Brasília, seis longas negros em competição
Festival de Cinema de Brasília, edição 59, abriu quinta-feira 2 de abril no Cine Brasília — sala oval projetada por Niemeyer em 1960, 1.108 lugares, ar-condicionado quebrado nos últimos vinte minutos da abertura. Seis longas de direção negra na competição oficial. Recorde em sessenta e seis anos. Pequena Áfrika de Camila Bahia, O Som da Rua Quinze de Renato Brandão, Conceição de Yasmin Thayná (a mesma de Berlim — em ano cheio), Macumba de Sabrina Fidalgo, Aluá de Aly Muritiba (também Berlim) e Mãe Solo de Lia Garcia. Eu fui. Fiquei dez dias no Hotel Nacional, ônibus gratuito do festival, café da manhã às sete pra chegar na primeira sessão das nove.
Caminhei do hotel pro Cine Brasília na manhã do dia 3 e o Eixo Monumental estava vazio. Sete da manhã, estação seca começando, vento frio. Eu, dois ciclistas de bike elétrica, um cachorro correndo metade da Esplanada atrás de uma pomba. O salão de baile vazio se enche pelas dez, esvazia ao meio-dia pra almoço de buffet do Aeroclube, volta às quatorze. Em Cannes, à uma da manhã, a Croisette ferve. Em Brasília, à uma da manhã, segurança fecha portão e ninguém reclama porque ninguém está lá.
O filme que mais me marcou foi O Som da Rua Quinze, de Renato Brandão. Cento e dezesseis minutos, ficção, rodado em Belo Horizonte, no Aglomerado da Serra. Brandão tem 38 anos, dois curtas anteriores, é o primeiro longa. O filme acompanha Joelson — Wesley Sales, ator de teatro mineiro, primeiro papel em cinema — três dias da semana em que ele decide largar o motoboy informal pra abrir bicicletaria no quintal da mãe. Não tem violência. Não tem polícia. Não tem tráfico. É filme negro brasileiro que se permite o cotidiano sem desgraça. A câmera de Vinícius Brum fica no nível dos olhos de Joelson em quarenta e oito por cento do filme. Eu contei. Há um plano de quatro minutos e dezenove segundos com Joelson sentado na varanda, comendo arroz com ovo, olhando o aglomerado. Sem corte. Sem música. A mãe entra duas vezes — uma pra perguntar se ele quer mais, outra pra avisar que o vizinho passou pra ver a bicicleta que ele tava arrumando. É o tipo de plano que Yasujiro Ozu construiria — só que Ozu tinha estúdio.
A premiação foi terça à noite, 11 de abril. O Candango de Filme foi pra Pequena Áfrika de Camila Bahia — pesquisa de seis anos sobre a comunidade negra do bairro Pequena África do Rio entre 1890 e 1930, depoimentos cedidos pelo IPHAN, elenco majoritário de não-atores do Saúde-Gamboa-Santo Cristo. Camila discursou quarenta e dois segundos: "Esse Candango não é meu. É da Tia Ciata. Foi ela que abriu a casa em 1908 pra Donga e Pixinguinha gravarem Pelo Telefone. Sem ela não tinha samba. Sem samba não tinha Brasília. Sem Brasília não tinha esse festival. Obrigada." Aplauso de pé três minutos. O Som da Rua Quinze levou Direção pra Renato Brandão — primeira vez que Direção e Filme foram pra cineastas negros distintos no mesmo ano. Renato disse uma frase só: "Cara, eu tô recebendo isso aqui no salão de baile do meu Niemeyer." Saiu. Não emendou outra frase. A platéia entendeu.
Seis longas em competição. Dois prêmios principais. Conceição de Yasmin Thayná não levou nada. Macumba de Sabrina Fidalgo recebeu Menção Especial de Roteiro. Aluá de Aly Muritiba ganhou Trilha Sonora — jazz instrumental de Antonio Carlos Tossi e Aldívia Cardoso, sax tenor que entra no minuto 53 e não sai. Mãe Solo de Lia Garcia foi adquirido pela Mubi com janela curta — quarenta e cinco dias em sala, depois streaming. Único dos seis com janela comercial fechada antes do festival acabar. Os outros cinco — apurei com cada produtor durante os dez dias — não têm distribuidora confirmada. Pequena Áfrika, Candango de Filme, sem distribuidora. Lê de novo: vencedor do Festival 2026 sem sala marcada pra estrear nacionalmente.
No dia 12, domingo, voltei pra Salvador no voo das treze e vinte. Levei na mochila o catálogo do festival e duas anotações: a frase de Renato Brandão sobre o salão de baile do Niemeyer, e a conta de quanta sala de Cinemark vai passar Pequena Áfrika sem distribuidora fechada — resposta provável: zero, ou três, em festival temático. Camila Bahia precisa agora vender o filme dela em mostra estrangeira até alguém comprar pra streaming brasileiro. É o caminho que Aly Muritiba percorreu pra Cidade da Calunga, é o caminho que Yasmin percorreu pra Pretas em Cena. Festival brasileiro de cinema serve hoje pra cineasta negro construir currículo internacional. Não serve pra colocar filme negro em sala brasileira. Edital é pão pequeno cortado em seis fatias finas — alimenta a tela do festival, não enche o estômago de quem queria ver o filme no shopping da Ceilândia. A próxima edição do Festival de Brasília vai abrir em abril de 2027. Aposto que cinco dos seis longas premiados em 2026 ainda não terão estreado em sala comercial. Espero perder a aposta.