Vinte mulheres, dez anos, uma etiqueta

A Cooperativa de Costureiras Negras de Santo André entregou no dia 11 de fevereiro a primeira coleção própria depois de dez anos costurando peça de terceiro pra rede. Vinte e três peças, todas femininas, todas em algodão cru, etiqueta de papel cartão recortado à mão pela Lúcia Aparecida da Silva, presidente da cooperativa, cinquenta e um anos, três filhos crescidos, neta de costureira de Itapecerica da Serra. O showroom é a sala da casa da Lúcia, com o sofá da Magazine Luiza coberto de plástico desde 2014 — não porque tenha guerra contra pó, mas porque o plástico veio com o sofá e ninguém mais tirou. Preço da coleção: R$ 89 a regata, R$ 167 o vestido midi, R$ 220 o casaco curto. Tiragem inicial: cinco peças de cada modelo. A coleção inteira cabe em duas araras de varal.

A cooperativa nasceu em 2016 com seis mulheres da igreja Universal do bairro Vila Linda, em Santo André, depois que a Maria Aparecida — não a Lúcia, outra Maria, que entregou a presidência em 2019 — perdeu o contrato de costura de uniforme escolar pra Prefeitura por causa de mudança na licitação. Sobraram seis máquinas Singer doadas pelo Instituto Embraer, dois rolos de tecido pago do salário antigo, e uma vontade que veio depois do choro. A primeira encomenda foi de quinhentos aventais pra padaria portuguesa do bairro. Pagaram R$ 12 a peça. As mulheres dividiram R$ 6 mil entre seis em três meses. Dá pra contar como história inspiradora. Pode ser que seja. Mas a história inspiradora omite o detalhe: três das seis fundadoras saíram da cooperativa em 2017, 2019 e 2022. Cansaço, divórcio, mudança pra Belo Horizonte. Cooperativa não é casamento eterno. É casamento longo.

O que mudou em 2025 foi crédito. Em maio do ano passado, a cooperativa fechou contrato com o Banco da Mulher Empreendedora — uma operação tocada pelo BNDES e pela Caixa, especializada em microcrédito feminino, com taxa de 1,2% ao mês, sem aval bancário, com análise feita por agente de campo que vai até a sede. Foram R$ 38 mil em capital de giro, parcelado em vinte e quatro vezes. Esse foi o dinheiro que comprou os dois rolos de algodão cru de Americana, pagou o estilista freelance — Daniel Camargo, vinte e oito anos, sobrinho da Lúcia, formado pelo SENAI em 2022 — e bancou a remessa fotográfica que virou o lookbook da coleção. Daniel cobrou R$ 1.800 pelo design completo, dividido em quatro vezes, e topou o pagamento porque a Lúcia foi quem pagou o curso do SENAI dele em 2020 quando o pai estava desempregado. Esse tipo de troca não entra em planilha. Entra em afeto. Mas se você for fazer balanço da cooperativa, precisa contar essa linha como ativo invisível — é o que faz a cooperativa funcionar em vez de quebrar.

A máquina overlock que veio em 2017 ainda costura. O marido da Lúcia, que veio em 2007, já não — saiu de casa em 2021 depois que a cooperativa começou a faturar mais que o salário dele de motorista de van escolar. Lúcia conta isso sem amargura no almoço de feijoada de quinta-feira que reúne as costureiras na cozinha dela. Diz que perdeu marido e ganhou cooperativa, e que se tivesse que escolher de novo escolheria do mesmo jeito. As outras dezenove riem. Não é riso de novela. É riso de quem sabe que o número de cooperativas femininas no ABC quintuplicou desde 2018, e que essa curva vem acompanhada de uma curva paralela invisível: divórcio em cooperante mulher subiu 34% no mesmo período segundo levantamento de 2024 da Pastoral da Mulher Marginalizada de Diadema. Empreender feminino preto custa contrato familiar antigo. A literatura econômica chama isso de "custo social do empreendedorismo de necessidade". A Lúcia chama de "preço do bom dia que a gente paga".

A coleção foi lançada no dia 11 numa feira improvisada no Centro Cultural Negro de Santo André — espaço cedido sem cobrar pelo presidente da entidade, Carlos Tavares, sessenta e oito anos, sambista aposentado da Vai-Vai, jurado adicional do Carnaval de São Paulo. Trezentas pessoas circularam entre quatro e oito da tarde. Compras na boca do caixa: dezenove peças vendidas no primeiro dia, faturamento de R$ 3.840. Encomendas com sinal: mais quarenta peças, faturamento projetado de R$ 7.200. Em quatro horas, a cooperativa moveu mais do que move em três semanas de costura de uniforme terceirizado. A diferença está cravada na etiqueta. Quando a etiqueta diz "Cooperativa Mulheres do ABC — Santo André, SP", o produto vira política. Quando diz "Coleção 2024 — Pernambucanas Linha Casa", o produto vira commodity. A Lúcia sabe disso. A diferença foi calculada por ela em três anos de reunião na sala dela com o sofá de plástico.

Mas a gente precisa ser honesta sobre o que essa coleção não resolve. A cooperativa tem vinte mulheres CLT formais? Não. Tem vinte cooperantes com retirada mensal variável conforme produção, em média R$ 1.870 em 2025, sem 13º, sem férias remuneradas, com INSS pago como facultativa de baixa renda — R$ 73 por mês — quando dá. Tem plano de saúde? Não. Plano dental? Não. Vale-alimentação? Não. Estabilidade? Não. O que tem é controle do horário, controle da produção, divisão da receita sem patrão branco no meio, e o sentido de pertencimento que toda fábrica terceirizada da Pernambucanas que elas atendiam até 2019 não dava. É melhor que a alternativa? É. É emprego decente como define a OIT? Não é. Cooperativa é o melhor que a gente consegue dentro do pior que o mercado oferece, e ainda assim é frágil — depende de crédito que pode secar em 2027 se o programa do Banco da Mulher Empreendedora não for renovado, depende de feira de venda direta que pode esfriar quando a moda mudar, depende de Lúcia que tem cinquenta e um anos e ainda não pensou em sucessão.

O que a coleção representa pra Lúcia, no almoço de domingo do dia 14 com a Maria Bethânia tocando em CD pirata na cozinha — porque ela ouve Bethânia em CD desde 1996 e se recusa a aprender streaming — é diferente da matéria que vai sair na Folha de São Paulo na quarta-feira (vai sair, Daniel mandou release pra editoria de moda). Pra repórter da Folha, é "iniciativa promissora de empreendedorismo feminino periférico". Pra Lúcia, é a primeira vez em dez anos que ela vai poder dizer que a filha do meio, Aline, vinte e seis, formada em pedagogia, não precisa fazer faxina nos sábados pra completar o aluguel. Não é o mundo. É o pedaço de mundo que coube. E é o pedaço que importa.

REPORTAGEM — Apuração em Santo André (SP) entre 9 e 14 de fevereiro de 2026, com entrevistas in loco na sede da cooperativa, dados Banco da Mulher Empreendedora (BNDES-Caixa), Pastoral da Mulher Marginalizada de Diadema, Centro Cultural Negro de Santo André e SENAI-SP.