Caged tem nome, cor e CEP
O Caged de abril de 2026 registrou saldo positivo de 139 mil empregos formais — o melhor abril desde 2021. Para o governo Lula, virou manchete. Para quem lê o Caged por dentro, saldo bruto não cabe no contracheque de ninguém. Importa quem foi admitido, em que função, a que salário, em que cidade. Quando o filtro é raça, carteira, setor e renda, o gráfico muda de cor.
Pretos e pardos são 54% da força de trabalho brasileira e 29% dos empregos formais que pagam acima de três salários mínimos. A PNAD Contínua do primeiro trimestre de 2026 registra informalidade de 45,2% entre homens negros, contra 27,8% entre homens brancos. No Caged, a composição é a velha: construção civil (27% do estoque), limpeza e conservação (39%), abate e processamento de carnes (41%), transporte de cargas (33%). Nos setores que pagam — financeiro, tecnologia, saúde de alta complexidade, gestão — o homem negro raramente cruza os 12%.
A rotatividade é o que mantém esse mapa no lugar. Tempo médio de permanência: 14 meses pro trabalhador negro, 22 meses pro branco, segundo o Observatório do Mercado de Trabalho do MTE. Oito meses de diferença. Parece pouco. Não é. São oito meses que separam tempo de FGTS suficiente pra entrada de imóvel popular, contribuição contínua de INSS, vínculo bancário pra abrir consignado. A carteira de trabalho registra a entrada e a saída. Não registra a linha de crédito que ficou quebrada no meio. Adailton, 41, soldador em Cubatão, ouve Bezerra da Silva no rádio do galpão e calcula em voz alta há três admissões: dessa vez o salário entrou no dia, e do dia 25 até o 5 do mês seguinte o boleto da escola da filha bate antes do recebimento. Foi essa conta — não só o salário base — que as centrais sindicais levaram pra rua no 1º de maio.
A pauta tinha quatro reivindicações com recorte racial explícito. A principal: criação de um índice de equidade salarial por raça dentro da reforma da renda do trabalho, articulada por Contag e CUT. Empresas com mais de 200 funcionários publicariam anualmente o diferencial médio de remuneração entre brancos e negros, desagregado por cargo e nível. O governo Lula sinalizou interesse sem prazo. Ano eleitoral tem vocabulário próprio: empurrar é verbo conjugado em todos os tempos verbais menos um — o presente.
O que essa pauta encobre tem tamanho que o debate político raramente mede direito. O rendimento médio mensal habitual do trabalhador preto ou pardo com carteira assinada era R$ 2.140 em 2025, contra R$ 3.280 do branco em posição equivalente — diferença de 35% que não se explica por escolaridade, setor ou experiência quando se pareiam os grupos. Marcelo Neri e Sergei Soares já mostraram que boa parte do diferencial persiste mesmo com controle por qualificação. Isso tem nome técnico. Discriminação salarial.
E há a parte que o Caged não vê. O IPEA estimou em março que entre 1,8 e 2,4 milhões de trabalhadores negros dirigem ou entregam pra aplicativo — vínculos que continuam classificados como autônomos. O PL 3458/2025, em tramitação no Senado, prevê INSS e proteção acidentária sem vínculo empregatício pleno. Pra quem trocou salário formal baixo pelos R$ 4 mil que dá pra fazer no aplicativo, a conta do mês fecha. A conta dos 65 anos, não. O Caged de maio vai registrar admissão. Vai continuar sem registrar a parte que importa mais lá na frente.
REPORTAGEM — Apuração factual com dados do Caged, PNAD Contínua, IBGE, IPEA e contexto verificado de mercado.