Vini, Rodrygo, Endrick, Casemiro, Europa

A reta final da Champions League 2025-2026 entra em março com quatro brasileiros negros em jogos decisivos — Vini Jr e Rodrygo no Real, Endrick em rodízio com a equipe principal, Casemiro no Manchester United. As oitavas de final foram sorteadas em dezembro. O Real Madrid pegou o Manchester City em chaveamento que a UEFA disse ter sido por sorteio mas que comissários de TV de várias emissoras europeias chamaram de "o jogo da televisão". É o terceiro encontro consecutivo dos dois clubes na fase de eliminatórias. Jogo de tv é jogo de receita. Jogo de receita carrega obrigação extra.

A semana entre 10 e 17 de março concentra a primeira ida das oitavas. O Real recebe o City em terça. O Manchester United enfrenta o Atlético de Madrid em quarta. Casemiro joga as duas. Não joga oficialmente as duas — joga uma, descansa na quinta, joga pela seleção na sexta seguinte, volta pra Inglaterra no domingo. Quem cobre futebol há vinte anos sabe que essa escala física não é problema de tabela. É problema de corpo. O corpo do Casemiro tem trinta e três anos. A medicina esportiva avança, a tabela não. Casemiro joga na sexta, pega avião sábado, joga seleção domingo, come dois dias na conta da própria escala. O corpo não vota.

Endrick está em situação rara. Voltou ao Palmeiras emprestado entre janeiro e maio com autorização do Real, jogou as duas primeiras rodadas do Brasileirão (dois gols), e tem agora a primeira chamada do Real pra a Champions na semana de 10 de março — vai voltar a Madrid quarta-feira, ficar no banco do jogo contra o City e voltar pro Palmeiras na sexta. Em palavras de tabela: dois fusos numa semana. Em palavras de carreira: jogador de dezenove anos pendulando entre Brasil e Europa em fevereiro e março de ano de Copa do Mundo. Ancelotti pediu o moleque pro banco da Champions, dizem fontes do clube, pra dar gás a um elenco cansado e pra mandar recado de que o Real conta com Endrick na fase eliminatória. Quem manda recado pelo banco está dizendo coisa importante. O Real costuma dizer importante.

Em Madrid, Cibeles dia útil. Quarta-feira. Trabalhador comum sai do escritório às oito, anda pela praça, vê outdoor do Real estilizado pra Champions com o rosto do Vini estampado nove metros de altura. Em Belford Roxo, sábado, três e meia da tarde. Beneditino, 51, taxista da Maré em deslocamento de fim de semana, parou pra ver o resultado do jogo na padaria do irmão. "Vini fez", disse Beneditino. "Foi de novo." A Maré não tem outdoor de Vini. Tem rede de tv aberta, lan house, rádio AM com narração de Ulysses Costa. Beneditino aprendeu inglês ouvindo BBC no rádio entre 1994 e 2002 — pra ouvir Champions com narração inglesa quando a brasileira atrasava. Contrato de jogador brasileiro com clube europeu vive em dois fusos. O jogador também.

O dado de mercado pra entender a temporada europeia dos brasileiros é a folha de pagamento. Vini Jr renovou em dezembro até 2030. Salário estimado em 25 milhões de euros líquidos por ano. Rodrygo renovou em fevereiro até 2029. 18 milhões anuais. Casemiro tem contrato com o Manchester United até 2027 — 19 milhões anuais, valor que o clube tentou renegociar em janeiro e o jogador recusou. Endrick custou ao Real 75 milhões de euros na transferência de 2024. Os quatro jogadores somados representam, em folha + amortização de transferência, cerca de 110 milhões de euros por ano de despesa pra os três clubes europeus que os empregam. Esse número é mais do que a soma da folha de jogadores da Série A brasileira inteira. Mais do que a soma da folha de qualquer clube da MLS. Mais até que a folha do Galatasaray. Os brasileiros não são acessório de elenco europeu. São o centro da contabilidade.

Os outros brasileiros em fase decisiva da Champions: Bruno Guimarães no Newcastle (eliminado em fevereiro pela Bayer Leverkusen), Antony no Manchester United (afastado por lesão), Antony Matheus no Betis (eliminado nas oitavas em fevereiro), Marquinhos no PSG. Marquinhos é o capitão do PSG e o único brasileiro entre os capitães de quatro semifinalistas em três das últimas cinco edições. Repete neste ano. PSG joga as oitavas na semana que vem contra o Liverpool. Jogo de tabuleiro pra Champions. Marquinhos joga lateral de quatro defensores e o centro do bloco quando o time abre em três zagueiros. Versátil. Sub-utilizado pela seleção brasileira ao longo de quatro técnicos. Repete a história do Thiago Silva — capitão de clube europeu, segunda linha na seleção.

A janela curta entre Champions e seleção em junho vai cobrar conta. Casemiro joga as oitavas da Champions, depois Premier League em sequência, depois jogo da seleção em data FIFA de março. Vini, idem. Rodrygo, idem. Endrick, idem em escala diferente. Em 10 semanas, os quatro brasileiros somados vão jogar cerca de 22 partidas oficiais. Vinte e duas partidas em dez semanas é calendário de Champions cravado. Lesão muscular tem probabilidade entre 18% e 24% nessa rotação, segundo estudo de medicina esportiva da FIFPro publicado em 2024. Quase um em cinco. A Copa começa em junho. Quem chega inteiro chega com vantagem. Quem chega lesionado ouve no rádio. Casemiro está mais perto da segunda categoria que da primeira no histórico dele. Os outros três ainda têm margem. Junho vai cobrar a margem.