Seis rodadas, e o G4 desenhado

Seis rodadas do Brasileirão de 2026 e o G4 tem nome — Palmeiras, Flamengo, Botafogo-SP, Bragantino. Dois grandes, dois clubes do interior paulista. Combinação pouco usual em abril. Mais comum em setembro, quando clube grande perde fôlego em três competições simultâneas e clube médio com calendário leve sobe na tabela. Em abril, abre janela de surpresa. Em julho, normalmente, dois clubes do interior viram zero. O histórico das últimas cinco temporadas é claro. Por enquanto, no entanto, o quadro é o quadro. Quatro times com 13 pontos ou mais em seis jogos.

Antônio Carlos, 42, mecânico de Sorocaba, levou os dois filhos pro estádio do São Bento de domingo. Ônibus circular Sorocaba–São Roque saiu lotado às oito da manhã. Entrada R$ 35 cada — adulto e meia. O São Bento perdeu de 2 a 0 pra o Botafogo-SP. Antônio Carlos voltou em ônibus mais vazio à tarde com os filhos cansados. Disse que vai voltar daqui a duas semanas pro jogo do Bragantino. "Botafogo-SP tem time. Bragantino tem time. São Bento ainda tá montando", explicou. Antônio toca surdo na escola de samba do bairro há vinte e dois anos. Sabe contar ritmo. O ritmo do Brasileirão neste abril ele já anotou. Dois do interior dão trabalho.

O Botafogo-SP de Ribeirão Preto é a história mais clara do campeonato até agora. Subiu da Série B em 2024, segurou-se na primeira divisão em 2025, e abriu 2026 com elenco mantido em oito posições, técnico promovido do sub-20 e calendário leve por não ter Libertadores nem Sul-Americana. O técnico — quarenta e um anos, branco, ex-zagueiro do próprio clube nos anos 2000 — armou time em 4-2-3-1 com pressão alta nos primeiros vinte minutos e bloco médio depois. Quatro jogos com mais finalizações no alvo que o adversário. Dois com mais posse. Catorze pontos em seis jogos. Recorde do clube em abril.

O Bragantino fez 14 pontos com elenco que misturou base e contratação argentina. O zagueirão Wallace, 33 anos, ex-Grêmio, aprendeu a perder peso no avião quando jogou na China entre 2017 e 2020 — voo de seis horas era oportunidade pra suar três quilos de água com gel térmico. Hoje Wallace pesa cinco quilos abaixo do peso que pesava em 2020. Faz preparação física exclusiva, treina dois turnos quando o clube dá um. Lidera o setor defensivo. Bragantino sofreu apenas três gols em seis jogos. O setor defensivo é o que segura clube de orçamento médio em campeonato longo.

O Flamengo lidera o G4 com 16 pontos. Roger Machado, no Bahia, fez 12 pontos — está em sétimo. Marcão no Fluminense fez 10 — está em décimo segundo. Vagner Mancini no Vasco fez nove — décimo terceiro. O técnico do Sport fez sete — décimo sétimo, na borda do Z4. A contagem dos quatro técnicos negros no Brasileirão de janeiro tem aritmética visível em abril: um na briga do G4 (Roger), dois no meio sem brilho (Marcão, Mancini), um na borda da queda (Sport). Histórico de cinco temporadas diz que, em abril, dois dos quatro continuam no cargo em outubro. O Sport está mais perto de mudar. O Vasco talvez tenha mais paciência por causa da campanha de sócios. Roger no Bahia tem trabalho mas tem orçamento decente. Marcão no Fluminense tem o quê — pressão de torcida com elenco em transição. Pode aguentar até maio. Pode cair em junho.

A rodada 6 teve seis jogos de sábado, quatro de domingo. Maior público: Flamengo–Atlético-MG no Maracanã, sessenta e três mil pagantes. Menor: Cuiabá–Athletico, treze mil. Em Salvador, Bahia–Cruzeiro encheu o Pituaçu com vinte e dois mil — número alto pro estádio em jogo de domingo à tarde sob calor de 33 graus. Roger comemorou na coletiva. Pituaçu, em abril, vendendo bem. Quando a Fonte Nova voltar a operar plenamente em maio, o público pode dobrar. Ou pode não dobrar — depende do que Bahia fizer entre abril e maio. O brasileiro vai ao estádio quando o time vai bem. Quando vai mal, fica em casa.

A Praça do Patriarca, no centro de São Paulo, em segunda-feira de manhã, sucos vendidos em barraca improvisada. Três trabalhadores na fila discutindo a rodada. Cada um do seu time. Palmeirense, são-paulino, corintiano. Nenhum dos três é torcedor de clube do interior. Nenhum dos três viu jogo do Botafogo-SP no fim de semana. Mas os três sabem que o time de Ribeirão está em quarto. Sabem porque o noticiário de tv esportiva precisou cobrir o assunto entre quinta e domingo da semana passada. O time do interior em quarto força o esporte falado a falar dele. Em três semanas, talvez não esteja mais em quarto. Em dezembro, talvez esteja em décimo segundo. Mas em abril de 2026, o esporte falado falou dele. Quem chega em junho não é quem chegou em abril. O calendário cobra. Já cobra.