Vinte times, quatro técnicos, uma pauta
O Brasileirão de 2026 começa neste fim de semana com quinze ônibus rumo a Curitiba, três voos fretados pra Salvador e dois para Recife — os jogos da primeira rodada não respeitam geografia. Vinte times. Vinte cidades. Trinta e oito rodadas até dezembro. Quatro técnicos negros no banco da primeira jornada: Roger Machado no Bahia, Vagner Mancini no Vasco, Marcão no Fluminense e o nome novo do Sport. É a contagem mais alta desde 2017. Ninguém anotou na coletiva de abertura da CBF na quarta. A imprensa cobriu o sorteio da tabela e os preços dos passes da janela. Quatro técnicos negros é informação. Informação que precisa de quem anote.
O calendário abre apertado. Estadual ainda rolando até abril, Copa do Brasil entrando em fevereiro, Libertadores e Sul-Americana em março. O time que abre a temporada com elenco caro e pré-temporada longa começa com vantagem de duas semanas sobre o time que abre com elenco médio e pré-temporada de quinze dias. Bahia entrou na quinta com pré-temporada de quase quarenta dias na Cidade do Pituaçu. Sport teve metade disso. A diferença vai aparecer entre a terceira e a sétima rodada.
Em Guarulhos, base do Palmeiras, terça-feira de janeiro, treino do sub-17 às nove da manhã sob calor de 36 graus. Sebastião, dezenove anos, volante, está prestes a subir para o profissional. Mora com a tia e o tio em Cumbica há sete anos — saiu da casa dos pais em Salvador aos doze pra ficar mais perto da base. Estuda biologia à distância, faz prova online aos sábados quando não tem jogo. Volante, um metro e oitenta e três, perna direita boa pra desarme, esquerda em construção. Vai estrear no time profissional na Copa do Brasil de fevereiro se o técnico repetir o que disse em entrevista de dezembro. Ainda não é craque exportável. É o tipo de jogador que o Brasil produz aos quilos e que o futebol europeu compra antes de virar nome conhecido em casa.
A pauta de arbitragem segue como capítulo recorrente. A CBF anunciou em dezembro a contratação de novos árbitros de vídeo formados em curso de seis meses — o último foi em 2023, com resultado misto. Quatro VAR foram afastados ao longo da temporada passada por erro técnico em decisões de gol. Três deles eram negros. Curioso que afastamento por erro técnico não inclua o nome do árbitro de campo na maioria dos casos — costuma escalar a falha pro VAR. Quem está na cabine assume. Quem está no campo segue. A Comissão de Arbitragem prometeu, em coletiva da semana passada, "rever critérios de avaliação". A frase está nas atas há quatro temporadas. Mudança vem quando a planilha de demissão for igual à de promoção. Ainda não é.
A Série A 2026 tem características diferentes da edição passada. Primeiro: três clubes do interior paulista com elenco competitivo — Santos rebaixado em 2025 voltou pela B, São Bento se manteve, Bragantino renovou. Interior paulista costuma ter jogo defensivo bem ensaiado, técnico pragmático, calendário mais leve por não ter compromisso internacional. Em fevereiro joga limpo. Em junho vai ter quatro pontos a mais que clubes grandes que se desgastam em Libertadores. Segundo: o Atlético-MG passou janeiro renovando elenco com salários comprimidos depois de saída de patrocinador. Cuca voltou pelo terceiro ciclo no clube. Veterano dirigindo elenco renovado é receita que funciona em ano de transição. Terceiro: o Botafogo perdeu cinco titulares pra Europa em quatro meses. Reabriu janeiro com dois nomes argentinos e um colombiano. Vai precisar de tempo. Tempo é luxo no Brasileirão.
A primeira rodada distribui cinco jogos no sábado, cinco no domingo. Maior público esperado: Flamengo–Internacional no Maracanã, em torno de cinquenta e cinco mil. Menor: Sport–Cuiabá, com previsão de vinte e dois mil. Em Salvador, Bahia–Cruzeiro abre o estádio de Pituaçu pela primeira vez na temporada — Fonte Nova em reforma de drenagem até março, jogos fora do principal estádio nesse intervalo. Roger Machado vai ter o Pituaçu como casa por dois meses. Não é estádio de presença caudalosa. Vai ter público entre quinze e vinte mil dependendo do adversário. Diferença em receita visível na planilha do mês.
Quem chega à última rodada com chance de título? Pergunta cedo. Quem chega à última rodada com chance de queda? Pergunta cedo também. Mas os dados de cinco temporadas dizem que pelo menos um dos quatro times com técnico negro no banco do início de fevereiro vai estar entre os primeiros oito do campeonato em dezembro — e pelo menos um outro vai estar entre os quatro últimos. A faixa do meio é onde a estatística engole nuance. A primeira rodada de 2026 abre sem brilhantismo. Abre com calendário, com viagem, com pré-temporada de tamanhos diferentes e com a pauta de arbitragem mais uma vez agendada pra "ser revista". Quem trabalha com futebol há vinte anos sabe que pauta agendada pra ser revista volta em junho idêntica. E em setembro também. A reta começa.