Em Caruaru, o São João de 2026 fechou 72 dias de programação com R$ 805 milhões movimentados e público acima de 4 milhões de pessoas, segundo balanço da organização do evento. Do outro lado da divisa, Campina Grande projetou R$ 800 milhões e 3,5 milhões de visitantes para o que a prefeitura chama de maior São João do mundo. Somadas, as duas cidades concentram cerca de um quinto do faturamento junino do país, que o Ministério do Turismo estimou em R$ 7,4 bilhões para 2026, repetindo o patamar do ano anterior. O número é grande e vira manchete todo mês de junho. A pergunta que interessa a este caderno é outra, e ela raramente aparece no balanço oficial: quem recebe esse dinheiro e quem só o vê passar pela calçada.
O São João nordestino é uma economia bilionária sustentada por trabalho informal negro e por uma tradição musical negra que cada vez menos aparece na ponta que lucra.
Comece pela base da pirâmide. Em Arcoverde, o faturamento dos permissionários e ambulantes subiu 21% em relação a 2025. Em Petrolina, cerca de 80 barraqueiros e ambulantes esperam triplicar o faturamento no período. No São João Massayó, em Maceió, mais de 300 ambulantes foram contemplados para atuar durante a festa, e em Maracanaú a programação gera cerca de 4,5 mil vagas temporárias. Esses números são reais e importam: para quem monta banca de milho, tapioca e cerveja gelada numa esquina de junho, o mês pode valer o que os outros onze não deram. Mas é trabalho sem carteira, sem 13º, sem férias, disputando espaço público com concessões que a prefeitura vende a quem tem capital para negociar o melhor ponto. No Brasil, 47,4% dos trabalhadores negros estão na informalidade, segundo o IBGE, e é essa mão de obra que ergue a barraca, carrega a caixa de som, monta o brasão de milho antes do sol nascer.
No topo da mesma pirâmide, o dinheiro se move em outra velocidade. Prefeituras do interior nordestino chegam a pagar de R$ 500 mil a R$ 2 milhões por noite a cantores do circuito sertanejo, enquanto trios de forró pé de serra, os que sustentam a tradição que dá nome à festa, disputam cachês que giram entre R$ 2 mil e R$ 5 mil. A distância não é só de valor, é de origem: o forró nasceu em terreiro e engenho, tem zabumba, triângulo e sanfona, é herança de mão negra e nordestina. O sertanejo que hoje domina os palcos principais é produto de gravadora, patrocínio de marca e turnê nacional. A reação já apareceu dentro do próprio sistema. A campanha batizada de "São João sem Milhão" ganhou força entre prefeitos baianos, e Campina Grande informou que 52% das 119 atrações confirmadas nesta edição são de forró, um esforço deliberado de reequilibrar o palco. Cantores como Flávio José chegaram a cancelar apresentações contratadas na Bahia, em protesto contra o que chamam de desvalorização financeira do forró de raiz frente aos artistas de fora do Nordeste.
O quadro completo, então, é o seguinte: R$ 7,4 bilhões correm pela economia nordestina em um mês, e boa parte sai pela porta de fora da região, para produtoras de eventos sediadas no Sudeste, para gravadoras, para redes hoteleiras e companhias aéreas. O que fica no bairro é o giro miúdo do ambulante sem registro e o cachê apertado do sanfoneiro que toca a festa desde que nasceu. Essa distribuição não é acidente de mercado. É o retrato de uma economia regional que aprendeu a monetizar sua própria cultura popular sem redistribuir, na mesma proporção, para quem a criou. O homem negro que vende picolé de frutas na fila do trio elétrico e o homem negro que compõe o baião tocado no alto-falante da barraca vizinha estão, os dois, no mesmo lugar da cadeia: sustentando a festa, sem sentar à mesa onde o balanço é fechado.
Junho termina, o Nordeste conta o dinheiro que entrou e o Brasil repete a manchete do recorde. Fica, para além da fogueira apagada, a pergunta que a imprensa econômica raramente faz de volta ao mesmo lugar no ano seguinte: quem vai poder dizer, em 2027, que lucrou com o São João, e quem vai continuar contando com ele só para não fechar o mês no vermelho.