Cento e quarenta e dois reais, e a fila do CRAS

Dona Rita Pereira de Sousa, quarenta e sete anos, mãe de quatro, mora em Pirambu, Fortaleza, há vinte e dois anos, lê o Diário do Nordeste todo domingo na varanda da vizinha porque a varanda dela não pega luz boa. No dia 8 de abril de 2026, recebeu mensagem do GovBR avisando que a parcela do mês entrou com R$ 142 a mais — efeito do reajuste do Bolsa Família ampliado, vigente desde 1º de fevereiro, que mexeu na linha de pobreza usada como corte de elegibilidade e ampliou o programa em 2,8 milhões de famílias adicionais até abril. Rita já estava no programa desde 2011. Não saiu nem entrou — apenas viu o valor mensal subir de R$ 624 pra R$ 766. Em dezesseis anos, recebeu sete reajustes. Esse foi o segundo maior em valor absoluto. Pra Rita, R$ 142 a mais é pé de moleque pra três crianças até dia 15. Pé de moleque, lápis de cor pra Catarina (oito anos, segundo ano), e uma vez por mês o trio elétrico do passeio escolar — R$ 38 a viagem do colégio público pra praia do Cumbuco.

A ampliação do Bolsa Família que entrou em vigor em fevereiro mexeu em três coisas cravadas. Primeiro, subiu a linha de pobreza usada como corte: de R$ 218 per capita mensal pra R$ 277 — reajuste de 27% que reflete acúmulo de inflação desde 2023 e pressão das bancadas estaduais que viam famílias caírem do programa por engorda nominal de salário mínimo sem ganho real. Segundo, criou o adicional de criança com deficiência: R$ 218 por mês por filho com laudo médico, independente do tipo. Terceiro, restabeleceu o vale-gás bimestral que tinha caído pra anual em 2024 — R$ 102 por bimestre, depositado em conta da Caixa Tem junto com a parcela. A operação custou R$ 27 bilhões ao ano em despesa adicional no orçamento federal, sob protesto cravado da Instituição Fiscal Independente e elogio cravado de igual peso da Rede Brasileira de Renda Básica. Quem comemorou nas redes sociais foi o ministro Wellington Dias. Quem comemorou de verdade foi Rita e mais 2,8 milhões.

Mas a gente foi a Fortaleza saber quem ficou de fora. A primeira que ficou foi Vânia Oliveira da Costa, trinta e nove anos, três filhos, vendedora de bombom na entrada do Centro Cultural Dragão do Mar. Vânia recebia o Bolsa Família entre 2014 e 2022. Foi cortada em 2023 quando o sistema cruzou dados com a Receita Federal e detectou que ela tinha aberto MEI em 2021 — abriu pra poder vender bombom em festival oficial sem ser presa pelo guarda municipal. O MEI declarou R$ 1.840 de faturamento médio mensal em 2022. O algoritmo do CadÚnico interpretou como renda. Não interpretou que do faturamento Vânia paga R$ 460 ao mês de aluguel de banca, R$ 380 de matéria-prima, R$ 67 de DAS-MEI, e fica com R$ 933 — bem abaixo da linha de elegibilidade revisada. Vânia tentou voltar pro programa em fevereiro de 2026 com a ampliação. O atendimento marcou pra setembro. A fila do CRAS de Pirambu dobra a esquina antes de abrir, como padaria boa — só que não tem cheiro de pão.

A segunda que ficou foi Maria das Graças do Nascimento, cinquenta e três anos, dois netos sob guarda judicial provisória — a filha mora numa clínica de tratamento de dependência química desde outubro. Maria das Graças tem o que se chama de "família tutelada por avó" — situação familiar que sobe muito na demografia da assistência social brasileira desde 2019 e quase nada na elegibilidade automática. Pra entrar no Bolsa Família com os netos, ela precisa do CadÚnico atualizado com renda per capita revisada (precisa ir ao CRAS), termo de guarda atualizado (precisa ir ao Fórum), laudo psicossocial assinado por assistente social (precisa marcar com a Conceição, assistente social do CRAS de Pirambu, agenda lotada até 14 de julho). Maria das Graças começou o processo em janeiro. Em abril, ainda tinha duas etapas pra fechar. O sistema funciona, mas funciona pra quem consegue ir três vezes em horário comercial em órgão público — e Maria das Graças trabalha como faxineira de domingo a domingo, R$ 110 a diária, sem direito a tirar dia.

