Quatro times, e a final em jogo
As semifinais do NBB 2025-2026 começaram nesta semana com Flamengo, Minas, Franca e Paulistano — três cidades, quatro times, quatro técnicos. Nenhum dos quatro técnicos é negro. A liga em que três quartos dos jogadores em quadra são negros opera com banco de comando branco em 95% das temporadas. Cifra anotada não em mês de Consciência Negra — anotada agora, em abril, semana de playoff, porque essa é a hora em que o esporte se olha no espelho. Tem quem dirige e tem quem joga. A linha entre os dois costuma ser de cor.
O Flamengo abriu como favorito. Ganha o NBB com regularidade desde 2018, mantém base do elenco que perdeu o título de 2024 pra o Franca em série de cinco jogos, e contratou em janeiro um pivô americano de dois metros e dez, com passagem por times menores da NBA G-League. Técnico do Flamengo: cinquenta e dois anos, branco, paulista, ex-jogador, sete temporadas no clube. Conhece o elenco de cor. Sabe quando substituir cada jogador. O problema não é técnica de jogada — é desgaste físico. O elenco do Flamengo tem média de idade 31. O do Franca, 29. O do Minas, 27. O do Paulistano, 26. Playoff longo cobra perna. Perna jovem aguenta a quinta partida. Perna veterana cobra preço.
Maicom, 27 anos, ala-armador do Minas, está prestes a ter a temporada mais decisiva da carreira. Mora em Contagem, três filhas pequenas, mulher é professora da rede estadual. Faz curso técnico em educação física no SENAC à distância — quer ser preparador físico quando parar de jogar. Joga há nove temporadas profissionais. Tem média de 14 pontos por jogo no NBB. Nunca foi convocado pra seleção principal — convocação que costuma ir pra jogadores que jogam fora ou que estão no Flamengo. Maicom está no Minas. O Minas está em semifinal. Convocação se discute em maio.
Em Belo Horizonte, ginásio do Mineirinho, terça-feira de abril, oito da noite. Treino aberto do Minas. Trinta pessoas na arquibancada — pais, amigos, três sobrinhos de jogadores, dois jornalistas locais. Treino que terminou às dez e meia. Maicom saiu por último, depois de fazer arremessos de três pontos durante quarenta minutos de sessão extra com o preparador físico. Pegou o carro, voltou pra Contagem, passou em casa pra ver as filhas antes de dormir. Esse é o NBB. Jogador profissional de primeira divisão com rotina que mais parece carreira docente do que carreira esportiva de elite. Salário médio no NBB: R$ 12 mil mensais, segundo levantamento de imprensa de 2024. Salário base, sem bônus. Maicom ganha um pouco mais que isso. Não muito mais.
A Franca tem o jogador mais jovem da geração — Cauê, 21, vindo do Paulistano em janeiro. Pivô de dois metros e cinco, leve, joga em quatro posições. Foi MVP do estadual paulista de 2024. Recusou oferta de universidade americana em 2023 pra ficar no Paulistano — disse à imprensa na época que queria "construir carreira aqui antes de tentar lá". Construiu. Em duas temporadas, virou nome consolidado. A Franca pagou pelo passe valor não divulgado mas estimado em R$ 1,8 milhão — recorde no NBB nacional. Cauê faz média de 18 pontos por jogo na fase eliminatória. Pega cinco rebotes. Distribui duas assistências. Estatística de armador-pivô completo. Brasileiro que joga assim costuma estar na Europa aos vinte e dois. Cauê é a aposta de NBB que diz: "vamos manter um aqui pra mostrar que dá".
Paulistano é o time-surpresa do ano. Elenco mais barato dos quatro semifinalistas, técnico recém-promovido depois de doze anos como assistente, base com seis jogadores formados na própria escola do clube em São Paulo. Calendário menos pesado — não joga Liga das Américas. Treino exclusivo durante a temporada. Pequeno ginásio próprio. Identidade clara. Em campeonato longo, identidade clara conta. Em quadra forrada de cinco partidas seguidas, sobra fôlego pra equipe que sabe o que está fazendo. Paulistano sabe. A pergunta é se a perna do elenco da casa aguenta a quarta e a quinta partida da série — adversário, qualquer que seja, sabe que o esforço físico cobra preço.
As semifinais são em melhor de cinco. Jogo 1 já passou. Flamengo venceu Minas em casa por 81 a 74. Franca venceu Paulistano em casa por 87 a 82. Os dois favoritos abriram com vitória. Em séries de cinco, vencer em casa o primeiro jogo dá vantagem mas não decide. O Franca de 2024 perdeu o jogo 1 em casa e ainda venceu a série. O Minas de 2022 venceu o jogo 1 fora e perdeu a série. O NBB tem histórico de série virada. Quem decide é a perna na quinta partida — e o lance livre na bola decisiva. O ginásio do Mineirinho é forrado. Abafa o tênis dos jogadores. Em quadra forrada, jogador com técnica defensiva controlada leva vantagem sobre jogador com pressão alta. Minas joga defesa controlada. Pode levar a série. Quem dirige o time do banco sabe disso e treina pra isso. Quem joga em quadra acreditando nisso também. O NBB de 2026 vai ter final em maio. Em maio, dois técnicos brancos vão se enfrentar pela taça. Os jogadores que decidem em quadra vão ser, em sua maioria, negros. A linha entre quem dirige e quem joga vai continuar onde está. Pra mudar, precisaria começar antes — em base, em comissão técnica de divisão inferior, em curso de licença C da CBB. Não começou. Em 2027, talvez. Em 2026, não.