Supi, e o peão que avança
Clube de Xadrez Rio Branco, Méier, Rio. Rua Dias da Cruz 580, segundo andar de sobrado dos anos 50. Quarta-feira de março, 19h30, dezessete mesas com relógios digitais DGT, tabuleiros de plástico verde e creme padrão FIDE, salão iluminado por lâmpadas T8 que zumbem no silêncio. Vinte e três frequentadores — quinze adultos, oito crianças e adolescentes. Sete são negros ou pardos. O último censo da Confederação Brasileira de Xadrez, em 2023, registrou 11 por cento de jogadores pretos ou pardos em federações oficiais — abaixo dos 56 por cento da população. O xadrez é um dos esportes federados mais brancos do Brasil.
Luis Paulo Supi, 32 anos, nascido em São Paulo, é Grão-Mestre brasileiro de origem afrodescendente em atividade. Título conquistado em abril de 2018 depois das normas FIDE acumuladas no ciclo de 2017 e 2018. Pico de rating de 2.612 em setembro de 2022. Rating em março de 2026 oscila em torno dos 2.600 — entre os cinquenta primeiros do ranking nacional mas fora dos cem primeiros do mundial. GM modesto em termos absolutos, histórico em termos brasileiros pelo peso de geração. Antes dele, o brasileiro mais alto foi Mequinho — Henrique Mecking — que chegou a 2.635 em janeiro de 1977 e subiu a número três do mundo em janeiro de 1978, atrás apenas de Karpov e Korchnoi. Venceu o Interzonal de Manila em 1976. Caiu nas quartas dos Candidatos de 1977 contra Polugaevsky em Lucerne, por cinco e meio a seis e meio. Em 1978 parou as competições profissionais ao ser diagnosticado com miastenia gravis. Mequinho é branco. Entre 1977 e 2018, quarenta e um anos, o xadrez brasileiro de alto rendimento não teve representante negro com rating de GM. O número aparece pequeno em página de relatório. Em terreno de modalidade, é gerações inteiras sem espelho.
Supi mora em São Paulo, treina seis horas por dia em apartamento de Pinheiros. Patrocínio do Banco do Brasil desde 2021 — R$ 4.500 mensais, contrato até 2028. Antes, Liga Brasileira de Xadrez pagou R$ 800 mensais entre 2016 e 2020 enquanto Supi acumulava norma de GM. Sebrae do Paraná, R$ 2.200 mensais por dezoito meses em 2020. Entre patrocínios, viveu de premiação de torneio — Wijk aan Zee 2017, sexto lugar, 4.500 euros. Aeroflot 2018, oitavo, 3.200 euros. Em cinco anos, cerca de US$ 28 mil em premiação acumulada. É xadrez de exigência olímpica com orçamento de feirinha de bairro.
No Méier, terça-feira que vem, 31 de março, o Clube Rio Branco realiza torneio interno aberto. Quinze rodadas em sete dias, formato suíço, premiação total de R$ 4.200. Um dos inscritos: Davi Júnior Cordeiro, 13 anos, morador da Penha, rating 1.850 pela FIDE — Candidato a Mestre. Davi começou aos oito no projeto Xadrez Social do municipal Mello Mattos. Treina três vezes por semana no clube — pega ônibus 384 da Penha até o Méier, quarenta e cinco minutos cada ida. Mãe Sônia, 36, faxineira em residência de São Conrado, paga a passagem dos dois turnos. R$ 4,50 cada. Cento e oito por mês. Inscrição no clube: gratuita pra estudante de escola pública. O clube fundado em 1942 manteve a categoria.
Davi joga abertura espanhola com as brancas e siciliana Najdorf com as pretas. Repertório clássico, agressivo. Em janeiro venceu três rodadas seguidas no Aberto da Tijuca contra adultos com rating mais alto — derrotou um Mestre FIDE de 2.230 em jogo de duas horas e quinze minutos, depois de erro do adversário que confundiu a sequência da Najdorf. Davi mandou foto pra mãe pelo WhatsApp. Sônia mostrou na casa onde faxinava no dia seguinte. A patroa não sabia o que era a Najdorf. Devolveu o celular sem comentar. Davi fez o que tinha a fazer no tabuleiro. A patroa fez o que tinha a fazer no varal.
Em São Paulo, no Clube Paulista de Vila Buarque, paisagem parecida. Treinador Sergio Murilo da Silva, 58, Mestre FIDE com rating 2.380, conduz turma de treze adolescentes nas terças e quintas. Quatro são negros — Caíque (15, Brás), Jonatas (14, Itaquera), Larissa Rodrigues Maciel (13, Capão Redondo), Maíra (16, Cidade Tiradentes). Larissa é uma das duas garotas pretas com rating FIDE acima de 1.700 no Brasil. Sergio Murilo treinou Supi entre 2008 e 2013. "O Supi treinava oito horas por dia desde os quinze. Eu nunca vi outro garoto desse perímetro com essa concentração", diz Sergio no intervalo da aula. "A Larissa tem o mesmo foco. Hoje sai três vezes por semana de Capão Redondo. Tem que sair cinco." A mãe da Larissa trabalha em padaria, salário R$ 1.840. Cinco vezes por semana custa R$ 96 em passagem. Sergio paga a diferença do próprio bolso. Compromisso que não vai pro relatório FIDE.
A FIDE tem 197 federações e cerca de 2.000 Grão-Mestres no mundo, dos quais aproximadamente 90 são afrodescendentes (Black Knights Foundation, 2024). Pontus Carlsson da Suécia, brasileiro adotado por família sueca, foi um dos primeiros — GM desde 2007. No ranking mundial de março de 2026: Magnus Carlsen lidera com 2.842, Hikaru Nakamura 2.798. Nenhum no top 10 é afrodescendente direto. Maurice Ashley, americano nascido na Jamaica, foi o primeiro GM negro do mundo — título em 1999. Ashley vai ao Rio em outubro de 2026 para o World Chess Festival no Pier Mauá. Davi Júnior Cordeiro vai estar lá. Mãe Sônia já comprou o ingresso de R$ 25 pra sessão aberta. Supi vai estar no painel. Sergio Murilo vai estar na Vila Buarque com Larissa. Quarenta e um anos depois de Mequinho, o tabuleiro brasileiro tem um peão negro avançando à oitava casa. Ainda peão. Ainda avançando. O rating sobe um ponto por vez. Mas sobe.