Três das quatro cadeiras, mesma mesa
Davos abriu em 19 de janeiro de 2026 com uma cena inédita em 56 edições do Fórum: três dos quatro CEOs afroamericanos das maiores empresas listadas em Wall Street dividindo o mesmo palco. Marvin Ellison, da Lowe's; Roz Brewer, recém-empossada na presidência de uma gestora trilionária; e James Quincey, britânico-americano, da Coca-Cola. A moderação coube a Thasunda Brown Duckett, da TIAA. O painel se chamou Capital, Confiança e o Sul que Compra. Foi o segundo evento mais lotado da semana suíça, atrás apenas da abertura do secretário-geral da ONU.
A leitura óbvia é simbólica. A leitura útil é outra: pela primeira vez desde a fundação do Fórum, em 1971, a tese sobre o Sul Global foi apresentada por executivos negros americanos — não por consultores brancos lendo a África como mercado emergente. Brewer abriu citando o relatório do Banco Africano de Desenvolvimento de novembro de 2025, que projetou crescimento médio de 4,1% em 2026 para os 54 países do continente, contra 1,7% da zona do euro. A plateia anotou.
Para o Brasil, o painel diz duas coisas. A primeira é que o capital americano negro existe, está consolidado em cargos que decidem alocação de trilhões de dólares, e começa a falar do Sul como par — não como caridade. A segunda é mais incômoda: o Brasil não tem equivalente. O país com a maior população negra fora da Nigéria não exporta executivos negros para Davos. Em janeiro de 2026, o conselho do Itaú segue sem um único conselheiro negro. A Vale tem um. A Petrobras, zero. A Embraer, zero. O Bradesco anunciou nomeação para março, ainda sem nome. O elevador corporativo brasileiro continua descendo branco.
O painel também reabriu uma discussão que Lula vinha tentando empurrar desde a presidência do BRICS+ em 2025: como reformar o financiamento de infraestrutura no Sul sem passar pelo FMI. Brewer mencionou, sem citar nomes, que gestoras americanas começam a estudar exposição direta em projetos de transição energética em Moçambique, em Cabo Delgado, e na Costa do Marfim, em Abidjan — fora da arquitetura de Bretton Woods. É novo. Não é grande ainda, mas é novo. E sinaliza que a aposta africana de longo prazo deixou os think tanks e entrou em comitês de investimento de Manhattan.
O ângulo racial que Davos não conseguiu evitar, e que tampouco abraçou com clareza, foi o do consumo. Quincey lembrou que o mercado consumidor afrodescendente nos EUA, no Brasil e na Nigéria somados ultrapassa o PIB do Reino Unido. Ellison foi mais direto: quem ainda lê esses três mercados como apêndices não vai estar em Davos em 2030. A frase circulou em tradução em português no mesmo dia, em grupos de WhatsApp de executivos brasileiros que sabem ler entre linhas e nem sempre gostam do que leem. O Sul que compra é o mesmo Sul que, no Brasil, ainda escolhe presidentes — e ainda não escolhe quem decide o capital.
Painel inédito: Em 19 de janeiro de 2026, três dos quatro CEOs afroamericanos das maiores empresas listadas em Wall Street dividiram palco em Davos: Marvin Ellison (Lowe's), Roz Brewer (gestora trilionária) e James Quincey (Coca-Cola). Moderação de Thasunda Brown Duckett (TIAA).
Dado africano: O Banco Africano de Desenvolvimento, em relatório de novembro de 2025, projetou crescimento médio de 4,1% para os 54 países do continente em 2026, contra 1,7% da zona do euro.
Boards brasileiros: Em janeiro de 2026, o conselho de administração do Itaú segue sem conselheiro negro. Vale tem um. Petrobras e Embraer, zero. Bradesco anunciou nomeação para março. País com a maior população negra fora da Nigéria não exporta executivos negros para Davos.
Reforma do financiamento: Lula, na presidência do BRICS+ em 2025, defendeu nova arquitetura de financiamento de infraestrutura para o Sul Global fora do FMI. Em Davos 2026, gestoras americanas iniciaram estudos de exposição direta em projetos de transição energética em Cabo Delgado (Moçambique) e Abidjan (Costa do Marfim).
COBERTURA — Relatório de evento em tempo real com presença e testemunha jornalística.