Port-au-Prince, capital sem Estado, entre uma missão que fracassou e outra que ainda não chegou
Cheguei a Port-au-Prince em 8 de fevereiro de 2026 e encontrei uma capital que a própria ONU classifica como majoritariamente fora do controle do governo que deveria administrá-la. Gangues armadas dominam cerca de 90% da área metropolitana, número repetido em relatórios da ONU entre outubro de 2025 e fevereiro de 2026. O poder formal responde por uma fração do território. O aeroporto Toussaint Louverture opera sob restrição federal americana: a FAA estendeu, ainda em fevereiro, a proibição de voos comerciais dos Estados Unidos até 7 de março de 2026, citando risco de disparo contra aeronaves civis. Quem pousa ali hoje é voo militar, diplomático ou fretado. Turista e parente da diáspora esperam.
A missão internacional que deveria ter revertido esse quadro termina admitindo derrota. A Missão Multinacional de Apoio à Segurança, liderada pelo Quênia desde 2024, nunca completou o efetivo prometido: dos mil policiais anunciados, pouco mais de 750 chegaram a pisar no país, dentro de uma força multinacional que deveria somar 2.500 e nunca chegou perto disso. O Conselho de Segurança da ONU já havia decidido, em 30 de setembro de 2025, substituí-la por uma Força de Supressão de Gangues maior e com mandato mais agressivo, efetivo projetado de 5.550 pessoas sob comando do general mongol Batsuuri. Mas em 8 de fevereiro de 2026 essa força nova ainda não pisou o solo haitiano. Os primeiros contingentes, do Chade, só desembarcariam em abril. No intervalo entre a missão que fracassou e a que ainda não chegou, quem segura a cidade é a Polícia Nacional Haitiana, subequipada e cercada por todos os lados.
O rosto público da desordem tem nome e sobrenome. Jimmy Chérizier, o Barbecue, ex-policial que virou chefe da federação de gangues Viv Ansanm, segue solto. Os Estados Unidos o indiciaram em agosto de 2025 por violar sanções financeiras, classificaram sua organização como grupo terrorista estrangeiro em maio do mesmo ano e ofereceram cinco milhões de dólares por sua captura. Ele respondeu em vídeo, armado, cercado dos próprios homens, ao vivo nas redes: se o FBI quiser, que venha me buscar. Não é fanfarronice vazia. É o retrato de uma masculinidade que a ausência de Estado converteu em autoridade de fato, a única que funciona quando polícia, tribunal e prefeitura não chegam à esquina.
O poder civil rachou na mesma semana da minha chegada. O mandato do Conselho Presidencial de Transição expirou em 7 de fevereiro de 2026, véspera do desembarque, e o primeiro-ministro Alix Didier Fils-Aimé assumiu como autoridade de fato sozinho, depois de sobreviver a uma tentativa de destituição promovida pelos próprios conselheiros, entre eles Leslie Voltaire, que havia presidido o colegiado até março de 2025. Washington puniu quem tentou derrubá-lo com restrição de visto. Data de eleição não resiste a esse tipo de instabilidade: a promessa de voto em 2026 segue sem urna marcada, sem orçamento fechado, sem garantia de que a rua vote em paz.
O homem comum negocia sobrevivência num intervalo sem nome bonito. Nas conversas em Pétion-Ville, ouvi variações da mesma frase: ninguém pediu polícia estrangeira, mas ninguém aguenta mais enterrar vizinho. É o mesmo dilema que atravessa periferias brasileiras sob intervenção federal episódica, Rio em 2018, favelas cariocas e paulistas em operações recorrentes de 2025. A segurança que chega de fora, quando chega, não devolve autoridade a quem mora ali. Ela substitui uma ausência por outra. O Haiti de fevereiro de 2026 não é espelho distante. É aviso sobre o que sobra quando o Estado desiste e ninguém assume o vácuo com legitimidade.