Hebert, cinco anos depois de Tóquio

Salvador, bairro de Pernambués. Academia da Federação Baiana de Boxe, R. Vasco Filho 320, segunda-feira de fevereiro, 14h40. Hebert Conceição, 28 anos, peso médio, ouro olímpico em Tóquio 2020, está no saco de pancada de 35 quilos pendurado no canto do salão. Camiseta regata cinza furada no ombro esquerdo, calção branco da seleção brasileira de 2024 ainda com o número 75 do peso categoria pintado a marcador no quadril, tênis Nike Hyperko com solado já liso. A trena da medalha de ouro está pendurada na coluna da entrada da academia, dentro de uma vitrine sem chave que o seu Geraldo, o porteiro de 71 anos, abre toda terça pra limpar o vidro com Veja Multiuso.

Hebert virou profissional em maio de 2022, oito meses depois do ouro olímpico. Assinou com a empresa Top Rank, de Bob Arum, contrato de quatro lutas com bolsa inicial de 75 mil dólares por luta. Lutou três vezes — duas em Las Vegas, uma em Belo Horizonte. Ganhou as três por nocaute, somou recorde de 3-0 com três KOs. A quarta luta nunca aconteceu. A Top Rank cancelou em janeiro de 2024 alegando "indisponibilidade de cartel adequado" — versão oficial. Versão de bastidor, segundo um empresário do circuito que pediu pra não ter nome publicado: Hebert recusou luta de descida pra peso meio-médio que envolvia perder cinco quilos em duas semanas. "Não topei estragar fígado." Resposta direta dele, sem advogado.

De volta a Salvador, Hebert reabriu a Academia Conceição em junho de 2024. Aluguel de R$ 4.200 mensais no segundo andar de um sobrado em Pernambués que tinha sido salão de festa popular. Pintura branca por dentro, dois ringues amadores de 4 metros, oito sacos de pancada Pretorian, quatro pares de luva 16 onças para sparring, balança Filizola digital. Vinte e dois alunos pagantes — mensalidade de R$ 180 — entre crianças de 10 a 14 anos do bairro e adolescentes que treinam para amadorismo competitivo da CBBoxe. Hebert dá aula segunda, quarta e sexta das 8 da manhã ao meio-dia. As terças e quintas atende em Camaçari, em projeto social da Petrobras chamado Boxe Cidadão, que paga R$ 7.500 mensais. É o que sustenta o aluguel da academia.

No sábado o assunto é diferente. Hebert participa de cinco a oito gravações por mês como comentarista esporádico do canal Boxe Brasil no Sportv — paga R$ 3.500 por gravação. Tem contrato de imagem com a marca de fitness Centauro Original (sapatilha Toby) que vale R$ 22 mil por mês até dezembro de 2026, fechado em outubro de 2024 com a agência Cogedi. Esses três fluxos somam R$ 47 mil mensais — bom dinheiro pra Salvador, dinheiro pequeno pra um campeão olímpico em ativo. Vinte por cento disso vai pra mãe, dona Marlene, que tem fibromialgia e mora em casa que Hebert comprou no Imbuí em 2023. Outros vinte por cento vai pro irmão mais novo, Yuri, 19, que faz faculdade de Educação Física na UNIFACS com bolsa parcial.

Na manhã de quarta, perguntei se ele pensa em voltar pro circuito profissional. Hebert riu, baixinho, e ficou cinco segundos calado antes de responder. "Sabe o que eu pensava em Tóquio? Que ia comprar casa pra mãe. Comprei. Que ia ter academia. Tenho. Sabe o que eu não pensava? Que ia ficar conversando com você sobre se vou ou não voltar a perder cinco quilos em duas semanas pra um cara que ganha 800 mil pra estragar meu fígado." Pausa. "Eu tô bem, cara. Tô vivo. Tô feliz. Casamento marcado pra dezembro." A noiva é Camila, advogada de família em escritório de Salvador, namoraram desde 2023, casamento marcado pra dezembro de 2026 no salão da praia do Buraquinho. Vão alugar buffet de Maurício de Oliveira por R$ 38 mil, vão ter trezentos convidados, vão ter samba e arrocha porque tia da Camila é tia da Margareth Menezes, que prometeu cantar.

O legado é o garoto Pedrinho. Pedro Ítalo dos Santos, 12 anos, mora no bairro de Cosme de Farias, treina na academia há dezoito meses. Pega ônibus 1605 todo sábado às 7 da manhã. Pega o segundo ônibus, 0220, na Estação Lapa. Chega na academia às 8h45. Treina até as 11h. Volta a pé três quilômetros pra economizar a passagem de R$ 4,50. Hebert paga a mensalidade do Pedrinho do próprio bolso — R$ 180 que sai da conta dele direto. Pedrinho ganhou o estadual juvenil sub-13 dos leves em setembro passado, qualificou pra seletiva nacional em maio. Se passar na seletiva, vai pro campeonato sul-americano juvenil em Lima, em julho. Passagem, hospedagem, treinador acompanhante — tudo cobre a CBBoxe. Mas o tênis pra usar na competição custa R$ 580 e a CBBoxe não cobre tênis. Hebert vai cobrir esse também.

O cinco anos de Tóquio fecha em agosto de 2026. Hebert não vai fazer cerimônia. Vai estar treinando o Pedrinho na quarta de manhã, vai gravar comentário do Sportv na sexta, vai jantar com Camila no sábado em restaurante do Vasco da Gama em Salvador. A medalha continua na vitrine que o seu Geraldo abre com Veja Multiuso. A história não acabou — virou outra história. O Brasil que produz campeão olímpico e depois oferece a ele bolsa de comentarista esportivo aos 28 anos é o mesmo Brasil. Hebert sabe. Aprendeu rápido. Quem aprende rápido sobrevive. Pedrinho, daqui a oito anos, vai estar onde Hebert está hoje — ou não vai estar em lugar nenhum. Depende da mensalidade que cai e do tênis que sobe.