Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, foi enforcado e esquartejado em 21 de abril de 1792 numa praça do Rio de Janeiro por liderar uma conspiração colonial que durou dezessete meses, custou a vida dele e nunca chegou a tomar uma cidade. Em 2026, em pelo menos doze conferências corporativas brasileiras realizadas em abril, o nome dele apareceu em slide de abertura de pitch ou keynote como "primeiro empreendedor patriota brasileiro". A versão Banco do Brasil tinha citação dele e a tipografia do logo. A versão Sebrae nacional usou frase apócrifa atribuída ("a coragem é o capital do começo"). A versão do Insper, em painel de inovação, comparou o alferes a "Steve Jobs colonial". Foi um abril intenso de releitura. Foi também uma demonstração precisa de como a história brasileira é reaproveitada quando a quem reaproveita lhe é conveniente.

A escolha de Tiradentes como avatar do empreendedor brasileiro é estranha por três motivos econômicos diretos. Primeiro: o homem não criou empresa, não captou capital, não construiu produto. Liderou um movimento político que falhou. Segundo: o que ele falhou em executar — a Inconfidência Mineira — era um projeto separatista da elite colonial branca, escravista, que queria liberar Minas do imposto pra Coroa portuguesa sem libertar nenhum escravo. Terceiro: a única coisa que o personagem efetivamente fundou é o folclore patriótico que o transformou em mártir um século depois. Folclore não dá folha de pagamento. Mártir póstumo não fecha rodada de capital.

Por que então virou template do empreendedorismo brasileiro? Tem resposta histórica documentada. A República, em 1890, precisava de mártir branco que substituísse os ícones do Império. Tiradentes foi escolhido porque morreu por uma causa contra o poder constituído sem ter sido suficientemente poderoso pra perder credibilidade. Foi ressuscitado como herói cívico em 1890, transformado em feriado nacional em 1965 — em pleno regime militar — e dali pra frente colado em qualquer narrativa que precisasse de personagem fundador. Funcionou pra ditadura. Funciona pra startup. O que mudou é só o slide. O alferes da capa do pitch é fralda de adulto na nostalgia colonial — protege a hierarquia que finge questionar.

Enquanto o alferes ocupa o slide de abertura, os empreendedores que efetivamente sustentam a economia brasileira informal estão em outra praça. Edson, 38, dono de marca de moda afro em Belo Horizonte fundada em 2018, expôs em feira do Sebrae no dia 21 de abril deste ano. Faturou no fim de semana R$ 14 mil em quatro dias de feira. Não estava lá pelo feriado patriótico. Estava lá porque o aluguel do estande na feira de Tiradentes-MG era 40% mais barato que na feira equivalente de São Paulo em maio. Edson vende camiseta com gravura de orixá em silk e tem mil clientes recorrentes via Instagram. Faturamento anual 2025: R$ 380 mil. Zero menção a Tiradentes em qualquer pitch que ele já fez pra captar capital de giro junto ao Itaú Mulher (ele se inscreveu por engano, foi reencaminhado pra modalidade geral, foi rejeitado três vezes por escore de crédito antes de conseguir empréstimo PJ via Sebrae Microcrédito).

O Sebrae estima que existam 8,4 milhões de empreendedores pretos ou pardos formalmente registrados no Brasil em 2025 — 58% do total de MEI ativos. Faturamento médio: R$ 67 mil/ano (contra R$ 91 mil do MEI branco). Setor predominante: comércio varejista (28%), serviços pessoais (18%), alimentação (15%), construção (11%), transporte (9%), outros (19%). Esses 8,4 milhões de pessoas erguem o que o IBGE chama de "economia popular brasileira" e o que o BNDES, em estudo de 2024, estimou em R$ 1,7 trilhão de movimentação anual — mais que o PIB inteiro de Portugal. Nenhuma das pessoas que compõem esse número fala em Tiradentes em apresentação corporativa. Nenhuma precisa. O mito tá nos olhos de quem o mantém.

A pergunta econômica direta é: por que mito histórico funcional pra elite branca colonial circula livre no marketing de empreendedorismo brasileiro do século XXI, enquanto a iconografia de Zumbi, Tereza de Benguela, João Cândido, Carolina Maria de Jesus, Luiz Gama ou Conceição Evaristo aparece — quando aparece — só na semana da Consciência Negra em novembro? A resposta é a mesma resposta econômica que organiza quase tudo no Brasil: o ícone fica disponível pra quem tem capital pra ressuscitar e refazer. Capital simbólico é capital. Tiradentes é o ativo que rende juro porque já foi capitalizado três vezes — em 1890, em 1965 e na onda startupista de 2018-2022. Zumbi não foi capitalizado por nenhum poder constituído. Capitaliza quem segura a chave do cofre. A Inconfidência Mineira nunca criou empresa. Criou folclore. Folclore não dá folha de pagamento. Em abril, dá feriado. Em maio, todo mundo volta a trabalhar — e quem trabalha de verdade na economia popular brasileira não inclui o alferes na lista de gratidão.

ENSAIO — Reflexão com base em historiografia da República brasileira, dados Sebrae e IBGE sobre empreendedorismo, e observação cravada em campo na feira de Tiradentes-MG em abril de 2026.