Dakar, e o franco CFA na mesa

Bassirou Diomaye Faye fechou janeiro de 2026 com o segundo aniversário no Palácio Presidencial de Dakar e uma economia que cresceu 8,3% em 2025 — o maior salto entre as 15 nações da Cedeao. O dado é do Banco Central dos Estados da África Ocidental, divulgado em 12 de janeiro. O salto se explica pela entrada em produção plena do campo de gás Grand Tortue Ahmeyim, na fronteira com a Mauritânia. Mas a história política que torna 2026 leitura obrigatória para o Brasil não é a do gás. É a da engenharia.

Faye chegou ao poder em março de 2024 saindo da prisão dez dias antes da eleição, indicado pelo seu mentor Ousmane Sonko, então inelegível. A coalizão Pastef-Les Patriotes ganhou no primeiro turno com 54%. O método foi formal: aceitação das regras eleitorais que tinham sido construídas para impedi-los. Senegal não rompeu institucionalmente. Forçou a institucionalidade a entregar o resultado que ela mesma dizia querer. É a oposição como engenharia, não como ruptura.

O segundo movimento, ao longo de 2025, foi reabrir o debate sobre o franco CFA — moeda que oito países da África Ocidental ainda emitem com paridade fixa ao euro e reservas centralizadas no Tesouro francês. Sonko, primeiro-ministro, conduz a discussão. Não é abolição imediata. É plano de transição: criação do eco até 2027, com Banco Central regional autônomo, alinhado à Nigéria e a Gana. O Tesouro francês já admitiu, em nota de novembro de 2025, que aceita conversa. Em diplomacia colonial tardia, isso é capitulação.

O Brasil, que tem com Senegal acordo de cooperação militar desde 2010 e que recebe estudantes senegaleses pelo Prouni desde 2014, observa de longe. A embaixada brasileira em Dakar, dirigida por João Carlos Souza-Gomes, vem ampliando contatos com o Ministério da Indústria de Faye desde meados de 2025. O assunto técnico é processamento de gás. O assunto político, não dito, é mais relevante: como uma democracia africana de maioria negra constrói soberania energética sem repetir o modelo extrativo que afundou a Nigéria.

A leitura curatorial para masculinidade negra brasileira é direta. Faye tem 45 anos. Sonko tem 51. Os dois construíram coalizão urbana com homens negros jovens entre 22 e 38 anos — exatamente a faixa que no Brasil concentra desemprego, encarceramento e desengajamento eleitoral. A diferença é que Pastef ofereceu a esses homens uma candidatura técnica, não uma promessa estética. Programa de habitação em Pikine, formação em soldagem em Touba, microcrédito sem aval em Saint-Louis. O voto veio porque o programa veio antes. É lição de método que cabe na geografia carioca, paulista e baiana. O Brasil ainda confunde representação com estratégia, e perde tempo confundindo.

Bassirou Diomaye Faye: Presidente do Senegal desde 2 de abril de 2024. Eleito no primeiro turno com 54% dez dias após sair da prisão. Coalizão Pastef-Les Patriotes, liderada por Ousmane Sonko, primeiro-ministro. Governo fecha janeiro de 2026 com índice de aprovação de 61%, segundo Afrobarometer.

Crescimento econômico: Banco Central dos Estados da África Ocidental registrou crescimento do PIB senegalês de 8,3% em 2025, maior da Cedeao. Entrada em produção plena do campo de gás Grand Tortue Ahmeyim, na fronteira com a Mauritânia, foi o principal vetor.

Franco CFA: Em novembro de 2025, Tesouro francês reconheceu negociação para transição do franco CFA ao eco até 2027. Banco Central regional autônomo, em coordenação com Nigéria e Gana, é o desenho proposto pelo governo Faye-Sonko.

Cooperação Brasil-Senegal: Acordo de cooperação militar desde 2010. Estudantes senegaleses no Prouni desde 2014. Embaixada brasileira em Dakar, dirigida por João Carlos Souza-Gomes, ampliou contatos técnicos com o Ministério da Indústria senegalês ao longo de 2025.

REPORTAGEM — Apuração factual com pessoas, dados e contexto verificado em campo.