Wes Moore, Keisha Lance, dois mapas
O segundo governo Trump fecha o primeiro ano com a agenda racial conservadora travada na Suprema Corte e contestada por uma geração de governadores democratas que decidiu não pedir licença para existir. O caso emblemático é Wes Moore, em Maryland. Em fevereiro de 2025, ele assinou o pacote de reparações simbólicas mais amplo já implementado por um estado americano: revisão de sentenças por porte de maconha, devolução de terras ribeirinhas em Anne Arundel, escola pública gratuita até o community college. Em janeiro de 2026, três governadores republicanos do Sul anunciaram litígio contra o pacote. Moore não recuou. Ao contrário: ampliou.
A leitura de Washington é clara para quem quer ler. A direita republicana, que em 2024 prometeu sepultar a agenda DEI, descobriu em 2025 que o eleitorado afro-americano não saiu da equação — saiu da letargia. A virada começou na Geórgia. Keisha Lance Bottoms, ex-prefeita de Atlanta e estrategista da campanha Biden, assumiu em outubro de 2025 a coordenação nacional de mobilização democrata para as midterms de novembro. Sua tese é técnica, não retórica: reverter o desengajamento de homens negros entre 25 e 44 anos, que desabou nas urnas em 2024 e custou ao partido três estados-pêndulo.
O método Bottoms é interessante para o Brasil ler. Ela não está fazendo campanha de identidade. Está fazendo campanha de capital — clínicas comunitárias em Macon, treinamento técnico subsidiado em Columbus, crédito imobiliário com taxa diferenciada via banco estadual em Atlanta. A pauta é racial pelo recorte populacional do alvo, mas o instrumento é distributivo. É exatamente o vocabulário que o Lula 3 tentou montar e que perdeu fôlego depois da reforma ministerial de 2025.
Em paralelo, o Departamento de Justiça de Trump, sob Pam Bondi, vem perdendo nos tribunais. O decreto presidencial de janeiro de 2025 que tentou banir critérios raciais em contratações federais foi suspenso em três circuitos federais ao longo de 2025. A Suprema Corte, mesmo com maioria conservadora, sinalizou em dezembro que não vai julgar o mérito antes de novembro. É bloqueio tático: a corte sabe que decidir a favor de Trump antes das midterms ativa o eleitorado negro do Sul que Bottoms está organizando casa por casa.
O quadro de meio de mandato, portanto, contraria a narrativa do recuo. A agenda negra americana não está vencendo — está se reorganizando com competência institucional que o Brasil não tem. Maryland, Geórgia e Michigan operam como laboratórios. Wes Moore como horizonte presidencial em 2028 já é hipótese séria nas conversas internas do Partido Democrata. E Trump, que apostou que a fadiga racial branca seria suficiente para varrer a década, descobre que a outra metade do país também sabe contar votos.
Wes Moore (Maryland): Único governador negro em exercício nos EUA em 2026. Em fevereiro de 2025, assinou pacote de reparações simbólicas com revisão de sentenças por maconha, devolução de terras em Anne Arundel e gratuidade até community college. Em janeiro de 2026, enfrenta litígio de três estados republicanos do Sul.
Keisha Lance Bottoms: Ex-prefeita de Atlanta (2018-2022). Em outubro de 2025, assumiu coordenação nacional de mobilização democrata para as midterms de novembro de 2026. Foco: reverter desengajamento de homens negros de 25-44 anos, decisivo na derrota democrata de 2024.
Decretos anti-DEI: Decreto presidencial de Trump de janeiro de 2025 banindo critérios raciais em contratações federais foi suspenso em três circuitos federais ao longo de 2025. A Suprema Corte sinalizou em dezembro que não julgará o mérito antes de novembro de 2026.
Midterms 2026: Eleições legislativas em novembro renovam toda a Câmara e um terço do Senado. Estados-pêndulo: Geórgia, Michigan, Pensilvânia, Arizona e Nevada. O voto afro-americano nessas cinco UFs concentra a disputa real.
ANÁLISE — Investigação em profundidade buscando causas estruturais e consequências de longo prazo.