A 54ª edição do Festival de Cinema de Gramado, marcada para 12 a 22 de agosto de 2026 na serra gaúcha, selecionou seis longas brasileiros de ficção para disputar o Kikito de melhor filme, e entre os seis diretores uma única pessoa negra assina cadeira de direção: Grace Passô, atriz e dramaturga mineira que estreia na direção de longas. Passô é a única mulher e a única cineasta negra da mostra competitiva deste ano. Os outros cinco filmes são dirigidos por homens, e nenhum deles é negro: "Chorão, Só os Loucos Sabem", de Hugo Prata e Felipe Novaes; "Feito Pipa", de Allan Deberton; "Justino, Nos Bastidores do Reino", de José Eduardo Belmonte; "Leite em Pó", de Carlos Segundo; e "Pele de Rinoceronte", de Marcello Ludwig Maia. Não há, na disputa, um só longa concorrente dirigido por um homem negro.

Passô chega à serra depois de um percurso que quase nenhum estreante tem. "Nosso Segredo", seu primeiro longa, teve estreia mundial na seção Perspectives do 76º Festival de Berlim, em 14 de fevereiro, faixa da Berlinale dedicada a primeiras obras, e depois circulou por festivais no Uruguai, na Argentina, na França e na Jordânia antes da estreia brasileira em Gramado. O filme acompanha uma família negra tentando reconstruir a rotina depois de uma perda. A presença dela prova que existe autoria negra pronta para competir no mais alto nível. Prova também, por contraste, que esse funil se abriu para uma pessoa, e para nenhum homem negro.

A masculinidade negra some atrás da câmera exatamente onde mais aparece diante dela, e é essa distância entre quem atua e quem dirige que organiza o problema de Gramado 2026.

Antonio Pitanga, um dos maiores nomes vivos do cinema negro brasileiro, atua em dois dos seis concorrentes: "Justino, Nos Bastidores do Reino" e "Leite em Pó". Em nenhum dos dois ele dirige. O caso mais nítido do paradoxo é o "Justino". Ambientado no Rio de Janeiro dos anos 1980, o filme acompanha a ascensão de um homem que encontra numa igreja neopentecostal a saída da pobreza e a subida rápida como pastor. Christian Malheiros, ator negro, faz o protagonista; Caio Blat vive um jovem Edir Macedo; a direção é de um homem branco, Belmonte, sobre roteiro dele e de Luiz Fernando Emediato. A tela recebe o corpo, o rosto, a voz. A sala de roteiro e o comando de produção seguem noutras mãos.

A curadoria dos longas nacionais coube às atrizes Ana Flavia Cavalcanti e Camila Morgado e ao jornalista e crítico de cinema Marcos Santuario. O festival se apresenta como retrato do cinema brasileiro contemporâneo, e a frase não resiste ao confronto com a lista de nomes atrás das câmeras. Quantos longas de direção negra masculina foram inscritos e recusados neste edital de seleção é dado que o festival não torna público. O volume de recusa e os critérios de corte não foram apurados por esta reportagem, e por isso este texto não vai fingir que sabe o tamanho do gargalo. O que fica visível, sem margem de dúvida, é onde ele está: não na câmera do diretor, na porta que decide o que o público brasileiro vê primeiro, o que a imprensa cobre, o que abre carreira internacional.

Três dos seis diretores estreiam em longas de ficção nesta edição: Grace Passô, Carlos Segundo e Marcello Ludwig Maia. A régua da estreia, portanto, existe e foi aplicada, mas se aplicou a Passô sem se aplicar a nenhum homem negro. Não é que falte obra pronta; é que o funil de seleção deixou passar uma autoria negra e nenhuma delas masculina, no ano em que Pitanga aparece em dois filmes e Malheiros carrega um protagonista negro na tela.

O festival mais antigo do país em atividade contínua abre em 14 de agosto, com a exibição fora de competição de "Antártida", de Bruno Safadi, e decide, com essa lista de seis nomes, quem sobe ao palco do Palácio dos Festivais para receber aplauso e cobertura nacional. Os Kikitos só serão entregues ao fim da mostra, e quem vence ainda não está escrito. O que já está é a composição de quem dirige. Enquanto a seleção falar em retrato do Brasil sem que um homem negro assine a direção de nenhum concorrente, o retrato segue incompleto, e o público de Gramado vai aplaudir, mais uma vez, os personagens negros sem aplaudir quem os dirigiu.