Marielle, oito anos depois, o arquivo aberto
Marielle: Oito Anos, longa-documentário de Petra Costa codirigido por Larissa Almeida, estreou em catorze de março de 2026, sábado, sessão das dezenove horas, Cine Roxy de Copacabana, 612 lugares lotados, ingresso vendido com quarenta e oito horas de antecedência. Vi a estreia. Petra estava na plateia. Anielle Franco também. Mônica Benício também. A diferença entre este documentário e qualquer um sobre Marielle feito antes — e foram seis, contando dois para TV aberta — é que pela primeira vez o material da agenda pessoal dela, o caderno azul de capa dura que estava sob lacre da Polícia Federal desde 2018, foi liberado por decisão judicial em fevereiro de 2025. Petra rodou três anos com esse caderno aberto em frente à câmera. O filme inteiro orbita esse objeto.
Petra Costa filmou Democracia em Vertigem (2019) sobre o impeachment. Filmou Apocalipse nos Trópicos (2024) sobre Bolsonaro. Agora filma sobre Marielle. Há uma trilogia em construção que o cinema brasileiro recente não havia se atrevido a montar, e é uma trilogia de uma só cineasta. Larissa Almeida, codiretora, vem do documentário curto — Travessia (2021), A Cor de Otelo (2023) — e entrou no projeto em 2023 quando Petra percebeu que sozinha não conseguiria. É raro cineasta com prestígio Petra chamar codireção. Mais raro ainda quando a codiretora é vinte e dois anos mais nova, mulher negra, nascida no Recife. O crédito conjunto não é gesto — é decisão de produção que muda a chave do filme.
O arquivo Franco mudou três coisas no filme. A primeira: nomes. Marielle anotou no caderno os nomes das mulheres que ela atendia no gabinete da Câmara — vereadora desde 2017, ela recebia em média noventa pessoas por semana, anotação minuciosa de demanda de cada uma. O caderno tem cento e oitenta e duas mulheres listadas entre fevereiro e março de 2018. Vinte e oito ainda estão vivas, segundo apuração feita por Larissa Almeida em 2023-2024. As outras cento e cinquenta e quatro — e cabe parar nessa palavra, cento e cinquenta e quatro — foram localizadas como mortas, desaparecidas, com endereço perdido, em situação de rua. A taxa de continuidade biográfica de mulher negra periférica do Rio entre 25 e 50 anos é de 18% em sete anos, segundo o filme. Eu não conheço dado desse calibre publicado em ciência brasileira antes do filme estrear.
A segunda coisa: agenda. Marielle anotou compromissos com agentes que depois foram identificados pela Polícia Federal como envolvidos no assassinato. Quatro nomes batem. O filme mostra plano-detalhe do caderno, página por página, com a letra dela — cursiva inclinada, abreviações pessoais ("Conv. p/ Joel quarta 16h"), riscado e reescrito. Petra deixa o plano por seis segundos contínuos. Não corta. Não narra. Não acompanha com música. É câmera fixa, papel envelhecido, luz baixa de janela, e o nome ali. É o tipo de plano que Errol Morris faria em The Thin Blue Line (1988) — Errol Morris faria com música. Petra faz sem. A escolha é gravíssima e correta. Plano-detalhe sem trilha vira juramento.
A terceira coisa: voz. O filme tem áudios da Marielle. Quatro ligações telefônicas gravadas com a equipe entre janeiro e março de 2018, descobertas em backup de aparelho que o pai dela guardou. Não são gravações dramáticas — é Marielle conversando sobre orçamento de campanha, sobre Letícia (filha) que precisa de aparelho ortodôntico, sobre cesta básica de Natal pra mulher do Borel. A voz dela é mais grave do que a maioria das reprises em vídeo mostrava. Ela fala com pausas. Pensa antes de responder. Em uma das ligações, alguém diz "olha, isso pode dar problema com gente que tu sabe", e ela responde "eu sei. Mas não vou parar de fazer". Anielle estava na plateia do Cine Roxy quando esse trecho passou. Ela chorou. Não há outra forma de descrever. O cinema parou de fazer fricção entre Marielle-personagem e Marielle-pessoa. As duas voltaram a coincidir.
Saí do Cine Roxy às vinte e duas horas, andei pela Avenida Atlântica até a Rainha Elizabeth, peguei o calçadão. Estava abafado mesmo em março. Pensei na cena que abre o filme, que eu não descrevi até agora porque queria deixar pro fechamento: é o calçadão de Copacabana, dois minutos do dia 14 de março de 2018, câmera de segurança requisitada pela investigação, sem áudio, sem comentário, sem letreiro. Pessoas caminhando. Marielle não aparece. Em algum lugar do Rio naquela mesma noite ela estava sendo morta no Estácio. O filme abre com a indiferença geográfica da cidade — a parte que andava na praia enquanto outra parte era assassinada num bairro a seis quilômetros dali. Petra escolheu não dramatizar. A indiferença é a tese do filme. E a tese fecha onde abre: a praia continua. Os mortos continuam. E o caderno azul, agora, está aberto.