O IBGE fechou o primeiro trimestre de 2026 com o Produto Interno Bruto em alta de 1,1% sobre o trimestre anterior e 1,8% na comparação com o mesmo período de 2025, uma economia de 3,3 trilhões de reais que anda, mas anda devagar. A leitura por setor desmancha o slogan antes que ele grude na manchete. Quem puxou o número foi a agropecuária, com 2,0%, seguida da indústria, com 1,0%. Serviços, o setor que emprega a maior parte dos homens negros com carteira assinada, cresceu 0,5%, o pior dos três. E dentro da indústria a conta se desdobra: a extrativa mineral subiu 3,6% e a construção 2,9%, enquanto a transformação, a fábrica de verdade, a linha de montagem, ficou parada em 0,1%.

O Caged do mesmo trimestre conta a outra metade da história. Foram 613.373 vagas formais criadas de janeiro a março, 9,1% a menos que no primeiro trimestre de 2025 e o pior começo de ano desde 2023. Serviços responderam por 382 mil desses postos, construção por 120 mil, indústria por 115 mil. O comércio, sozinho, fechou 19.525 vagas no vermelho. E o comércio é onde o balcão, o caixa, o estoque e a reposição têm cor. É ali que o trabalhador preto entra sem diploma exigido, e é ali que ele sai primeiro quando o consumo hesita.

O PIB somou, mas somou barato: o setor que mais empregou homem negro foi justamente o que menos cresceu em valor.

Junte as duas tabelas e o desenho aparece. O setor que absorveu mais gente, serviços, foi o que menos gerou valor adicionado. Isso não é sutileza de economista. Significa que a vaga que chega ao homem negro é a de menor produtividade, menor salário e maior rotatividade: garçom, entregador de aplicativo, atendente, auxiliar de limpeza. Formal, com 13º e FGTS, melhor que a informalidade que ele deixou para trás. Mas é estabilização no mesmo andar, não subida. O rapaz que assinou carteira de garçom em Salvador em fevereiro não está a três anos da gerência. Está, com mais probabilidade, a três anos de outro salão, servindo a mesma mesa em outro endereço.

A PNAD do trimestre põe cifra no que a calçada já sabe. O desemprego do trabalhador preto fechou em 7,6%, contra 4,9% do branco, uma distância de 55%. O pardo ficou em 6,8%. A média nacional, 6,1%, é a média que não vale para ninguém: é o ponto onde a estatística mistura quem acha emprego numa semana com quem procura há um ano, e apaga os dois na mesma linha. Quando o PIB cresce 1,1% e o desemprego preto continua quase três pontos acima do branco, o crescimento não está fechando a distância. Está mantendo a distância no lugar, só que dentro de uma economia um pouco maior.

Para reduzir de fato a desigualdade, uma economia precisa rodar acima de 3% por vários anos seguidos. Não é o que 1,1% no trimestre e 2,0% no acumulado de doze meses prometem, e menos ainda quando o saldo de doze meses do emprego formal encolheu de 1,6 milhão para 1,2 milhão de vagas de um ano para o outro. O que se tem dá para não regredir e não dá para promover. Assistência segura o piso, e segura de verdade. Mas segurar não é o mesmo que subir, e o homem negro que já passou por três desses ciclos aprendeu a diferença sem precisar de gráfico.

Para quem paga aluguel, parcela de cartão e o quilo do arroz no dia 30, "a economia cresceu 1,1%" é uma frase que se lê no jornal e não se sente no caixa. A vaga formal está vindo, mas no andar de baixo. A vaga de fábrica, que pagava acima de três salários mínimos e sustentava família preta desde os anos oitenta, ficou parada em 0,1%. E estabilidade, no vocabulário de Brasília, costuma ser o nome que se dá ao problema depois que ele já virou problema dos outros, e ainda não deixou de ser o do trabalhador.