da renda nacional. Brancos representam 7,3% da população e cerca de 50% da renda do topo do decil.
Land Reform. Em janeiro de 2025, Ramaphosa sancionou o Expropriation Act que permite, em circunstâncias específicas, expropriação de terra sem indenização. Trump suspendeu ajuda americana em resposta no mesmo mês.
Soweto, junho de 1976. O levante estudantil contra a imposição do africâner como língua de instrução matou ao menos 176 jovens negros. Hector Pieterson, 12 anos, virou símbolo. A foto de Sam Nzima cruzou o mundo.
REPORTAGEM — Apuração factual com pessoas, dados e contexto verificado em campo.