Contexto e Leitura
No dia 5 de julho, no gramado do MetLife Stadium, em Nova Jersey, Bruno Guimarães ajeitou a bola na marca do pênalti ainda no primeiro tempo, bateu mal e viu Ørjan Nyland defender. Daquele erro em diante, a eliminação do Brasil pela Noruega, por 2 a 1, deixou de ser risco e virou roteiro. Erling Haaland marcou os dois gols noruegueses no segundo tempo. Neymar descontou de pênalti nos acréscimos, um gol de velório. O Brasil deu adeus à Copa do Mundo nas oitavas de final, a queda mais precoce da seleção desde 1990, quando também parou nessa fase, diante da Argentina.
Vale olhar quem estava em campo. A seleção que Carlo Ancelotti, o primeiro treinador estrangeiro a comandar o Brasil em uma Copa, levou aos Estados Unidos tem no ataque um retrato do país que a exporta. Vinícius Júnior saiu da base do Flamengo para o Real Madrid aos 18 anos. Endrick foi negociado com o mesmo Real aos 16, vendido antes de ter sido titular fixo de qualquer coisa. Ao lado deles, Rayan, cria do Vasco convocada ainda muito jovem, o padrão da casa. O corpo que joga é negro e brasileiro. A propriedade desse corpo, no fim das contas, é europeia.
A seleção que caiu em Nova Jersey é a face mais visível de uma economia que forma o corpo negro no Brasil, vende cedo e assiste ao lucro do outro lado do Atlântico.
Do outro lado do campo estava a contraprova. A Noruega voltou à Copa depois de 28 anos de ausência, a última tinha sido em 1998, e voltou com o que a imprensa europeia chamou de geração de ouro: Haaland, do Manchester City, Martin Ødegaard, o capitão, do Arsenal, e Alexander Sørloth, do Atlético de Madrid. Nas eliminatórias, o time de Ståle Solbakken venceu os oito jogos, goleou a Itália por 3 a 0 e a Moldávia por 11 a 1, com Haaland fazendo 16 gols em oito partidas. A diferença para o Brasil não é que os noruegueses fiquem em casa, porque eles também jogam nas mesmas ligas ricas. A diferença é que a Noruega construiu uma geração inteira e a manteve junta tempo suficiente para montar um time, enquanto o Brasil forma e dispersa, entrega o menino ao mercado antes de terminar de formá-lo.
Essa engenharia tem nome e tem preço. O futebol brasileiro é um dos maiores fornecedores de talento negro para o mercado europeu, e a base dos clubes paulistas e cariocas funciona como vitrine antecipada. A Copa São Paulo de Juniores, o Brasileirão sub-20, os torneios de formação são catálogos folheados por agências que compram cedo e barato para revender caro. O jovem negro entra nessa esteira aos 15, 16 anos e sai dela como ativo de marca, com o corpo precificado antes de a cabeça decidir o que quer da vida.
E a Europa que compra esse corpo devolve o quê. Devolve, por estatuto, o racismo de arquibancada. Vinícius Júnior virou o nome dessa conta quando parou de tratar o insulto como incidente isolado. Em maio de 2023, no Mestalla, torcedores do Valencia o chamaram de macaco e a partida foi interrompida. Três deles acabaram condenados a oito meses de prisão, a primeira condenação por racismo em estádio na história da Espanha. Não foi gesto único da Justiça espanhola, que também puniu torcedores do Valladolid por episódios contra o mesmo jogador. Cada sentença dessas é a prova documental de que o racismo não é ruído no sistema. É regra de operação de um mercado que compra o pé e despreza o homem.
Há ainda a contrapartida que raramente entra na conta do investimento público. Em Paris, no ano passado, foi o corpo negro brasileiro que sustentou o quadro de medalhas. Rebeca Andrade superou Simone Biles na final do solo, faturou o ouro e se tornou a maior medalhista olímpica da história do país, com seis pódios. O que o Brasil aprendeu com aquilo, em dinheiro colocado na formação pública de atletas, ainda está por aparecer no orçamento.
Fica a cena de Nova Jersey. Um treinador italiano no banco, um elenco negro no gramado, um pênalti perdido cedo, dois gols de um centroavante norueguês formado e sustentado em casa, e um gol brasileiro que só serviu para maquiar o placar. A eliminação mais precoce em 36 anos não é acidente de bola parada. É o retrato de um país que sabe formar o corpo negro e não sabe ficar com ele, que produz o craque e financia o campeonato do outro. Formou, vendeu e voltou, de novo, para assistir pela televisão.