Contexto e Leitura
A batata-inglesa subiu 44,69% em maio, e é por ela que se começa a entender o que aconteceu com a inflação brasileira. O IBGE divulgou em 12 de junho o IPCA do mês anterior: alta de 0,58% em maio, 4,72% no acumulado de doze meses. Foi a maior inflação para um mês de maio em cinco anos, veio acima do que o mercado esperava (a Reuters projetava 0,53%) e furou o teto de 4,5% da meta, devolvendo o Banco Central à cadeira de quem precisa dar satisfação. A imprensa de mesa leu o número pela ótica do Copom. Vale lê-lo pela ótica da cozinha. O tomate avançou 20,62%, a cebola 16,80%, a energia elétrica residencial 3,67%. Comida e moradia, os dois itens que mais pesam no bolso de quem ganha pouco, foram os que mais subiram.
Inflação é uma média, e média esconde quem a carrega. O índice cheio de 4,72% é a temperatura de um corpo com partes em brasa e partes frias. Para a família que gasta metade do salário com alimento e conta de luz, a inflação sentida não é 4,72%, é bem mais que isso. Para quem tem renda de sobra para poupar, trocar de marca ou adiar a compra, a cesta é outra e a alta é menor. Só os grupos de alimentação e bebidas responderam por metade do IPCA de maio. Metade de um índice na barriga não é coisa que o país inteiro divida em partes iguais.
Vale destrinchar de onde veio a pressão. O grupo habitação subiu 1,22%, puxado pela conta de luz. Saúde e cuidados pessoais avançaram 0,90%. E a alimentação dentro de casa, o item que não admite substituição nem adiamento, subiu 1,65% no mês, com a carne 1,39% mais cara na ponta. Não é a inflação do bem durável, que quem tem crédito parcela e espera baixar. É a inflação do prato, da geladeira e do disjuntor, cobrada à vista, todo dia, de quem não tem margem para esperar.
A inflação no Brasil não reparte o seu peso ao acaso. Ela cobra mais caro de quem ganha menos, e quem ganha menos, no país que a PNAD mede, é preto e pardo antes de ser qualquer outra coisa.
O mapa está na PNAD Contínua. O trabalhador branco ganha, em média, R$ 4.153 por mês; o preto, R$ 2.403; o pardo, R$ 2.485. Sobre o salário menor, a mesma batata pesa o dobro. A informalidade corre em 32,6% entre brancos e sobe para 43,5% entre pardos e 41,9% entre pretos, e informalidade, no dia da inflação, quer dizer uma coisa só: nenhum reajuste, nenhum dissídio, nenhuma cláusula de correção. O assalariado com carteira leva o índice para a mesa do sindicato. O entregador, o camelô, o pedreiro de diária engolem o índice inteiro, sem mesa nenhuma. O desemprego confirma a hierarquia: 4,9% entre brancos, 7% entre pardos, 7,5% entre pretos.
No dia 17 de junho, o Copom cortou a Selic de 14,50% para 14,25%, um quarto de ponto, por decisão unânime. O mercado comemorou a virada do ciclo. Mas 14,25% é a taxa com que o Banco Central se relaciona com os bancos. A que chega ao homem negro endividado, no rotativo do cartão e no cheque especial, gira em outra órbita, muito acima daquela, e não caiu um centavo com o comunicado de Brasília. Enquanto o economista celebra 0,25 ponto, o dono do salão da esquina decide entre pagar o fornecedor e pagar a luz, que subiu 3,67%.
O teto furado tem uma consequência de protocolo: se o IPCA passar de 4,5% por seis meses seguidos, o presidente do Banco Central escreve uma carta ao presidente da República explicando o porquê. O mercado, no boletim Focus, já projeta a inflação de 2026 em 5,30%, bem acima da meta de 3%. A carta é um gesto de gabinete, em papel timbrado, lido por quem entende de curva de juros. Nenhuma linha dela chega à casa onde a conta de luz subiu. É nessa distância entre o documento e o caixa do mercado que a política econômica brasileira sempre morou.
A meta de inflação para 2026 é 3%. O mercado aposta em 5,30%. A distância entre os dois números se mede em relatório. A distância entre o salário do trabalhador preto e o preço da batata se mede no caixa, no dia 30, com a fila atrás esperando a vez.