Contexto e Leitura

Na quarta-feira, 17 de junho, o Banco Central anunciou que cortava a Selic em 0,25 ponto, de 14,50% para 14,25% ao ano, e o mercado, que já havia precificado exatamente esse número, mal levantou os olhos da tela. Foi o terceiro corte do ciclo, decidido por unanimidade, e o comunicado que o acompanhou gastou mais frases justificando a cautela do que a redução. No dia seguinte, Gabriel Galípolo admitiu que houve um problema de comunicação e assumiu a responsabilidade com todas as letras: não há, disse ele, nenhum tipo de sinalização sobre os próximos passos. Traduzido para fora da sala envidraçada: um quarto de ponto que quase ninguém sente, embrulhado no aviso de que talvez o próximo não venha.

Vale medir o tamanho do gesto. Um quarto de ponto sobre uma taxa que começou o ano em 15% é o Banco Central pisando no freio e recolhendo meio dedo. A Selic a 14,25% segue entre os juros reais mais altos do planeta, e o que ela governa não é o rendimento de quem tem carteira de investimento. É o custo do rotativo do cartão, do cheque especial, do crédito que o dono de uma barbearia em Pirituba pega para repor a cadeira quebrada. Entre a decisão do Copom e o balcão do banco existe uma cadeia de intermediação que multiplica o número antes de ele chegar à ponta. O quarto de ponto que o economista comemora se dissolve inteiro nesse caminho.

A política monetária brasileira tem um cliente preferencial, o rentista, e um fiador involuntário: o homem negro que trabalha sem carteira e financia a vida no cartão.

Esse fiador tem cor e tem número. No primeiro trimestre de 2026, o IBGE mediu a desocupação dos pretos em 7,6% e a dos pardos em 6,8%, contra 4,9% dos brancos. O desemprego preto é 55% maior que o branco, e isso num país cuja média, de 6,1%, já se vende como baixa. Na informalidade a conta se repete: 40,8% entre pretos e 41,6% entre pardos, contra 32,2% entre brancos. Quem está fora da carteira está fora do crédito barato. Sobra o crédito caro, o mesmo que a Selic alta encarece primeiro e alivia por último. Juro no teto, para o Brasil formal, é aperto. Para o Brasil informal, que é majoritariamente preto, é a linha entre rolar a dívida e afundar nela.

Há o outro lado do balcão, o de quem lucra com o juro alto. A Selic a 14,25% é rendimento garantido para quem tem patrimônio aplicado, e patrimônio, no Brasil, tem endereço e tem raça. O rendimento médio do trabalho no primeiro trimestre foi de R$ 3.722, mas por baixo dessa média o branco recebia R$ 24,60 por hora e o preto ou pardo, R$ 15,00. Em 2024, o trabalhador branco ganhou em média 65,9% a mais que o preto ou o pardo. Quando o Banco Central mantém o juro elevado para segurar a inflação, protege o valor de estoques de riqueza que o homem negro brasileiro, em sua maioria, não possui. O corte de um quarto de ponto não altera esse desenho. Apenas afrouxa de leve a corda de um lado que nunca foi o dele.

O argumento do comitê para não cortar mais é a inflação, e o argumento não é falso. A projeção de IPCA subiu para 5,2%, contra uma meta de 3%, e o próprio Banco Central passou a atribuir 79% de probabilidade de estouro do teto neste ano. Só que a inflação combatida no atacado é sentida no varejo pela cesta que pesa mais no orçamento de quem ganha menos. O reajuste do arroz, do botijão, do vale-transporte não entra igual na planilha do diretor do BC e na sacola da diarista que sustenta três em Cidade Tiradentes. O juro alto que promete domar o preço médio faz isso encarecendo o crédito de quem já não tem margem. É um remédio que cobra a fatura mais pesada justamente de quem tem menos com que pagá-la.

Galípolo marcou a próxima reunião para 4 e 5 de agosto e avisou que decide com os dados dos quarenta dias seguintes. Nesses quarenta dias, o ajudante que descarrega caminhão sem registro não vai acompanhar a curva de juros futuros. Vai olhar o extrato no dia 5, ver o rotativo comendo o que sobrou do mês e adiar de novo a cadeira nova da barbearia. O corte veio. Para ele, é que não chegou.