Dois jogos, e o Z4 já se desenha
Duas rodadas do Brasileirão de 2026 e três clubes já têm reunião de emergência marcada — Atlético-GO, Juventude e Vitória. Dois empates e uma derrota nas primeiras seis pontos disputados. Folha apertada. Elenco que mistura veterano em fim de contrato com promovido da base sem rodagem. O Atlético-GO já passou pelo segundo discurso público do presidente sobre paciência — primeiro foi na quarta-feira, depois do empate em Goiânia. Presidente que pede paciência em fevereiro está se preparando pra demitir em abril. Quem cobre Série A há vinte anos conhece a cronologia.
A imprensa da capital paulista cobriu mais o jogo do Palmeiras–São Paulo de sábado do que o conjunto das rodadas. Compreensível pelo público de público, incompreensível pela leitura técnica do campeonato. Os três times do interior paulista que abriram o ano com elenco competitivo — Bragantino, Botafogo-SP, Mirassol — fizeram seis pontos somados nas duas rodadas. O Botafogo-SP, técnico recém-promovido da Série B, ganhou dos dois adversários paulistas com placar mínimo e bola parada bem ensaiada. Bragantino fez quatro de seis pontos jogando jovem reserva no meio-campo. Mirassol manteve elenco intacto da temporada passada e abriu com dois empates em casa. Padrão de interior — defesa fechada, transição rápida, bola parada como armas. Equipe de elite acha que é fácil. Em junho não é mais.
Na Praça da Sé, padaria do seu Zezinho às sete da manhã da segunda-feira. Três frequentadores discutem escalação na bancada de mármore. Seu Zezinho serve café com pão de queijo, escreve a escalação do Bangu no quadro branco encostado na parede ao lado das listas de preço. Bangu não joga Série A — disputa a Quarta Divisão estadual do Rio. Seu Zezinho perdeu o pai aos dezessete e nunca mais viu o time do Bangu cair sem o coração apertar. Diz isso entre uma janela de café e outra. Esse Bangu da Quarta hoje é o que sobrou do Bangu de Carlos Alberto Torres, dos anos sessenta. Coração não fala de divisão.
No Atlético-MG, a planilha do clube rodou na quarta de manhã. O Atlético abriu 2026 com elenco renovado de dois titulares — saiu zagueiro, saiu meia. Pegou dois empates nas primeiras rodadas. Cuca pediu calma. Diretoria está fazendo cálculo de quantas rodadas têm pra dar Cuca chance de armar. Quatro? Seis? Oito? A planilha tem coluna pra cada cenário. Atlético-MG tem dívida de competição internacional cobrando pelo orçamento. Se não chegar à Libertadores em 2026, o clube precisa cortar 18% da folha em 2027. Pressão real, não imaginada. Cuca sabe. Os jogadores sabem. A torcida ainda não foi avisada com esse vocabulário, mas vai ser.
O Z4 começa a se desenhar mais cedo que de costume. Em rodada dois, normalmente, ninguém aponta candidato à queda — o campeonato é longo, time pode reagir, dois ou três empates não definem temporada. Mas em 2026 os três clubes da reunião de emergência têm dois pontos cada e calendário que aperta. Atlético-GO tem viagem pra três jogos consecutivos fora — Brasília, Curitiba, Salvador. Juventude tem Sul-Americana abrindo em março e elenco curto pra duas competições. Vitória tem patrocinador master cobrando aporte que não chegou em dezembro — entrou com elenco caro em folha curta. Os três têm a mesma matemática: três derrotas seguidas e a janela de junho vira janela de venda em vez de janela de reforço. Comeria a temporada.
A rodada 2 teve dois gols de Endrick contra o Athletico no jogo do Palmeiras antigo — o moleque emprestado de volta ao Verdão entre janeiro e maio antes da Copa, autorização do Real Madrid. Endrick voltou pra dois meses de jogo pra não chegar à seleção sem ritmo. Dois gols na rodada 2. Cuca da CBF, técnico interino até Ancelotti assumir oficialmente, viu o jogo da tribuna em São Paulo. Mandou recado pela imprensa: "Endrick está pronto". Já estava. A pergunta agora é se a chegada do Ancelotti em março resolve o ritmo da seleção em três amistosos. Ancelotti precisa de seis pra começar a montar elenco com identidade tática. Vai ter três.
Quem ganhou no fim de semana: Palmeiras (saiu da rodada 2 lider), Flamengo, Internacional, Cruzeiro, São Paulo. Quem empatou em casa esperando vitória: Corinthians, Atlético-MG, Grêmio. Quem perdeu sem desculpa razoável: Atlético-GO, Vitória. A rodada 3 já tem Bahia–Flamengo no Pituaçu, jogo que vai ditar tom do mês. Roger Machado segue com o time abrindo. A pergunta de fevereiro era se Roger encaixava o elenco em quatro semanas. A pergunta de março já é outra. Z4 cravado em rodada 2 não costuma se desfazer fácil. Folhas pretas no quadro do seu Zezinho — aquelas que ele guarda pra anotar derrota do Bangu — não escolhem mês.