Port-au-Prince, no terceiro ano da missão

Cheguei em Port-au-Prince na manhã de 9 de fevereiro de 2026, no terceiro ano da Missão Multinacional de Apoio à Segurança liderada pelo Quênia. O Toussaint Louverture estava aberto, com voos diretos do Panamá e de Nova York retomados desde outubro de 2025. O táxi do aeroporto até Pétion-Ville pegou a Route Nationale 1 sem desvio — coisa que em 2024 era impensável. As gangues que dominavam a saída norte da capital, lideradas por Jimmy Chérizier, foram empurradas para a periferia de Croix-des-Bouquets. O ex-líder federado conhecido como Barbecue está preso desde junho de 2025, em instalação militar quenia, aguardando processo na Corte Penal Internacional.

A reorganização silenciosa, expressão que ouvi três vezes em 48 horas, descreve uma cidade que voltou a funcionar por baixo do radar internacional. O mercado de Croix-des-Bossales reabriu integralmente em julho de 2025. As escolas públicas de Carrefour-Feuilles, no centro, estão operando com 78% da matrícula registrada em 2018, segundo dado da Unicef Haiti de janeiro. A Universidade Estadual reabriu o campus principal em outubro. A vida cotidiana voltou — mas voltou diferente, voltou com o ônus da presença militar estrangeira que a história haitiana sempre registrou como humilhação.

O governo de transição, liderado por Leslie Voltaire desde abril de 2025, opera em equilíbrio difícil. As eleições presidenciais foram remarcadas para novembro de 2026 — quase três anos depois da queda final de Ariel Henry. A Caricom, com Mia Mottley em primeiro plano, segura o calendário com diplomacia paciente. O Brasil, que em 2024 negou enviar tropas mas manteve a Embrapa em cooperação técnica agrícola desde 2022, ampliou em janeiro de 2026 o programa de bolsas para estudantes haitianos no IFPE Recife. É pouco para o tamanho da relação histórica. É mais do que zero.

O homem haitiano comum reorganiza vida com método que merece registro. Na Avenida John Brown, em Pétion-Ville, conversei com Jean-Robert, 39 anos, mecânico que reabriu oficina em outubro de 2025 depois de dois anos no exílio interno em Jacmel. Ele me disse, em créole francês simples: a gente não pediu ninguém aqui, mas a gente também não tem mais bala na rua todo dia. A frase resume o paradoxo. Soberania ferida, segurança parcial. A vida pode caber nesse intervalo.

O paralelo brasileiro é desconfortável. O Haiti que se reorganiza em 2026 oferece duas leituras simultâneas. Primeira: a estabilização armada externa funciona quando o ator local mantém legitimidade — Voltaire é figura técnica, não populista. Segunda: as periferias do Brasil, sob intervenção federal episódica como Rio em 2018 e novamente em 2025, não têm Voltaire equivalente. Têm gabinetes, comandos militares e operações que vão e voltam. A reorganização silenciosa não é cópia, é alerta.

Missão Multinacional: Liderada pelo Quênia desde junho de 2024, autorizada pelo Conselho de Segurança da ONU. Em fevereiro de 2026, completa três anos de operação. Jimmy Chérizier (Barbecue), ex-líder federado das gangues, está preso desde junho de 2025 em instalação militar queniana, aguardando processo na Corte Penal Internacional.

Governo de transição: Leslie Voltaire preside o Conselho Presidencial de Transição desde abril de 2025. Eleições presidenciais haitianas remarcadas para novembro de 2026, quase três anos após queda de Ariel Henry. Caricom, com Mia Mottley (Barbados), conduz a diplomacia regional.

Vida cotidiana: Aeroporto Toussaint Louverture reabriu plenamente em outubro de 2025. Mercado de Croix-des-Bossales operando integralmente desde julho. Escolas públicas de Carrefour-Feuilles com 78% da matrícula de 2018, segundo Unicef Haiti, janeiro de 2026.

Cooperação Brasil-Haiti: Embrapa mantém cooperação técnica desde 2022. Em janeiro de 2026, IFPE Recife ampliou bolsas para estudantes haitianos. Brasil recusou envio de tropas em 2024.

REPORTAGEM — Apuração factual com pessoas, dados e contexto verificado em campo.