Trinta e um a vinte e quatro, Mahomes, Bad Bunny

Super Bowl LX, Levi's Stadium em Santa Clara, ontem à noite. Kansas City Chiefs 31, Philadelphia Eagles 24. Mahomes ganhou o terceiro título em cinco temporadas e o terceiro MVP de Super Bowl da carreira. Quatro touchdown passes, 312 jardas aéreas, dois sacks recebidos, zero interceptações. Hurts pelo Philadelphia teve a segunda melhor partida estatística da carreira em Super Bowl — 287 jardas, dois touchdowns aéreos, um rushing touchdown no terceiro quarto que reduziu pra 21-17. Não foi suficiente. Saiu de campo com olhar de quem sabe que vai jogar mais quatro finais antes de pendurar a luva. Trinta anos contra trinta. Mahomes carrega três anéis. Hurts carrega um.

A jogada da partida veio aos 8 minutos do quarto período. Eagles 17-21 atrás, terceira descida e 7 jardas na linha de 23 do Kansas City. Hurts recebeu o snap, recuou três passos, tentou conexão de profundidade com A.J. Brown. Recepção perfeita até o cornerback dos Chiefs Trent McDuffie chegar de cobertura cruzada e tocar de leve a bola — desviada, terceira descida fracassada. McDuffie tem 25 anos, é negro, drafteado em 2022, contrato estendido em 2025 por 84 milhões de dólares. Mahomes voltou pra próxima posse, levou em oito jogadas até a end zone, touchdown de Kelce. A end zone pertenceu a Kelce. A defesa que abriu o caminho pertenceu a McDuffie. Detalhe que TV não cobre.

O Halftime Show foi do porto-riquenho Bad Bunny. Benito Antonio Martínez Ocasio, 31 anos, primeiro artista latino solo no intervalo do Super Bowl desde Jennifer Lopez com Shakira em 2020. Doze minutos de show. Quatro músicas em espanhol. Audiência medida pela Roc Nation e pela CBS: 124 milhões de televisores nos EUA, recorde para apresentação solo de artista latino. Streams no Spotify: 18 milhões em quatro horas pós-show. Bad Bunny não falou inglês. Cantou em espanhol nas quatro músicas. Em redes sociais americanas a partir das duas da manhã, hashtag #SpeakEnglish virou trending. Roc Nation, produtora do halftime desde 2019, respondeu pela manhã: "Bad Bunny cantou em espanhol. Próxima questão." Frase de manchete. Frase que disse o que precisava dizer.

Audiência total da partida: 132 milhões de televisores nos EUA — quinto maior público de transmissão única do esporte americano. No Brasil, ESPN e ESPN 2 transmitiram simultaneamente. Pico às 21h12 horário de Brasília, durante o touchdown final do Kansas City: 1,6 milhão de televisores. Cresceu 28 por cento sobre o LIX. Quem assistiu no Bar do Ailton — Wendel, Beneditino, Edson, Cláudio, mais nove frequentadores — ficou até 0h45. Beneditino dirigiu o táxi pra casa às duas, pegou passageiro saindo da boate na Avenida Brasil, falou da vitória durante os 22 minutos de corrida. Cobrou R$ 38. O passageiro pagou R$ 50, mandou guardar o troco. "Mahomes valeu cada centavo", disse o passageiro. Beneditino guardou. Em Madureira, no domingo, NFL é assunto que paga gorjeta de táxi.

No vestiário dos Chiefs, Mahomes fez coletiva com a esposa Brittany e os dois filhos no fundo da sala. Sterling, 5 anos, segurou o troféu Vince Lombardi por trinta segundos antes do pai tomar de volta com riso. Em segunda frase, mudou o tom: "Quando vejo essa imagem — o Hurts e eu, dois quarterbacks negros disputando o Super Bowl pela segunda vez em duas temporadas — eu não posso fingir que não vejo. Tem moleque negro no Texas, em Atlanta, em Filadélfia, em Salvador onde eu sei que tem fã clube do Kansas City, vendo essa final e pensando: posso jogar QB também. Foi pra esse moleque que eu joguei. A diferença é que agora a NFL tem espaço pra ele." Cinquenta segundos de fala. Hurts, dez minutos depois, foi mais curto. "Mahomes ganhou. Voltarei. Vai ter quinto Super Bowl, sexto, sétimo. Eu estou aqui. Não tô indo embora." Sem retórica, sem maquilagem.

Os comerciais renderam à CBS US$ 850 milhões em receita — 30 segundos a US$ 8,2 milhões. Em meio à programação, um de 60 segundos da Anheuser-Busch colocou Hurts e Mahomes lado a lado conversando sobre o caminho deles na liga. Peça de US$ 16,4 milhões. Foi a primeira vez que dois quarterbacks negros titulares apareceram juntos em comercial de Super Bowl. Não foi por acaso. Anunciante calcula. O cálculo agora reconhece. Em 1988, quando Doug Williams ganhou o primeiro Super Bowl pra Washington, a Disney pediu pra ele dizer "I'm going to Disneyland" no comercial pós-jogo. Williams cobrou cachê. Recebeu menos do que o quarterback branco que perdeu a final. O cálculo de cachê demorou trinta e oito anos pra mudar. O cálculo de manchete vai demorar menos.

A próxima temporada começa em setembro. Os Chiefs voltam a defender o título — o terceiro consecutivo. Hurts volta pra Filadélfia, troca o coordenador ofensivo (anúncio na quarta-feira). Jackson em Baltimore, Daniels em Washington, Williams em Chicago. A lista dos doze QBs negros titulares vai ter mais um em setembro — Cameron Ward, draftado em 2025, deve assumir o Tennessee Titans. Treze. Em 1968, era Marlin Briscoe sozinho. Em 2026 são doze. Em 2027 vão ser treze. A conta sobe um por ano, em média. Mas a conta sobe. Madureira já anotou. O Bar do Ailton já reservou a televisão pra setembro.