Contexto e Leitura

Em Itabuna, no sul da Bahia, uma única noite de junho de 2026 foi orçada em R$ 1,5 milhão, e o cheque saiu no nome de Gusttavo Lima, cantor sertanejo goiano contratado para animar um Estado de maioria preta e parda. Não é um escândalo isolado, é o topo de uma tabela. No São João da Bahia deste ano, o Painel de Transparência dos Festejos Juninos registrou R$ 124 milhões em contratação de artistas, e o jornal A Tarde calculou que cantores de sertanejo e arrocha ficaram com quase R$ 100 milhões desse bolo. Wesley Safadão pediu R$ 1 milhão. Gusttavo Lima, R$ 1,1 milhão na tabela geral. Do outro lado da planilha, Alceu Valença, Elba Ramalho e Alcymar Monteiro, que carregam o repertório de raiz do Nordeste, receberam até R$ 250 mil, mais de quatro vezes menos.

Suba mil quilômetros até o Parque do Povo, em Campina Grande. A 43ª edição d'O Maior São João do Mundo levou 3,45 milhões de pessoas em 33 dias, 6,7% mais que em 2025, e das 119 atrações do palco principal, 88 tinham o forró como identidade. A festa inteira se ergue sobre a sanfona de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, homem preto de Exu que inventou o baião moderno de gibão de couro e chapéu de vaqueiro. Em Caruaru, o palco central se chama Pátio Luiz Gonzaga. Em Amargosa, no interior baiano, o palco principal é o Gonzagão, e o coreto da vila abre para o samba de roda, matriz africana do Vale do Jiquiriçá. O padroeiro sonoro dessas festas é um sanfoneiro preto do sertão.

O palco leva o nome de um homem preto de Exu; o maior cheque, quase sempre, leva o nome de um cantor branco de outra praça.

É aqui que a pergunta de raça vira pergunta de gênero. O homem negro nordestino aparece por toda parte na cena junina, e quase sempre no mesmo posto: em cima do trio, na sanfona, no zabumba, no pé de serra, no corpo que dança a quadrilha e puxa o boi. Hipervisível no palco, escasso na produtora, ausente no conselho que assina o contrato. O forrozeiro de raiz, que enche uma praça de bairro por um cachê de quatro dígitos, divide o mesmo mês com o astro pop que fatura sete dígitos por uma noite e vai embora de jatinho antes de a poeira baixar.

Os números do circuito são grandes o bastante para caberem todos, se houvesse vontade de repartir. Caruaru moveu R$ 737,6 milhões e mais de 4 milhões de visitantes na temporada de 2025. Amargosa, cidade pequena do Recôncavo, projetou R$ 50 milhões e 90 mil pessoas por dia, com a prefeitura tirando cerca de R$ 9 milhões do próprio caixa. Mossoró encheu o arraiá do Rio Grande do Norte com 1,5 milhão de pessoas e um espetáculo, o Chuva de Bala, tocado por setenta artistas para quatro mil espectadores por noite. Parintins, no outro extremo do país, injetou R$ 193,2 milhões na economia amazônica com o boi-bumbá, outra festa de matriz preta e cabocla onde o corpo que sua na arena raramente é o corpo que assina o balanço. Dinheiro público entra em todas. A pergunta é por qual porta ele sai.

Em 2026 o desequilíbrio ficou explícito demais para passar batido. O Ministério Público da Bahia recomendou que os contratos não passassem dos valores de 2025 corrigidos pela inflação, e negociou reduções com quase cinquenta atrações. Flávio José, um dos últimos guardiões do forró de pé de serra, cancelou cerca de 15 shows no Estado alegando que as prefeituras não fechavam o cachê que pedia, R$ 350 mil, um terço do que um sertanejo de topo leva numa noite só. Quando o forró raiz cobra o justo, some da grade. Quando o pop paga o dobro, entra no meio da festa que homenageia Luiz Gonzaga e ainda transmite jogo da Copa no telão.

No fim de junho, apagados os holofotes de Campina, Caruaru, Mossoró, Parintins e Amargosa, quem desmonta o palco é o mesmo homem preto que o montou, por diária, sem crédito na ficha técnica. Ele ouviu o valor do cachê do headliner na roda do camarim. Sabe que a festa foi erguida no nome de alguém parecido com ele, e que o milhão foi para outro. O São João mais preto do mundo ainda paga melhor a quem chega de fora.