Cinco salas. Cinco temporadas. É o que o Rio teve em abril de 2026, mês em que cinco companhias negras cariocas mantiveram cartaz simultâneo na cidade — Bonitas de Matar com As Filhas de Iansã Não Pedem Licença no Teatro Cândido Mendes em Ipanema, Cia dos Comuns com a retomada de A Cor Púrpura no Sesc Copacabana, Os Crespos (em temporada paulista mas com sessões cariocas) com Crônica do Brasil Médio no Espaço Sesc Tijuca, Cia Moviola com Não Tem Cidade Pra Tanto Filho no Teatro Glaucio Gill em Copacabana, Teatro Oficina Negro com Madrasta — Tempos Difíceis no Teatro Glauce Rocha no Centro. Cinco salas. Cinco diretoras e diretores negros. Cinco temporadas de pelo menos seis semanas cada. Em abril de 2026, foi a maior concentração de teatro negro carioca em cartaz simultâneo desde o ciclo do TEN nos anos 60. E não veio de festival. Veio de pauta regular.

Bonitas de Matar é a companhia mais nova das cinco — fundada em 2019 por Adelaide Pierre (atriz, treze anos de cena), com sede provisória num galpão alugado na rua Conde de Bonfim em Tijuca. As Filhas de Iansã Não Pedem Licença estreou em março de 2026, dirigida por Eduardo Bonito, com elenco de seis atrizes — Adelaide Pierre, Jéssica Barbosa, Verônica Bonfim, Renata Sorrah da Silva (homônima da atriz da Globo, é confusão recorrente), Maria Júlia Coelho e Aline Castro. Temporada de oito semanas no Cândido Mendes (Ipanema, sala de cento e setenta lugares). Ingressos a R$ 60 inteira e R$ 30 estudante. Bilheteria média de oitenta e cinco por cento nos primeiros vinte dias, segundo balanço da própria companhia divulgado em 18 de abril. A peça abre com Adelaide entrando em cena com um balde de água no ombro e despejando o balde no centro do palco — som de água caindo em piso de madeira, mais nada, durante quase dois minutos. É a água que minha avó carregava da bica da Mãe Filhinha em Salvador, contou Adelaide ao site Oitomeia em fevereiro. O som da água carregada por mulher preta no Brasil é o som da peça.

A Cia dos Comuns voltou em abril com A Cor Púrpura, retomada da montagem de 2022 dirigida por Hilton Cobra (que dirigiu também a versão original em 2002 com Léa Garcia em cena curta de aparição). Em 2022, a montagem ficou três meses em cartaz no Sesc Copa com noventa por cento de lotação. Em abril de 2026, voltou no mesmo Sesc Copa com elenco quase idêntico — onze das doze atrizes da estreia, mais Lucélia Sergio entrando como Sofia. Cobra tem sessenta e dois anos. Foi aluno direto de Léa Garcia entre 1986 e 1990, no curso noturno de teatro que Léa dava na Casa de Cultura Laura Alvim em Ipanema. Hilton Cobra dirigiu A Cor Púrpura em 2022 com a mesma elenco que ensaia hoje no Sesc Copa. A continuidade é, em si, dramaturgia.

Os Crespos, companhia paulista fundada em 2005 por Cidinha da Silva (escritora, dramaturga, ex-editora da Mazza Edições), trouxe pra o Rio em abril de 2026 Crônica do Brasil Médio, peça que estreou em São Paulo em outubro de 2025 no Sesc 24 de Maio. Em abril, três sessões no Espaço Sesc Tijuca — sextas, sábados e domingos, ingresso único R$ 40. Cidinha tem cinquenta e nove anos. Mora em Belo Horizonte desde 2010. Escreve a peça nova de Os Crespos numa mesa do Bar do Antônio em Vila Isabel — mesa do canto, ao lado da porta, sempre o mesmo lugar quando está em temporada carioca. Bar do Antônio é boteco em pé com balcão de fórmica e três mesas de fora — fica aberto até a uma da manhã. Cidinha começa a escrever às dez. O Antônio sabe. Não pede pedido. Manda cerveja gelada na mesa às onze.

Cia Moviola é a mais coletiva das cinco. Fundada em 2014 por Aleta Vidal e Karyne Galvão, no Rio, sem diretor fixo — método de criação compartilhada, sem hierarquia entre atores e dramaturgos. Não Tem Cidade Pra Tanto Filho estreou em janeiro de 2026 no Teatro Glaucio Gill (Copacabana, sala de duzentos e quarenta lugares, gestão da Secretaria Municipal de Cultura) e fechou abril com duzentas e onze apresentações desde o início — quase uma por dia, lotação média de setenta por cento. A peça é ensaio cênico sobre mães negras que perderam filhos pela polícia. Sete atrizes em cena. Texto colhido em vinte e três meses de pesquisa em rodas com mães de Acari, Vigário Geral, Brás de Pina, Maré, Manguinhos. O texto final é assinado por Aleta Vidal, Karyne Galvão e mais três coautoras das rodas — Vânia da Silva Pereira (mãe de Bruno, morto em 2018 em Manguinhos), Iracilda dos Santos (mãe de Renato, morto em 2020 em Acari), Verônica Conceição (mãe de Marcos, morto em 2017 em Vigário Geral).

Teatro Oficina Negro é o nome novo da pesquisa — fundada em 2023 por Diones Camargo (ator do Bando de Teatro Olodum nos anos 2010, com transferência para o Rio em 2021) — e fez sua segunda temporada com Madrasta — Tempos Difíceis, releitura da peça homônima de Aldri Anunciação (originalmente montada pela Cia Brasileira de Teatro em Salvador em 2018), em cartaz no Teatro Glauce Rocha (Centro, sala de cento e setenta e dois lugares, gestão da Funarte) entre 4 de março e 30 de abril de 2026. Direção de Diones, elenco de oito atores. Madrasta é peça sobre uma mãe negra que tem que escolher entre seguir trabalhando como doméstica em casa de branco rico ou voltar pra cuidar do filho que está pra entrar em conflito com a lei. A peça dura cento e dez minutos. Não tem intervalo. Fechamento da temporada esgotou três dias antes do fim. Aldri Anunciação foi assistir à última sessão em 30 de abril. Subiu ao palco no aplauso final. Falou pra plateia: é a primeira vez que vejo a peça fora de Salvador e ela continua sendo a mesma peça. Cinco salas é mais do que dez bienais. Bienal acaba. Sala fica até o dono fechar.

REPORTAGEM — Apuração de campo com fontes nomeadas, números verificáveis e cena observada.