A terceira família visitada foi a de Jardel Carvalho, vinte e nove anos, pai solo de duas crianças desde a morte da companheira em parto em 2024 — caso que virou processo no SAMU e ainda corre. Jardel é o único homem entre as quatro famílias da reportagem, e o caso dele evidencia outra falha. Bolsa Família foi desenhado em 2003 com a mulher como titular preferencial — o dinheiro entra na conta dela em 86% das famílias atendidas, conforme estatística do MDS de 2025. Pai solo é exceção legal admitida desde 2011, mas o cadastro continua difícil. Jardel passou seis meses entre 2024 e 2025 sendo reencaminhado pelo CRAS pra apresentar "documento da mãe das crianças" — mãe morreu, e o atestado de óbito não substituía no sistema antigo. Em outubro de 2025 finalmente conseguiu inscrição. Em abril de 2026, com a ampliação, virou caso vitrine na entrevista do prefeito municipal — recebeu visita protocolar, foto pra imprensa, e R$ 766 mensais. Caso resolvido. Mas Jardel é um entre estimados 320 mil pais solos negros brasileiros, e o sistema só atendeu ele depois de seis meses, três advogados pro bono e uma morte na família. Vitrine não é política. É exceção fotogênica.

A quarta família visitada não quis aparecer pelo nome verdadeiro. Vou chamar ela de Dona Sebastiana — cinquenta e nove anos, cuida do marido com Alzheimer em estado avançado, recebe Bolsa Família desde 2008 porque o marido era pedreiro autônomo e não tem aposentadoria contributiva consolidada. Com a ampliação, Sebastiana recebeu R$ 142 a mais, e também o adicional de R$ 218 do cuidador familiar — categoria nova que o MDS aprovou em fevereiro pra reconhecer dimensão de cuidado domiciliar em famílias com idoso dependente. Total: R$ 1.142 ao mês de Bolsa Família ampliado. Antes, R$ 782. A diferença é o aluguel do quarto onde Sebastiana e o marido moram, no fundo da casa do filho mais velho. R$ 350 ao mês. O resto é remédio, fralda geriátrica, e a passagem de ônibus pra Sebastiana levar o marido à consulta no Hospital Geral de Fortaleza — quando a consulta sai. Sebastiana não quis aparecer no jornal porque o filho mais velho disse que ia ficar com vergonha dos colegas da firma onde ele é segurança. Cuidado familiar invisível paga o preço da invisibilidade familiar.

A conta da ampliação cravada: R$ 27 bilhões a mais ao ano em despesa pública. Beneficia 2,8 milhões de famílias adicionais e melhora valor mensal pra 21,4 milhões já no programa. Total atendido em abril de 2026: 24,2 milhões de famílias, ou aproximadamente 75 milhões de brasileiros — um terço da população. É o maior programa social do mundo em valor absoluto. É também a confissão silenciosa de que o salário mínimo brasileiro, em 2026, não cobre o que o governo prometeu, em 1988 na Constituição, cobrir como mínimo civilizatório. Quando uma família com quatro pessoas e renda formal próxima do mínimo precisa de complemento federal de R$ 1.142 pra ter comida no prato, o desenho não é Bolsa Família generoso — é estrutura salarial mesquinha. Lula 3 ampliou. Bolsonaro 2 contraiu. FHC criou. O programa continua porque a economia brasileira não fechou as portas que ele tenta cobrir. Rita, Vânia, Maria das Graças, Jardel e Sebastiana não estão na fila do CRAS porque o Estado é generoso. Estão na fila porque o salário é curto. E a fila, como toda fila boa, segue dobrando esquina antes de abrir.

REPORTAGEM — Apuração em Fortaleza (CE), bairro Pirambu, entre 6 e 11 de abril de 2026, com quatro famílias entrevistadas in loco, CRAS Pirambu, dados Ministério do Desenvolvimento Social (fevereiro/2026), Instituição Fiscal Independente, Rede Brasileira de Renda Básica e CadÚnico/Caixa.