Trinta cooperativas, três estados, uma engenharia
No quilombo de Barra do Parateca, município de Carinhanha no sudoeste da Bahia, a cooperativa de artesãs e agricultoras familiares faturou R$ 480 mil em 2025 vendendo polvilho, farinha de mandioca e cerâmica pro Programa Nacional de Alimentação Escolar. Lá, quem coordena a reunião de caixa, negocia com a prefeitura e decide o que plantar na próxima safra são mulheres — quatro delas com menos de 35 anos. Perguntei a Nadir, 51, coordenadora há seis, por que a gestão é delas. "Porque os homens foram embora primeiro. Quem ficou fomos nós." Nadir dá aula de Excel na escola estadual à noite — aprendeu o programa em vídeo do YouTube, depois passou a ensinar. Essa frase dela carrega uma teoria inteira da economia quilombola que nenhum relatório do Banco do Brasil ainda traduziu direito.
O Brasil reconhece hoje mais de 3.600 comunidades remanescentes de quilombo. Cerca de 1.800 têm certificação da Fundação Cultural Palmares. Aproximadamente 300 receberam titulação definitiva de terras pelo Incra, segundo dados do instituto até março de 2026. Dentro desse universo, o cooperativismo existe pra responder a uma pergunta muito concreta: como vender o que se produz sem entregar metade do preço pro atravessador? A resposta organizada em cooperativa conecta a produção quilombola ao PNAE, ao PAA e às compras governamentais estaduais — contornando a cadeia de intermediários que historicamente drenou a renda do território negro rural. Visitei trinta dessas cooperativas entre agosto de 2025 e fevereiro de 2026, em Bahia, Maranhão e Minas. Menos da metade tinha CNPJ ativo, balanço em dia e nota fiscal saindo regular.
O que separa as que funcionam das que existem só no cartório tem três peças que aparecem juntas. Um núcleo de gestão com alguém que entende contabilidade — quase sempre mulher jovem que saiu pra estudar e voltou. Uma linha de crédito subsidiada, geralmente Pronaf ou Pronaf Quilombola. E pelo menos um contrato plurianual com prefeitura ou estado pra PNAE — porque venda esporádica não paga conta fixa. Onde as três peças aparecem, a cooperativa paga sobra e reinveste. Onde falta uma — e a que mais falta é o crédito — a cooperativa existe no papel e não existe no caixa.
O Pronaf Quilombola existe desde 2016 e ampliou no Lula 3, mas o acesso é travado por exigências que viraram cerca eletrônica. Pra acessar o crédito: CNPJ regularizado, comunidade certificada pela Palmares, Cadastro Nacional da Agricultura Familiar (CAF) emitido. Em Itamatatiua, quilombo do Maranhão famoso pela cerâmica, a associação levou dezoito meses pra regularizar o CNPJ por causa de nome de sócio duplicado no cadastro da Receita Federal. Nesse intervalo, perdeu dois contratos pro PAA por documento vencido. A regulação não foi escrita pra impedir elas. Funciona como se tivesse sido. O crédito que não chega tem CEP — e o CEP é sempre o mesmo.
Das trinta cooperativas que visitei, dez tinham coordenação predominantemente feminina. Não por programa de cotas. Por mobilidade migratória que tirou os homens jovens pras cidades enquanto as mulheres ficaram gerindo o território. Esse arranjo significa jornada dupla, histórico bancário quase inexistente e mais vulnerabilidade quando o companheiro volta sem emprego. Das trinta, oito operam com plena capacidade e rentabilidade. Doze, de forma intermitente. Dez, só no papel. Oito entre trinta. A balança da feira pesa diferente conforme quem segura. Quem segura há oito anos, segurando bem, são essas oito.
REPORTAGEM — Apuração em campo em trinta comunidades quilombolas de Bahia, Maranhão e Minas Gerais, com entrevistas, documentos e dados do Incra, Pronaf e PNAE.