Contexto e Leitura

No dia 17 de junho, o Comitê de Política Monetária cortou a Selic para 14,25% ao ano, o terceiro corte seguido, e as manchetes de mesa comemoraram o alívio. No mesmo mês, na gôndola do mercado de bairro, a batata-inglesa carregava a alta de 44,69% que fechou maio, a maior para o mês em cinco anos, e o quilo do tomate subia 20,62%, segundo o IBGE. Entre o comunicado do Banco Central e o carrinho de compras existe uma distância que a imprensa econômica quase nunca percorre. É nessa distância que mora o primeiro semestre de 2026.

O balanço oficial é de recuperação morna. O PIB cresceu 1,1% no primeiro trimestre ante os três meses anteriores e chegou a R$ 3,3 trilhões, informou o IBGE em maio. O número parece bom até você abrir a caixa. A agropecuária puxou o resultado, com alta de 2,0%; a indústria avançou 1,0%; os serviços, onde trabalha a maior parte da mão de obra urbana, subiram apenas 0,5%. O Brasil cresceu no campo e no agronegócio de exportação, não na esquina onde o entregador negro espera o próximo chamado do aplicativo. O produto engordou. A carteira do homem que sustenta a periferia, não.

A Selic a 14,25% é lida como queda, e é. Mas o ponto de partida diz mais que o destino: o ciclo havia travado em 15% no começo do ano, patamar que coloca o Brasil entre os maiores juros reais do planeta. Para quem tem aplicação, juro alto é renda. Para quem tem dívida, é sentença. O homem negro brasileiro está do lado errado dessa conta. Ele é minoria entre os poupadores e maioria entre os que rolam o rotativo do cartão, que fechou março em 428,3% ao ano. Cada reunião do Copom que a mesa festeja como vitória contra a inflação, o dono do salão de barbeiro no subúrbio lê como o crédito que não veio para trocar a cadeira quebrada.

O câmbio deu a boa notícia do semestre para quem viaja. O dólar fechou junho a R$ 5,16, queda de 5,95% em seis meses, depois de começar o ano perto de R$ 5,40 e tocar R$ 4,90 em maio, apontou a InfoMoney. Real forte barateia o iPhone, a Disney, o vinho importado. Nada disso passa pelo CEP onde o real forte não chega. Quem não viaja, não importa e não guarda dólar não sente o câmbio como fôlego; sente a inflação de comida que o câmbio deveria, em tese, conter, e não conteve, porque a batata e o tomate são plantados aqui e vendidos ao preço da seca, não do dólar.

O indicador que resume o país está no mercado de trabalho, e ele não melhorou para todo mundo na mesma velocidade. A taxa de desemprego fechou o primeiro trimestre em 6,1%, mas a foto agregada esconde a cor. Entre pessoas brancas, a desocupação foi de 4,9%. Entre pretas, 7,6%, uma taxa 55% maior, revelou o IBGE. A informalidade conta a segunda metade da história: 32,2% entre brancos, 40,8% entre pretos. O homem negro que trabalha o faz, na maioria das vezes, sem carteira, sem FGTS, sem seguro para o dia em que o chamado parar de chegar. Ele é o primeiro contratado quando a economia esquenta e o primeiro dispensado quando ela esfria, porque está na ponta mais fina da corda.

A política econômica brasileira segue tratando o homem negro como variável de ajuste: o primeiro a perder o posto quando a Selic sobe, o último a alcançar o crédito quando ela cai, o que some da planilha quando o Tesouro precisa fechar o mês.

Sobra o fiscal, que é onde a conta costuma voltar para a periferia. A meta do arcabouço para 2026 era um superávit primário de 0,25% do PIB, cerca de R$ 34,3 bilhões, mas a LDO já liberou o governo a mirar o piso, resultado zero, e a mediana do mercado reunida no Prisma Fiscal apontava déficit de R$ 57,8 bilhões em maio. Quando o número não fecha, a história brasileira ensina onde o corte cai. Não cai na emenda parlamentar nem no juro da dívida. Cai no programa social, na creche, no posto de saúde, na cota, nos lugares que a estatística fiscal não nomeia mas que têm endereço, e o endereço é preto.

O segundo semestre chega com a Selic em queda lenta, o dólar comportado e o produto de pé. Na mesa de operações, é um bom momento. No caixa do supermercado, no dia 30, com a batata a 44,69% e a fila atrás esperando a vez, é outro semestre. O primeiro balanço já foi fechado. Falta saber para quem.