PIB 1,2%, e onde está o homem negro na conta
IBGE antecipou nesta sexta-feira a leitura preliminar do PIB do primeiro trimestre de 2026: 1,2% interanual e 0,3% sobre o tri imediatamente anterior. Número fraco. Mais fraco que a previsão mediana do Focus de janeiro (1,8%) e bem abaixo do 2,3% registrado no primeiro tri de 2025 — quando o ciclo de alta de Selic ainda não tinha terminado de morder. Serviços puxaram para cima — alta de 2,1% interanual, com destaque pra alimentação fora do domicílio, hospedagem e transporte aéreo doméstico. Indústria puxou pra baixo — queda de 0,4%, com indústria automotiva caindo 3,2% e indústria de bens de capital caindo 5,1%. Agropecuária ficou em zero, prejudicada pelo atraso na colheita de soja no Mato Grosso por chuva fora de época.
A imprensa econômica vai contar essa história em duas linhas: serviço em alta, indústria patinando. É verdade aritmética, e ponto. O que essa contagem deixa de fora é onde o homem negro brasileiro entra na conta. Caged do primeiro tri, divulgado anteontem: 268 mil empregos formais líquidos criados em janeiro, fevereiro e março. Desses, 53% foram preenchidos por preto ou pardo segundo a autodeclaração — proporção alinhada com a participação racial na força de trabalho. Onde criou: alimentação e bebidas (74 mil), construção civil (62 mil), comércio varejista (49 mil), serviço de aplicativo entregador (38 mil — primeira vez que a categoria entra na CNAE como tal). Onde não criou: indústria de transformação (saldo negativo de 12 mil), tecnologia da informação (saldo de 9 mil), instituição financeira (saldo de 4 mil).
Serviço em alta soa bem. Não é bem. Os 74 mil postos criados em alimentação e bebidas são, em maioria absoluta, função operacional — cozinha, garçom, atendimento de balcão, entregador, faxina. Salário médio na faixa cravada de 1 a 1,8 salário mínimo. Carga horária média de 44 horas/semana. Rotatividade alta — média de 11 meses por contrato, segundo o Dieese. Pra trabalhador preto que entra nesse posto, a vaga formal é cravadamente melhor que a informalidade — tem 13º, FGTS, INSS. Mas não é mobilidade. É estabilização no mesmo andar do prédio. O trabalhador preto que conseguiu vaga formal em garçom no Outback de Salvador em fevereiro de 2026 não está com perspectiva de virar gerente em três anos. Vai estar, em maior probabilidade, em garçom de outro restaurante em três anos.
Indústria patinando é o problema cravado. Indústria automotiva caiu 3,2% no tri por três razões: tarifa Trump sobre aço (subiu custo de insumo), juro alto que segura financiamento de carro novo (Selic ainda em 13,75% no fim do tri após dois cortes do Copom), e queda de exportação pra Argentina (Milei pressionou pra renegociar Mercosul, e setor automotivo segurou pedido em fevereiro e março). Indústria de bens de capital caiu mais — 5,1% — porque empresa não está investindo. Por que não investe? Porque arcabouço fiscal pressionado, reforma tributária em fase de transição, Trump abrindo nova frente comercial, Selic ainda alta — não tem horizonte cravado de 24 meses pra justificar capex novo. Indústria de bens de capital é onde o trabalho preto com salário acima de 3 salários mínimos entra desde a década de 1980. Quando ela patina, fecha porta. Caged confirmou: 4 mil postos fechados em indústria de bens de capital no tri. Maioria deles preenchidos por homem preto entre 30 e 50 anos.
PIB de 1,2% interanual rende uma observação que ninguém na coletiva do IBGE quis fazer em voz alta. Pra economia ter crescimento que efetivamente reduza desigualdade, precisa rodar acima de 3% por dois anos seguidos. Abaixo disso, o que acontece é estabilização — desigualdade não aumenta, mas também não cai. Brasil cresceu 3,2% em 2024, 2,1% em 2025, projeção mediana pra 2026 baixou pra 1,7% após a leitura desta sexta. Estamos no terreno do "não piora muito". Bolsa Família estendido pelo decreto de fevereiro segura piso de renda do decil 1 e 2. Pé-de-Meia segura juventude no ensino médio. MCMV faixa 1 segura habitação. Mas nenhum desses é mobilidade — é assistencialismo cravado e necessário pra evitar regressão. Quem entrou no decil 1 em 2003 e ainda está em 2026 sabe que assistência segura. Não promove. O homem preto brasileiro que vota Lula pela quarta vez em outubro de 2026 vota pelo que ele sabe que segura. Por mobilidade, ele já parou de pedir.
Pro próximo tri — abril a junho. Três variáveis cravadas em pauta. Copom deve cortar mais 50 pontos em 6 e 7 de maio, levando Selic pra 13,25%. Reforma tributária entra em fase 2 de operacionalização, com Comitê Gestor do IBS começando a operar em outubro. Trump abriu segunda rodada de tarifa em março — frango, suco, soja e aviação no foco. Câmbio testou R$ 6,05 na primeira semana de abril, voltou pra R$ 5,92 com leilão do BC. Setor agropecuário vai pegar choque dessas duas variáveis — tarifa cobra exportação, câmbio depreciado encarece insumo. Indústria pode segurar com a queda de Selic, se Copom acelerar corte. Serviço vai seguir crescendo enquanto consumo das famílias continuar firme, e ele continua firme porque Bolsa Família, Pé-de-Meia e MCMV seguram base.
Pro homem preto brasileiro em abril de 2026 — três coisas cravadas. Vaga formal está vindo, mas no andar de baixo. Vaga industrial está sumindo no andar do meio. Vaga de C-level está no andar de cima onde 6,1% do board é preto. PIB de 1,2% confirma o que o decil 4 já sabia desde fevereiro — não é recessão, mas também não é entrada na classe média. É estagnação cravada disfarçada de "estabilidade". E pra quem aluga, paga cartão, anda de Uber e come arroz, estabilidade é palavra que o Banco Central usa quando o problema dele já está sob controle — e o problema do trabalhador ainda não.