Ludmila, Gabi, Adriana, Kerolin, e o piso da Série A1
Brasileirão Feminino Série A1, rodada 9 de 16, abril de 2026. Salário-piso da divisão fixado em R$ 3.000 mensais pela CBF em fevereiro — primeira vez na história que se cravou piso na série principal. Treze de dezesseis clubes estão em dia com o piso. Três pagaram em atraso em março e foram notificados pela CBF: América de Cali, Internacional e Cruzeiro. O salário-piso da divisão masculina equivalente, no Brasileirão masculino, é R$ 1.040 (o salário-mínimo nacional). A diferença é três vezes — formalmente. Na prática, o jogador médio da série masculina ganha R$ 14 mil. A jogadora média da série feminina A1 ganha R$ 4.200. Diferença real, três vezes e meia. A piora é menor, mas a piora existe — e existe inscrita em piso oficial.
Ludmila Maria Vieira da Silva, 30 anos, ponta-esquerda, mineira de Sete Lagoas, jogadora do Atlético de Madri desde 2023. Disputou o Brasileirão Feminino 2026 emprestada pela Real Brasília — joga até maio aqui, volta pra Madri em junho. Salário no Atlético: 480 mil euros anuais brutos. Salário na Real Brasília como atleta emprestada: R$ 38 mil mensais, contrato de cinco meses, pago pelo Atlético direto (não pela CBF). Ludmila marcou seis gols nas primeiras nove rodadas — vice-artilheira da competição. Pretendentes para o Brasileirão: Corinthians, Palmeiras, Santos. Ela escolheu Real Brasília porque o clube fica perto da casa da mãe em Sete Lagoas, viagem de quatro horas pela BR-040.
Gabi Nunes, 33 anos, atacante, paulistana de Pirituba, está no Palmeiras desde 2023 e disputou a temporada toda. Cinco gols em nove jogos, líder do ataque palmeirense ao lado da chilena Karen Araya. Salário Palmeiras: R$ 35 mil mensais — bom pelo Brasileirão Feminino, modesto pelo nome dela. Gabi jogou Olimpíada de Paris 2024 — fez gol contra a França no jogo das quartas que classificou Brasil. Em fevereiro Gabi assinou contrato de imagem com a Adidas Brasil de R$ 240 mil anuais — pouco se comparado aos R$ 4 milhões anuais que Vinícius Júnior ganha da Nike, muito se comparado aos R$ 28 mil anuais que Adriana, atacante do Corinthians, ganha da Olympikus. As marcas pagam por jogadora femenina menos de um por cento do que pagam por jogador masculino comparado em nível mundial. Não é estimativa. É a média do relatório FIFA de patrocínio publicado em janeiro.
Adriana Vanzelli Silva Leal, 29 anos, atacante, paulistana de Itaquera, atual número 7 do Corinthians. Cartel impressionante na seleção brasileira: 47 jogos, 18 gols, em ativo desde 2018. Em maio passado, Adriana sofreu lesão no ligamento cruzado anterior do joelho direito em jogo contra o Internacional em Porto Alegre. Cirurgia em junho, oito meses de recuperação. Voltou aos campos em fevereiro deste ano, ainda sem ritmo de jogo titular. Disputou seis das nove rodadas, marcou um gol. O Corinthians paga R$ 28 mil mensais — bom, considerando que ela estava em recuperação. A torcida do Itaquerão fez festa no primeiro jogo dela depois da cirurgia. Adriana chorou no túnel.
Kerolin Ferraz Nicoli Marques de Lima, 26 anos, meio-campista, paulistana de Embu das Artes, jogadora do North Carolina Courage da NWSL americana desde 2022. Salário no NC Courage: 180 mil dólares anuais. Veio ao Brasil em janeiro pra disputar o Brasileirão Feminino como cedida — joga até maio, volta pra NWSL em junho. Salário recebido no Palmeiras como atleta emprestada: R$ 42 mil mensais, pago pelo NC Courage. Kerolin é a categoria diferente — mora em Cary, Carolina do Norte, casada com um treinador de fitness americano, fala inglês fluente, deu entrevista pra ESPN americana em janeiro sobre o que ela acha da Bandeira americana hoje (resposta: "Eu jogo. Não preciso opinar sobre a bandeira de ninguém pra fazer gol"). Marcou três gols em sete partidas.
A Copa América Feminina 2026 começa em julho no Equador. Brasil é o atual campeão — venceu a edição de 2022 na Colômbia. A pré-convocação da seleção tem 35 nomes. Treze jogam no Brasileirão A1 atual — incluindo Gabi Nunes, Adriana, mais nove da série A1 que ainda não foram chamadas pra titular. Outras 22 jogam fora: doze nos EUA (NWSL), seis na Espanha (Liga F), três na França (D1 Arkema), uma no Japão (WE League). Da pré-convocação, 23 das 35 são pretas ou pardas. O técnico Arthur Elias é negro — assumiu a seleção em 2023, é o primeiro técnico negro permanente da seleção feminina principal. A diferença salarial entre o que ele ganha e o que Dorival Júnior ganhou na seleção masculina é seis vezes — R$ 220 mil mensais Elias contra R$ 1,3 milhão mensais Dorival no pico.
O Brasileirão Feminino tem média de público de 1.840 torcedores por jogo na rodada 9, contra 870 torcedores na rodada 1 — crescimento de 111 por cento no semestre. O clube com maior média é o Corinthians com 4.200 — Itaquerão fechado para Adriana voltar. O menor é Madureira sub-base no Carlos Eboli com 320 torcedores. A Globo paga R$ 22 milhões anuais pra transmissão do Brasileirão Feminino — versus R$ 1,8 bilhão anuais do masculino. Oitenta e duas vezes menos. Mas o feminino crescendo, o masculino estagnado em audiência desde 2023. A Copa América Feminina em julho vai ter transmissão da Globo pela primeira vez em horário nobre — 19h45 nas semifinais e final. É a primeira janela em que o futebol feminino brasileiro entra em horário de Globo concorrendo com novela. Vai ser teste. Se passar de cinco pontos de audiência média, a transmissão de 2028 será fixa. Se não passar, volta pra SporTV. O torneio inteiro vai disputar isso em julho. As quatro jogadoras citadas acima — Ludmila, Gabi, Adriana, Kerolin — vão estar em campo. E o piso de R$ 3 mil, novo este ano, continua sendo a pergunta pendente em todas as outras rodadas: até quando vai ser o que sustenta jogadora profissional?