Dois jogos antes de 11 de junho
O Brasil encerrou a janela de preparação para a Copa com dois amistosos em datas FIFA, os dois nos Estados Unidos, onde a seleção joga a fase de grupos em junho, e o placar dos noventa minutos importa menos do que o que Ancelotti viu antes de fechar a equipe. No primeiro, contra o México, em Dallas, vitória por 2 a 1 com gol de Endrick no primeiro tempo e gol de bola parada no segundo, numa noite em que a defesa de quatro oscilou no intervalo de trinta a quarenta minutos. Ancelotti trocou pra três zagueiros antes do segundo tempo. No segundo amistoso, contra o Japão, em Los Angeles, empate em 1 a 1. O Brasil dominou a primeira etapa e cedeu vinte minutos finais quando priorizou circulação de bola sem pressão adversária suficiente. O Japão entendeu. Empatou.
Os dois jogos confirmaram o que estava em aberto depois da convocação. Endrick vai competir como centroavante titular, e a disputa com o outro nome da posição ainda não está fechada. No amistoso contra o México, Endrick jogou setenta minutos, criou o gol, tentou mais quatro finalizações, duas em posição de área que qualquer atacante de seleção gostaria de ter numa Copa. O substituto entrou com placar controlado e não teve tempo de criar dúvida. No jogo contra o Japão, ordem invertida: titular abrindo, Endrick entrando na etapa final. Desequilíbrio evidente. O moleque do Real alterou o ritmo em menos de dez minutos, e o empate japonês veio enquanto o time ainda se reorganizava da substituição. Ancelotti saiu dos dois jogos com mais certeza sobre Endrick do que sobre o modelo de substituição.
A questão que o amistoso do México explicitou, e que os jornais brasileiros preferiram enterrar no oitavo parágrafo, é sobre a defesa quando o adversário tem largura e velocidade nos dois lados do campo. O México pressionou com dois pontas abertos. Deixou o Brasil com dificuldade pra cobrir as saídas em diagonal dos meias. Os dois laterais brasileiros subiram demais no primeiro tempo e foram expostos nas transições. Ancelotti ajustou, o resultado foi positivo, mas a vulnerabilidade ficou registrada. É o tipo de coisa que adversário europeu e sul-americano vai tentar explorar na fase eliminatória. Os jornais esportivos brasileiros chamaram o empate com o Japão de "teste útil" na manchete. No oitavo parágrafo, em letra menor, escreveram que o Brasil cedeu vinte minutos finais de campo. "Teste útil" é o que se chama de derrota quando o time é favorito.
Vinícius Júnior jogou os noventa contra o México e saiu aos sessenta no Japão, movimento preventivo de Ancelotti pra preservar o desgaste do camisa 7 antes da Copa. O que essa substituição revela é hierarquia tática. Sem Vini Jr em campo, o Brasil perde largura e velocidade de transição pela esquerda de imediato. Não tem outro jogador no elenco que faça o que ele faz naquela posição com a mesma naturalidade. Isso é força. Isso é também dependência. Apaga uma lâmpada, apaga a sala inteira. Brasil joga com fiação concentrada. Qualquer técnico que entra numa Copa com essa dependência sabe que a eliminação pode vir de lesão muscular ou de cartão amarelo acumulado no momento errado. Ancelotti conviveu com isso no Real e venceu. Agora tenta replicar com a seleção.
O lateral-esquerdo estreante teve a primeira partida com a camisa principal. Saiu com a impressão de quem entendeu o que estava em jogo. Sólido defensivamente. Participativo nas trocas laterais. Não tentou nada que pudesse custar a posição. É o comportamento de quem chegou ciente de que o lugar não está garantido e de que a Copa é horizonte, não objetivo imediato. O moleque tem vinte e um, foi formado no Cruzeiro, vendido ao futebol alemão na última janela. Está fazendo curso técnico em logística no Senac por correspondência enquanto joga base. Falou disso na coletiva sem ironia nenhuma, como quem entende que carreira de jogador é curta e que diploma técnico não atrapalha ninguém. Ancelotti notou. O moleque saiu do amistoso com mais chance de estar no grupo de viagem do que entrou.
Rodrygo, destaque da final da Champions duas semanas antes, teve desempenho contido nos dois amistosos. Contido aqui é a palavra exata, não eufemismo. Numa equipe que vai ao torneio com a melhor versão do próprio jogo já testada em competição real, o amistoso não é vitrine, é repetição de movimento. Rodrygo repetiu. Participou das trocas. Manteve a posição quando Ancelotti pediu compactação. Evitou o risco que poderia virar lesão. É o futebol de quem entende que a vitória em junho vale mais do que a cena em maio.
O Brasil vai para a Copa com o elenco mais equilibrado desde 2002, técnico que conhece o torneio por dentro, e três dos melhores do mundo na mesma folha de convocação. Isso não garante nada. O futebol tem memória de favorito eliminado cedo o suficiente pra que qualquer certeza seja tratada como risco. Mas garante que a discussão, desta vez, vai ser sobre o que acontece dentro de campo, não sobre o que faltou construir fora. Por décadas, a seleção foi ao torneio com talento individual superior e estrutura coletiva frágil. O que os dois amistosos de maio sugeriram, sem garantir, é que desta vez a conta pode bater. Ancelotti tem o elenco. Tem três dos melhores do mundo. Tem o método. O que ele ainda não tem, e o que dois amistosos de maio não dão, é a resposta pro vinte minuto em que o adversário pressiona alto. Junho vai cobrar.