Brasil e África do Sul, três frentes

O BRICS+ que se reúne em Joanesburgo no segundo trimestre de 2026 é outro bloco. Egito, Etiópia e Emirados entraram em 2024; a Indonésia em 2025. A presidência rotativa cabe à África do Sul e o roteiro foi negociado, em fevereiro, entre Lula e Cyril Ramaphosa numa videoconferência que durou três horas. O comunicado conjunto fala em moeda de referência, cooperação espacial e diplomacia racial Sul-Sul. Cada termo carrega peso específico — e cada um expõe o limite do que Brasília e Pretória conseguem combinar quando Pequim observa.

A tese é direta. Brasil e África do Sul são as duas únicas potências médias do bloco com governo que assume, no discurso oficial, agenda antirracista como política externa. Anielle Franco, no Itamaraty desde 2023, articula com Naledi Pandor — antiga chanceler sul-africana — uma linha que pressiona o bloco a tratar reparação histórica como pauta econômica, não cerimonial. Em 2026, isso tem nome: a proposta de fundo BRICS para indenização de crimes coloniais, apresentada por Pretória em janeiro, com adesão preliminar do Brasil e silêncio de Moscou. O Cairo apoia em público, hesita em privado. Nova Délhi pediu mais estudo.

A moeda de referência é o ponto onde o discurso racial encontra o cofre. O R5 — sigla informal usada por economistas do Novo Banco de Desenvolvimento para a unidade de conta lastreada em real, rublo, rúpia, renminbi e rand — virou em 2025 mecanismo real de compensação de comércio bilateral. O volume ainda é modesto: cerca de US$ 47 bilhões em 2025, segundo o NBD. Mas o efeito político importa. O Brasil paga manganês moçambicano sem dólar; a África do Sul paga café etíope sem dólar. Quem perde poder de coerção é Washington, e isso não é detalhe num ano em que o Tesouro americano corta cooperação com Pretória sob alegação de antissemitismo após a ação contra Israel na Corte Internacional.

A cooperação espacial é o capítulo menos discutido e mais estratégico. O acordo INPE-SANSA, renovado em março de 2026, prevê lançamento conjunto de satélite de observação a partir de Alcântara em 2027. O texto cita explicitamente monitoramento de desmatamento amazônico e da bacia do Congo. Traduzido: soberania de dado ambiental fora do circuito NASA-ESA. Para um país com dois terços de população negra como o Brasil, e para uma África do Sul ainda processando o que Mandela não conseguiu redistribuir, controlar o próprio satélite é forma de não pedir licença.

O ponto cego está em Pequim. O BRICS+ que importa, do ponto de vista do PIB, é o eixo China-Rússia-Índia. Brasília e Pretória combinam o que combinam, mas o cheque é assinado em Xangai. A diplomacia racial Sul-Sul corre o risco de virar nota de rodapé num bloco cuja gramática hegemônica é geopolítica clássica de potências, com pauta de raça tolerada enquanto não atrapalhar contrato de minério. O teste de 2026 é se Lula e Ramaphosa convertem retórica em estrutura — agência permanente, fundo capitalizado, calendário com prazo. Sem isso, vira foto.

BRICS+ em 2026. Onze membros plenos: Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Egito, Etiópia, Emirados, Irã, Indonésia, Arábia Saudita. Argentina recusou em 2024. PIB combinado equivale a 36% do global, segundo o FMI.

Comércio Brasil-África. Atingiu US$ 21,3 bilhões em 2025, alta de 18% sobre 2024 (MDIC). África do Sul é o maior parceiro do continente. Nigéria e Angola completam o trio.

Itamaraty e raça. A Secretaria de Cooperação Sul-Sul ganhou núcleo de diplomacia racial em 2024, sob articulação direta com o Ministério da Igualdade Racial. É o primeiro do tipo na história da diplomacia brasileira.

NBD em Joanesburgo. O Novo Banco de Desenvolvimento abriu escritório regional africano em 2025, com sede em Joanesburgo e capital inicial de US$ 2 bilhões para projetos de infraestrutura no continente.

ANÁLISE — Investigação em profundidade buscando causas estruturais e consequências de longo prazo.