O carnaval brasileiro movimentou em 2025 R$ 14,3 bilhões — soma de cinco circuitos (Rio, São Paulo, Salvador, Recife, Olinda) calculada pela Confederação Nacional do Comércio com dados de Embratur, Anac e estados. Desse total, R$ 4,1 bilhões vieram de turismo, R$ 3,2 bilhões de bares e restaurantes, R$ 2,8 bilhões de hospedagem e transporte, R$ 2,1 bilhões de comércio informal, R$ 2,1 bilhões de patrocínio corporativo e ingresso de camarote. Quatorze bilhões. É faturamento de Petrobras num bimestre fraco. Mas pergunte ao mestre de bateria da Mangueira quanto entrou na conta pessoal dele em 2025 — porque o samba que dá Globeleza dá pouquíssimo CNPJ.
A arquitetura do dinheiro do carnaval tem duas camadas que não se conversam. A camada formal — patrocínio Ambev, ingresso Liesa, direito de transmissão Globo, hospedagem rede hoteleira, infra Anac/concessionária — emite nota fiscal, paga ISS e ICMS, registra empregado CLT. É essa camada que entra nos R$ 14,3 bilhões oficiais. Estima-se que ela concentre cerca de 62% do total faturado, segundo o estudo CNC/Sebrae março 2025. Os outros 38% — R$ 5,4 bilhões — circulam na economia informal: ambulante, costureira de fantasia, baianas de acarajé alugadas em camarote, motoboy de logística clandestina, dançarino de bloco contratado por cachê em dinheiro. Esses R$ 5,4 bilhões pagam aluguel da família que mora atrás do barracão. Não pagam INSS.
Seu Manoel, 71, costureiro da Mangueira há 38 anos, recebeu R$ 4.800 pelo trabalho de seis meses de bordado da comissão de frente do desfile de 2025. Trabalhou cinco horas por dia, seis dias por semana, ouvindo Roberto Carlos no rádio do barracão da quadra. Calcula que seu salário-hora ficou em R$ 6,67. Lei do salário mínimo brasileiro em 2025: R$ 8,46 a hora. Seu Manoel não conhece a conta. Sabe que ganhou pouco. Sabe também que aposentadoria dele saiu por R$ 1.412 — um salário mínimo — porque trabalhou trinta anos como informal antes de regularizar onze. Os trinta anos do barracão não foram contados. Esse é o problema operacional do carnaval enquanto economia. O barracão é fábrica que paga vale-transporte com salgadinho de churrasco no domingo da quadra.
A demografia de quem ganha e quem trabalha é o número que ninguém da Liesa solta com facilidade. Dos 12 mestres de bateria das doze escolas do Grupo Especial do Rio, 11 são pretos ou pardos. Dos 12 presidentes das mesmas escolas, 7 são brancos — e os 7 brancos comandam as escolas com maior orçamento e maior captação. A Sapucaí tem 70% dos componentes pretos ou pardos. Tem 30% dos cargos administrativos remunerados com CLT ocupados por pretos ou pardos. Esse vão de 40 pontos é a indústria do carnaval em planilha. Ninguém olha pra essa planilha. Ela existe — Observatório do Carnaval da UERJ, edição 2024 — mas não circula em coluna de economia.
Em Salvador, a estrutura é outra — e o vão é igual. O circuito Barra-Ondina movimentou R$ 1,8 bilhão em 2025 segundo Setur-BA. Daniela Mercury, Ivete Sangalo, Bell Marques e Cláudia Leitte cobraram, somadas, cerca de R$ 60 milhões em cachês de seis dias de circuito — média de R$ 15 milhões por artista. Esses R$ 60 milhões equivalem a folha anual de aproximadamente 4.200 trabalhadores informais do mesmo circuito (cordeiros, ambulantes, seguranças PJ, vendedores de água) que ganham em média R$ 1.180 pelos seis dias. O cordeiro, profissional que carrega corda de bloco, é figura tão emblemática do carnaval baiano quanto o trio elétrico. Em 2026, segue sem CLT, sem seguro contra acidente, sem definição clara de tributo. A SIMM-BA estima cerca de 33 mil cordeiros ativos no carnaval — 89% pretos ou pardos. Nove em dez. A Lei 14.297/2022 protege motoboy de aplicativo. Não protege cordeiro de trio.
No Recife/Olinda, frevo de rua, maracatu, caboclinho. Mais bonito de assistir, menor de faturar. R$ 1,1 bilhão em 2025, segundo Empetur. A captação principal é Embratur federal e patrocínio Itaipava. Os mestres de maracatu, em sua maioria pretos, recebem cachê de R$ 800 a R$ 2.400 por desfile — quando recebem direto da prefeitura via convênio cultural. Quando o show vira contrato com empresa, o cachê dobra. Mas o contrato com empresa exige CNPJ ativo, nota fiscal, comprovação tributária e pessoa jurídica idônea — três coisas que mestre de tradição passada de geração não tem. Resultado: o carnaval brasileiro fatura quatorze bilhões e termina sem CLT pra metade da força de trabalho. É Vale Tudo escrito por contador. Quem assiste pela televisão vê festa. Quem trabalha por dentro fecha março ainda devendo aluguel de fevereiro.
DOSSIÊ — Apuração consolidada com dados da CNC, Sebrae, Liesa, Setur-BA, Empetur, Observatório do Carnaval da UERJ e entrevistas em campo no Rio, em Salvador e em Olinda.