Nove vírgula oito por cento, com asterisco em três lugares

B3 publicou em 4 de fevereiro o Relatório de Diversidade Corporativa 2026, base 2025. Dado-âncora: 9,8% de conselheiros de administração negros nas 387 companhias listadas no Novo Mercado e nos níveis 1 e 2 de governança. Em 2024 eram 8,1%. Em 2020 eram 4,3%. Curva ascendente, e curva cravada. Mas o mesmo relatório mostra dado paralelo: dos 9,8%, três quartos estão concentrados em 38 empresas — todas com programa de afirmativa interna desde antes de 2020. As outras 349 companhias, juntas, contribuem com 2,4% de conselheiros negros no total. A maioria do mercado, em 2026, ainda opera com board branco.

Conselho de administração não é cargo executivo — é cargo de supervisão estratégica. Reúne quatro vezes por ano em mínimo, recebe entre R$ 18 mil e R$ 250 mil por reunião conforme tamanho da empresa, decide sobre nomeação de CEO, distribuição de dividendos, e mudança de estatuto. É o último lugar do organograma onde voto formal de pessoa preta pode interferir em decisão de bilhão. E é precisamente o último lugar onde a representação avançou. Em diretoria executiva — onde o trabalho operacional acontece — o número é 4,1%. Em gerência intermediária, 11,2%. Em vendas, 23%. Em operação fabril, 38%. A pirâmide racial do mercado de capitais brasileiro tem base preta e topo branco. O relatório B3 confirma com número.

De onde vem o número de 9,8% — três fontes. Primeira: programa Pacto Pretos no Conselho, lançado pelo Centro de Inovação para a Geração 2030 em 2021 com apoio da B3, da Bain e do BTG. Formou 312 conselheiros negros até dezembro de 2025, dos quais 89 foram efetivamente eleitos. Segunda fonte: programas internos de empresas — Itaú, Bradesco, Magazine Luiza, Natura, Vale, Petrobras — que cravaram cota informal de 10% a 30% em board até 2025. Terceira fonte: pressão de fundo soberano e fundo de pensão estrangeiro, especialmente CalPERS, GPFG (Noruega) e ATP (Dinamarca), que passaram a exigir relato ESG racial desde 2023 sob pena de exclusão de portfólio. Sem a terceira fonte, a curva não teria subido como subiu. O dinheiro externo virou o motor que política pública brasileira não foi.

Quem é esse conselheiro negro médio? Relatório B3 cruzou perfil. Idade média 54 anos. Formação MBA em 64% dos casos — INSEAD, Stanford GSB, Wharton, FGV. Carreira anterior em consultoria estratégica (29%), banco de investimento (24%), executivo C-level em multinacional (22%). Quase nenhum vem de empreendedorismo preto direto. Quase nenhum vem do setor público. Nenhum vem de movimento social. É um perfil que o mercado chama de "diversidade técnica" — preto que se moveu pela estrutura corporativa convencional, e por isso é palatável pra board que ainda processa "preto" como categoria estranha. O preto que entrou no Itaú em 1990 e fez carreira, virou conselheiro do Itaú em 2024. O preto que abriu confeitaria em Pirituba, formou três funcionárias, lê balanço de competência, segue do lado de fora.

Onde o número trava. Empresa familiar de capital fechado que abriu IPO recente — JHSF, Allos, Vamos, Grupo SBF — tem 0% de conselheiros negros. A explicação é simples: conselho de empresa familiar é cota dos herdeiros e amigos da família. Reforma de governança da B3 não toca nesse perímetro. Petrobras tem 6 conselheiros negros em 11 cadeiras desde a gestão Magda Chambriard — caso isolado, ligado a controle estatal. Itaú tem 3 em 12. Vale tem 2 em 10. Magazine Luiza tem 4 em 9 e é a líder absoluta. Mas se você tirar essas seis empresas do cálculo geral, o índice de 9,8% cai pra 6,1%. O dado-âncora se sustenta porque seis empresas grandes carregam o resto da estatística no colo.

ESG racial virou kit de adesivo de relatório anual de empresa listada. Página 47 do anuário traz foto de board com pessoa preta. Página 48 traz foto de mulher na produção. Página 49 traz indicador de "diversidade de identidades". O adesivo cobre buraco — buraco de salário, buraco de promoção interna, buraco de fornecedor preto, buraco de pesquisa orçada com vetor racial. Recuo DEI nos EUA em 2025 — Walmart, Ford, Boeing, Lowe's cortaram programa em série — começou a contaminar o ambiente corporativo brasileiro. Empresa que tinha programa de afirmativa começou a recalibrar "para evitar exposição litigiosa". Tradução: medo de gente que processa porque não foi promovido por ser branco. A onda americana chegou na praia brasileira em outubro. Os primeiros sintomas aparecem em fevereiro.

Pra 2027 — três variáveis que vão decidir se o número sobe ou recua. Lei das S.A. está em revisão na Câmara desde 2024, com proposta de obrigação de relato racial em conselho (PL 4.108/2024 do dep. Paulão). Vai virar lei se Lula reeleger em outubro — vai morrer em comissão se for governo de oposição. Pacto Pretos no Conselho perdeu três grandes financiadores em 2025 e está em risco operacional para 2027. CalPERS, sob pressão política da gestão Trump, está revisando próprio mandato ESG — relatos preliminares indicam recuo gradual. Sem o tripé Lei-Pacto-Fundo, o número de 9,8% trava em 2026 e começa a recuar em 2028. Conselheiro preto que entrou em 2023 termina mandato em 2026 ou 2027 — sem renovação cravada, a estatística cai por evaporação natural. É como funciona, e o funcionário da B3 que assinou o relatório sabe disso. Só não pode escrever.