Contexto e Leitura

O caboclo de lança levanta antes do sol, na Zona da Mata de Pernambuco, e enfia na boca um galho de erva-doce para aguentar três dias sem dormir. Carrega no lombo um surrão de guizos que pesa como um saco de cana, veste um capacete de fitas que custou o salário de um mês e sai da casa de taipa em promessa a Nossa Senhora do Rosário e a São Benedito, os santos pretos do catolicismo brasileiro. É trabalhador rural o resto do ano. No maracatu de baque solto, nascido nos engenhos da Mata entre o fim do século XIX e o começo do XX, ele vira guardião, anjo, soldado de uma corte negra que desfila há mais de cem anos. O Cambinda Brasileira, o mais antigo em atividade contínua, foi fundado em 1918. Guarde a data: é anterior à maioria das prefeituras que hoje vendem o ciclo das festas populares como patrimônio próprio.

Pernambuco fechou o São João de 2026 com uma conta redonda: R$ 1,46 bilhão de receita turística bruta, 22% acima de 2025, quase 1,8 milhão de turistas, ocupação hoteleira média de 99,82% no Agreste e de 100% em Caruaru. Campina Grande, do outro lado da divisa, somou cerca de 3,5 milhões de visitantes e mais de R$ 816 milhões, alta de 10% sobre o ano anterior. É dinheiro de verdade, e é bom que exista. A pergunta não é se a festa dá lucro. É por onde o lucro entra e por onde ele não sai.

A cultura que enche o cofre é preta; o dinheiro que sai do cofre, na maior parte, não volta para quem a inventou.

Olhe a folha de pagamento. O portal Brasil de Fato levantou os cachês que o poder público pernambucano bancou neste ano: shows de R$ 1,5 milhão para Gusttavo Lima e Wesley Safadão, R$ 900 mil para Nattan em Caruaru, R$ 750 mil para João Gomes em Surubim. Só em Caruaru, dezessete apresentações passaram de R$ 500 mil e somaram R$ 22,7 milhões. Petrolina, no Sertão, pagou R$ 950 mil a Leonardo e outros R$ 750 mil a João Gomes. Não há nada de errado em pagar um artista pelo trabalho. O que salta é a geometria do dinheiro: o recurso público sobe ao palco, ilumina meia dúzia de nomes e desce do trio. O caboclo de lança que deu o corpo à festa não tem cachê, não tem contracheque, não tem plano de saúde para o joelho que o surrão destruiu.

A narrativa oficial ajuda o esquecimento. Ensina-se na escola que a festa junina chegou inteira com o colonizador português: São João Batista, fogueira, quadrilha, catolicismo, e ponto. É verdade pela metade, e meia verdade é o disfarce preferido do apagamento. A palavra folclore, que empacota congado e maracatu num compartimento pitoresco, foi cunhada pelo inglês William Thoms em carta de 1846 à revista The Athenaeum, para separar o saber "do povo simples" do saber erudito. No Brasil, essa gaveta cumpriu função precisa: rebaixar sistema religioso e organizacional negro a enfeite de calendário. Congado não é enfeite. As irmandades de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, formadas por escravizados e libertos, existem em Minas Gerais desde 1704, quando a primeira delas se ergueu no Serro; hoje o congado está em ao menos 313 municípios do estado. Foi nessas irmandades que o homem preto no Brasil colonial aprendeu a se organizar em instituição própria, a eleger rei, a administrar caixa, a enterrar os seus com dignidade. Chamar isso de folclore é reduzir a primeira forma de sociedade civil negra do país à condição de atração turística.

É aqui que a masculinidade negra deixa de ser tema ilustrativo e vira chave de leitura. O caboclo de lança é um homem preto que, onze meses por ano, corta cana ou vira biscate, e que no ciclo da festa assume o papel de guardião de uma corte, de protetor, de quem carrega o peso para que a alegria dos outros aconteça. O mestre que tira a loa, que improvisa verso em cima do baque, é autoridade dentro do terreiro do maracatu e fantasma fora dele. No palco de 2026, o homem preto aparece hipervisível, suado, vendendo festa pelos 6,8 dias de permanência média do turista. No escritório que assina o contrato, no conselho que decide o edital, na produtora que fatura a diária de R$ 1,5 milhão, ele quase não aparece. Hipervisibilidade no corpo, escassez no comando: é o mapa da masculinidade negra no Brasil, e o São João apenas o repete em escala de bilhão.

Reivindicar que o São João é festa negra não é disputar santo nem trocar fogueira por atabaque. É pedir que a conta de R$ 1,46 bilhão passe pela casa de taipa onde o caboclo põe a erva-doce na boca antes de o sol nascer. É perguntar, no dia do acerto, quem assina o recibo. A festa se mede não pela luz do palco, mas pelo engenho lá atrás, com a fila da cana esperando a vez.